# Questão 6c5b8217-24 — Português

> Questão de múltipla escolha com gabarito, do acervo do Dicas do ENEM.
> Página com a questão respondível: https://dicasdoenem.com.br/questao/6c5b8217-24

- **Código:** 6c5b8217-24
- **Disciplina:** [Português](https://dicasdoenem.com.br/disciplina/1-portugues)
- **Área:** [Linguagens](https://dicasdoenem.com.br/area/linguagens)
- **Ano:** [2015](https://dicasdoenem.com.br/ano/2015)
- **Instituição:** Pontifícia Universidade Católica de Goiás
- **Assuntos:** Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto
- **Nível:** Difícil
- **Gabarito:** alternativa B

## Enunciado

TEXTO 8

Aos 60 anos, Rossmarc foi confinado na cadeia
Raimundo Pessoa em Manaus, dividindo uma cela
com 80 detentos. Dormia no chão junto de uma fossa
sanitária. Para manter-se vivo usava toda a sua inteligência
para fazer acordos com os detentos. Lá havia
de tudo: drogados, jagunços, pseudomissionários,
contrabandistas etc. Fora vítima do advogado. Com
toda a lábia, nunca fora a Brasília defender Rossmarc.
Por não ter apresentado a defesa, foi condenado a 13
anos de prisão. O advogado sumira, Rossmarc perdera
o prazo para recorrer. Como era estrangeiro, os
juízes temiam que fugisse do Brasil. O juiz ordenou
sua prisão imediata. A cela, com oitenta detentos, fervilhava,
era mais do que o inferno. Depressivo, mantinha-se
tartamudo num canto, remoendo sua história, recordando-se dos bons tempos em que navegava
pelos rios da Amazônia com seus amigos primatas.

Visitas? Só a de Pássaro Azul. Mudara-se também
para Manaus e, sem nada dizer a Rossmarc,
para obter dinheiro, prostituía-se num cabaré. Estava
mais magra e algumas rugas se mostravam em
seu rosto antes reluzente, agora de cor negra desgastada.
Com o intuito de obter dinheiro, tanto para
Rossmarc pagar as contas de dois viciados em crack
no presídio, como para as custas de um advogado
inexperiente, pouco se alimentava e ao redor dos
olhos manchas entumecidas apareciam, deixando-a
como alguém que consumia droga em exagero. As
noitadas no cabaré enfumaçado e fedorento deixavam-na
enfraquecida. Mas não deixara de amar o
biólogo holandês. Quando fugira do quilombola,
naquela noite, jurara amor eterno e não estava disposta
a quebrar o juramento.

Enquanto Pássaro Azul se prostituía para obter
os escassos recursos, Rossmarc, espremido entre os
oitenta detentos, procurava desesperadamente uma
luz no fim do túnel. Lembrava-se dos amigos influentes,
de jornalistas, de políticos, e cada vez que Pássaro
Azul o visitava, ele implorava que procurasse essas
pessoas. Pássaro Azul corria atrás, mas sequer era recebida. Quem daria ouvidos a uma negra que se dizia
íntima de Rossmarc, o biólogo que cometera crimes de
biopirataria? Na visita seguinte, Rossmarc indagava:

— E dai, procurou aquela pessoa?

Para não magoar o amado, ela respondia que todos
estavam muito interessados em sua causa. Dizia,
entretanto, sem entusiasmo, com os olhos acuados e
baixos, para não ver o rosto magro e chupado de Rossmarc.
Entregava-lhe o pouco dinheiro que economizava,
fruto da prostituição, e saia de lá com os olhos
rasos d’água, tolhendo os soluços.

Numa noite no cabaré, Pássaro Azul conheceu
um homem gordo e vesgo, que usava correntões de
ouro. Dizia-se dono de um garimpo no meio da selva.
Bebia e fumava muito, ria alto, com gargalhadas
por vezes irritantes. Entre todas as raparigas, escolheu
Pássaro Azul, que lhe fez todas as vontades, pervertendo-se
de forma baixa e vil. Foram três noitadas intermináveis,
mas Pássaro Azul aprendera a administrar a
bebida. Não era tola, como as demais, que se embebedavam
a ponto de caírem e serem arrastadas. Era carinhosa
com o fazendeiro e saciava-lhe todos os caprichos.
Não o abandonava, sentava em seu colo gordo e
fazia-lhe agrados fingidos. Dava-lhe mais bebida e um
composto de viagra, e o rosto gordo se avermelhava
como de um leão enraivecido. Então, ela o puxava para
o quarto sórdido. Na cama, enfrentava como guerreira
o monte de carne e ossos, trepando sobre suas grandes
papadas balofas e cavalgando, como uma guerreira. O
homem resfolegava, gritava, gemia, uivava, mas Pássaro
Azul não parava aquela louca cavalgada.

[...]

(GONÇALVES, David. Sangue verde. Joinville:
Sucesso Pocket, 2014. p. 217-218.)

O romance Sangue verde, de David Gonçalves, do
qual se apresenta aqui um fragmento (Texto 8), é repleto
de imagens que ilustram uma temática variada, rica e
questionadora, que expõe vícios, maus hábitos e envolve,
direta ou indiretamente, todas as diferentes classes
de pessoas e diversas categorias profissionais do Brasil,
incluindo latifundiários, juristas, políticos e outros.

Marque a alternativa que melhor sintetiza o romance,
observando o que foi afirmado anteriormente:

## Alternativas

- **A)** Conta a história de um biólogo estrangeiro que atuava no Brasil, denunciando a sua ação criminosa, maléfica ao meio ambiente, mas, nesse caso, a justiça foi feita, com a sua prisão e a restituição da ordem no ambiente depredado.
- **B)** Traz à tona histórias aparentemente simples, mas que se transformam em grandes aventuras, envolvendo em suas malhas diversas classes de pessoas. De maneira irônica e perspicaz, enreda autoridades e figurões de cargos representativos do poder constituído, fazendo transparecer sua ineficácia para resolver os problemas do povo. ✔ **correta**
- **C)** Apresenta a aventura de um casal de apaixonados, separados abrupatamente pela ação da polícia, que prende, por engano, o biólogo europeu Rossmarc, deixando sua amada Pássaro Azul à espera de que a justiça seja feita e seu amado retorne ao convívio habitual.
- **D)** Conta a história de aventuras, contravenção e traição de duas pessoas: Rossmarc e Pássaro Azul; ele, aventureiro, ela, prostituta. Mesmo assim, havia uma atração maior que os dominava e os conduzia sempre para próximo um do outro.

## Resposta correta

Alternativa **B**.

## Como citar

Dicas do ENEM. Questão 6c5b8217-24. Disponível em: https://dicasdoenem.com.br/questao/6c5b8217-24
