# Questão 529d2638-75 — Português

> Questão de múltipla escolha com gabarito, do acervo do Dicas do ENEM.
> Página com a questão respondível: https://dicasdoenem.com.br/questao/529d2638-75

- **Código:** 529d2638-75
- **Disciplina:** [Português](https://dicasdoenem.com.br/disciplina/1-portugues)
- **Área:** [Linguagens](https://dicasdoenem.com.br/area/linguagens)
- **Ano:** [2025](https://dicasdoenem.com.br/ano/2025)
- **Instituição:** Faculdades de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo
- **Assuntos:** Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto
- **Nível:** Muito fácil
- **Gabarito:** alternativa E

## Enunciado

Para responder à questão, leia o capítulo
intitulado “A borboleta preta” do romance Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis.

No dia seguinte, como eu estivesse a preparar-me para
descer, entrou no meu quarto uma borboleta [...]. A borboleta,
depois de esvoaçar muito em torno de mim, pousou-me na
testa. Sacudi-a, ela foi pousar na vidraça; e, porque eu a sacudisse de novo, saiu dali e veio parar em cima de um velho
retrato de meu pai. Era negra como a noite. O gesto brando
com que, uma vez posta, começou a mover as asas, tinha um
certo ar escarninho, que me aborreceu muito. Dei de ombros,
saí do quarto; mas tornando lá, minutos depois, e achando-a
ainda no mesmo lugar, senti um repelão dos nervos, lancei
mão de uma toalha, bati-lhe e ela caiu.

Não caiu morta; ainda torcia o corpo e movia as farpinhas
da cabeça. Apiedei-me; tomei-a na palma da mão e fui depô-la no peitoril da janela. Era tarde; a infeliz expirou dentro de
alguns segundos. Fiquei um pouco aborrecido, incomodado.


— Também por que diabo não era ela azul? disse comigo.

E esta reflexão, — uma das mais profundas que se tem
feito, desde a invenção das borboletas, — me consolou do
malefício, e me reconciliou comigo mesmo. Deixei-me estar
a contemplar o cadáver, com alguma simpatia, confesso.
Imaginei que ela saíra do mato, almoçada e feliz. A manhã
era linda. Veio por ali fora, modesta e negra, espairecendo
as suas borboletices, sob a vasta cúpula de um céu azul,
que é sempre azul, para todas as asas. Passa pela minha
janela, entra e dá comigo. Suponho que nunca teria visto
um homem; não sabia, portanto, o que era o homem; descreveu infinitas voltas em torno do meu corpo, e viu que me
movia, que tinha olhos, braços, pernas, um ar divino, uma
estatura colossal. Então disse consigo: “Este é provavelmente o inventor das borboletas.” A ideia subjugou-a, aterrou-a; mas o medo, que é também sugestivo, insinuou-lhe
que o melhor modo de agradar ao seu criador era beijá-lo
na testa, e beijou-me na testa. Quando enxotada por mim,
foi pousar na vidraça, viu dali o retrato de meu pai, e não
é impossível que descobrisse meia verdade, a saber, que estava ali o pai do inventor das borboletas, e voou a pedir-
-lhe misericórdia.

Pois um golpe de toalha rematou a aventura. Não lhe
valeu a imensidade azul, nem a alegria das flores, nem a
pompa das folhas verdes, contra uma toalha de rosto, dois
palmos de linho cru. Vejam como é bom ser superior às borboletas! Porque, é justo dizê-lo, se ela fosse azul, ou cor de
laranja, não teria mais segura a vida; não era impossível que
eu a atravessasse com um alfinete, para recreio dos olhos.
Não era. Esta última ideia restituiu-me a consolação; uni o
dedo grande ao polegar, despedi um piparote e o cadáver
caiu no jardim. Era tempo: aí vinham já as próvidas formigas… Não, volto à primeira ideia; creio que para ela era
melhor ter nascido azul.


(Memórias póstumas de Brás Cubas, 2001.)

“— Também por que diabo não era ela azul? disse
comigo.


E esta reflexão, — uma das mais profundas que se tem
feito, desde a invenção das borboletas, — me consolou do
malefício, e me reconciliou comigo mesmo.” (3°
/4°
parágrafos)

Tal reflexão aponta para

## Alternativas

- **A)** a ingenuidade do narrador, na medida em que este acredita que possa se reconciliar com a vítima.
- **B)** o pessimismo do narrador, na medida em que este insiste em encarar negativamente um evento edificante.
- **C)** a arrogância do narrador, na medida em que este assume a responsabilidade pelo ato impensado.
- **D)** a humildade do narrador, na medida em que este busca encobrir a perversidade do mal praticado.
- **E)** a prepotência do narrador, na medida em que este busca responsabilizar a vítima pelo mal sofrido. ✔ **correta**

## Resposta correta

Alternativa **E**.

## Como citar

Dicas do ENEM. Questão 529d2638-75. Disponível em: https://dicasdoenem.com.br/questao/529d2638-75
