# Questão 9b32793d-31 — Português

> Questão de múltipla escolha com gabarito, do acervo do Dicas do ENEM.
> Página com a questão respondível: https://dicasdoenem.com.br/questao/9b32793d-31

- **Código:** 9b32793d-31
- **Disciplina:** [Português](https://dicasdoenem.com.br/disciplina/1-portugues)
- **Área:** [Linguagens](https://dicasdoenem.com.br/area/linguagens)
- **Ano:** [2024](https://dicasdoenem.com.br/ano/2024)
- **Instituição:** Universidade Estadual Paulista
- **Assuntos:** Interpretação de Textos
- **Nível:** Fácil
- **Gabarito:** alternativa C

## Enunciado

Para responder à questão, leia o conto “Passei
por um sonho”, do escritor angolano José Eduardo Agualusa
(1960- ).

1 Começou com um sonho. Afinal, é como começa quase
tudo. Justo Santana, enfermeiro de profissão, sonhou um
pássaro.

— Passei por um sonho — disse à mulher quando esta
acordou —, e vi um pássaro.

A mulher quis saber que espécie de pássaro, mas Justo
Santana não foi capaz de precisar. Era um pássaro grande,
grave, branco como um ferro incandescente, e com umas
asas ainda mais brilhosas, que o dito pássaro usava sempre
abertas, de tal maneira que fazia lembrar Jesus Cristo pregado na cruz.

— Fui sonhado por ti — disse-lhe o pássaro —, com o fim
de esclarecer o espírito dos Homens e de trazer a liberdade
a este pobre país.

5 O discurso do pássaro assustou o enfermeiro, homem
simples, tímido, avesso a confrontos, e sem qualquer vocação para a política.

— Foi apenas um sonho — disse à mulher —, um sonho
estúpido.

Na noite seguinte, porém, o pássaro voltou a aparecer-
-lhe. Estava ainda mais branco, mais trágico, e parecia aborrecido com o desinteresse do enfermeiro:

— Ordeno-te que vás por esse país fora e digas a todos
os homens que se preparem para um mundo novo. Os brancos vão partir e os pretos ocuparão as casas, os palácios, as
igrejas e os quartéis, e a liberdade há de reinar para sempre.

Dizendo isto sacudiu as asas e as suas penas espalharam-se pelo quarto:


10 — Com estas minhas penas hás de curar os enfermos
— disse o pássaro —, e assim até os mais incrédulos acreditarão em ti e seguirão os teus passos.

Quando Justo Santana despertou o quarto brilhava com
o esplendor das penas. Na manhã desse mesmo dia o enfermeiro serviu-se de uma delas para curar um homem com
elefantíase e à tardinha devolveu a vista a um cego. Passado
apenas um mês a sua fama de santo e milagreiro já se espalhara muito para além das margens do Rio Zaire e à porta
da sua casa ia crescendo uma multidão de padecentes. [...]

Justo Santana colocava na boca dos enfermos uma pena
do pássaro, como se fosse uma hóstia, e estes imediatamente ganhavam renovado alento. Enquanto fazia isto o enfermeiro repetia os discursos do pássaro, incapaz de compreender a fúria daquelas palavras e o alcance delas. Todas as
noites sonhava com a ave e todas as noites esta o forçava a
decorar um discurso novo, após o que sacudia as asas, espalhando pelo ar morto do quarto as penas milagrosas:

— Se esse pássaro continuar assim tão generoso — disse Justo Santana à mulher —, ainda o veremos transformado
numa alma despenada.

Isto durou um ano. Então, numa manhã de cacimbo1
,
apareceram quatro soldados à porta da casa, afastaram com
rancor a multidão de desvalidos, e levaram Justo Santana. O
infeliz foi acusado de fomentar o terrorismo e a sublevação,
e desterrado para uma praia remota, em pleno deserto do
Namibe, onde passou a exercer o ofício de faroleiro.


15 Quando o encontrei, muitos anos depois, em Luanda2
, ele
falou-me desse desterro com nostalgia:

— Foi a melhor época da minha vida.

Encontrei-o doente, estendido numa larga cama de ferro,
sob lençóis muito brancos. No quarto havia apenas a cama
e um pequeno crucifixo preso à parede. Na sala ao lado os
devotos rezavam murmurosas ladainhas. Aquela era a sede
da Igreja do Divino Espírito. Não tinha sido nada fácil chegar
até junto do enfermeiro: os seus seguidores guardavam-no
corno a uma relíquia — na verdade mantinham-no preso ali,
naquele quarto, quase isolado do mundo, desde 19753.

A melhor época da vida de Justo Santana terminou de
forma trágica, numa noite de tempestade, quando um bando
de aves migratórias caiu sobre o farol. Enlouquecidas pela
luz as avezinhas batiam contra o cristal até quebrarem as
asas, sendo depois arrastadas pelo vento. Isto está sempre
a acontecer. Milhares de aves migratórias morrem todos os
anos traídas pelo fulgor dos faróis. Naquela noite, desrespeitando as normas, Justo Santana foi em socorro das aves e
desligou o farol. Teve pouca sorte: um barco com tropas, de
regresso à metrópole, perdeu-se na escuridão e encalhou na
praia. Dessa vez o enfermeiro foi julgado, condenado a quinze anos de prisão, e enviado para o Tarrafal4
, em Cabo Verde. Foi solto com a Revolução de Abril5
e regressou a Angola.

Quando o visitei, antes de me ir embora, quis saber se o
pássaro ainda lhe frequentava os sonhos. Ele olhou em redor
para se certificar de que estávamos sozinhos:

20 — Estrangulei-o — segredou com um sorriso
cúmplice —, mas enquanto eu for vivo não conte isto a ninguém.

(Rita Chaves (org.).


Contos africanos dos países de língua portuguesa, 2009.)


1cacimbo: estação com elevado índice de umidade caracterizada pela
descida gradual da temperatura e pelo aumento da nebulosidade.

2 Luanda: capital de Angola.

3Angola tornou-se um país independente em 1975.

4Tarrafal: antiga colônia penal portuguesa.

5Ocorrida em 25 de abril de 1974, a Revolução de Abril, também
conhecida como Revolução dos Cravos, restabeleceu a democracia
em Portugal, abrindo caminho para o processo de descolonização
dos países da África.

No conto, os discursos do pássaro são caracterizados,
sobretudo, como

## Alternativas

- **A)** reacionários.
- **B)** ambíguos.
- **C)** revolucionários. ✔ **correta**
- **D)** nostálgicos.
- **E)** religiosos.

## Resposta correta

Alternativa **C**.

## Como citar

Dicas do ENEM. Questão 9b32793d-31. Disponível em: https://dicasdoenem.com.br/questao/9b32793d-31
