# Questão 93578772-74 — Português

> Questão de múltipla escolha com gabarito, do acervo do Dicas do ENEM.
> Página com a questão respondível: https://dicasdoenem.com.br/questao/93578772-74

- **Código:** 93578772-74
- **Disciplina:** [Português](https://dicasdoenem.com.br/disciplina/1-portugues)
- **Área:** [Linguagens](https://dicasdoenem.com.br/area/linguagens)
- **Ano:** [2022](https://dicasdoenem.com.br/ano/2022)
- **Instituição:** Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto
- **Assuntos:** Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto
- **Gabarito:** alternativa E

## Enunciado

Leia a crônica “José de Nanuque”, de Carlos Drummond de
Andrade, para responder à questão

Como se não bastasse o excesso de população deste
mundo, os homens estão detectando a existência de outros
mundos habitados, no espaço sideral, e suspiram, emocionados: “Não estamos sós”. E quem disse que estamos sós,
se andamos tão acotovelados pelas avenidas da Terra? Pois,
como se tudo isso não fosse suficiente, correm às matas de
Nanuque e de lá retiram à força José Pedro dos Santos, último promeneur solitaire1
de que havia notícia, o homem que
vivia com uma fogueira acesa, espantando onça e, sobretudo, gente.

— Venha, rapaz! Queremos que participe das maravilhas
da civilização!

— Vocês me arranjam casa pra morar?

— Bem, isso atualmente está difícil, José.

— Emprego?

— Só se você for concursado, e houver vaga.

— E comida?

— Depois nós conversamos. Venha depressa, estão nos
chamando de outras galáxias!

José recalcitra: estava tão bem ali! Não paga aluguel,
não preenche o formulário do imposto de renda, não faz fila
para nada, não tem horário nem patrão, come carne variada,
segunda-feira paca, terça peixe, quarta aves, quinta raízes e
tubérculos, sexta frutas, sábado...

— Mais uma razão para vir. Está desfrutando privilégios,
e todos são iguais perante a lei!

Outra razão forte: os fazendeiros de Nanuque reclamavam contra esse homem estranho, embrenhado no mato,
fazendo Deus sabe lá o quê. Em vão José alega que os
ajuda, espantando onça com seu facho noturno. As onças
não devem ser espantadas, sustentam a beleza selvagem
da região. Esse homem não trabalha na lavoura, como os
outros; não produz, não rende, e, embora não pese a ninguém, pesa globalmente no espírito de todos, com seu mistério. O fato de não produzir não é o mais grave; tolera-se cá
fora, à luz do dia, honradamente: mas no interior da mata?
Que ideia faz esse sujeito do contrato social? Nenhuma. Está
se ninando para o contrato social. Não é possível. Tragam
José para perto de nós, ele tem de aprender ou reaprender a
vida apertada que levamos.

José tem medo. Os homens, as cidades, os códigos,
até os prazeres intervalares dos civilizados lhe dão medo.
O motor de sua volta ao estado natural foi menos o amor à
natureza do que o pânico. Em cada homem vê um perigo,
em cada situação uma ameaça, em cada palavra uma condenação. Com as árvores e os bichos ele se entende. Nu e
experimentado, conhece e domina o ambiente em que vive
sem maiores riscos. Na cidade não praticara ação criminosa, e foi isso precisamente que o fez embrenhar-se na mata.
Inocente, faltavam-lhe as provas negativas de sua inocência;
se cometesse qualquer malfeito, poderia mentir e salvar-se,
mas, estando puro e desarmado diante do sistema, como
mentir, senão confessando a falta imaginária, e, portanto,
condenando-se? A solução era virar bicho. Virou, com êxito.

Agora trazem José para a capital, incorporam-no ao
estranho maquinismo, ao estatuto sombrio, inexplicável; ele
é condenado a viver como os outros, no grau inferior. José
está salvo ou perdido? O certo é que nunca mais brilhará, na
mata de Nanuque, aquele foguinho solitário.

Todos são iguais perante a lei.

Não estamos sós.

(Carlos Drummond de Andrade. Caminhos de João Brandão, 2016.)

1promeneur solitaire: caminhante solitário.

De acordo com o cronista, a razão de José de Nanuque ter se
afastado da civilização foi, sobretudo,

## Alternativas

- **A)** o crime que havia cometido quando ainda jovem.
- **B)** a rotina enfadonha e sombria da vida nas cidades.
- **C)** o amor incondicional à natureza.
- **D)** a paixão pelas coisas simples da vida.
- **E)** a sensação de estar em risco junto aos homens. ✔ **correta**

## Resposta correta

Alternativa **E**.

## Como citar

Dicas do ENEM. Questão 93578772-74. Disponível em: https://dicasdoenem.com.br/questao/93578772-74
