# Questão bcee24ea-04 — Português

> Questão de múltipla escolha com gabarito, do acervo do Dicas do ENEM.
> Página com a questão respondível: https://dicasdoenem.com.br/questao/bcee24ea-04

- **Código:** bcee24ea-04
- **Disciplina:** [Português](https://dicasdoenem.com.br/disciplina/1-portugues)
- **Área:** [Linguagens](https://dicasdoenem.com.br/area/linguagens)
- **Ano:** [2021](https://dicasdoenem.com.br/ano/2021)
- **Instituição:** Universidade Federal da Grande Dourados
- **Assuntos:** Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto
- **Nível:** Fácil
- **Gabarito:** alternativa A

## Enunciado

Texto I

NÓ, CLÍMAX, DESFECHO

Nó – É o fato que interrompe o fluxo da situação inicial da
narrativa, criando um problema ou obstáculo que deverá
ser resolvido. O Nó é o que dá origem ao conflito dramático
[...]. Ele evidencia que só há uma história a ser contada por
que uma crise se instalou em determinada situação exigindo
que se tente resolvê-la de modo a reequilibrar o que ela
desestabilizou [...];

Clímax – É o elemento que marca o auge do conflito dramático,
momento do tudo ou nada entre as forças contrárias que
agem e se defrontam na narrativa [...], engendrando e
desenvolvendo a história. Diferentemente do desfecho, o
clímax caracteriza um momento em que a expectativa em
relação à resolução do conflito central da narrativa ignora
qual das forças contrárias vencerá. O clímax, portanto,
suspende, mantendo por instantes em tensão máxima, a
história contada na narrativa;

Desfecho – É a resolução do conflito central da narrativa,
momento em que uma das forças contrárias vence e se afirma
sobre a sua oponente. Normalmente, liga-se à situação final
da narrativa.

FRANCO JUNIOR, Arnaldo. Operadores de leitura da narrativa. In: BONNICI,
Thomas; ZOLIN, Lúcia Osana (orgs.). Teoria literária: abordagens históricas e
tendências contemporâneas. Maringá: Eduem, 2003, p. 42.

Texto II

SOZINHOS

Esta ideia para um conto de terror é tão terrível que, logo
depois de tê-la, me arrependi. Mas já estava tida, não adiantava
mais. Você, leitor, no entanto, tem uma escolha. Pode parar
aqui, e se poupar, ou ler até o fim e provavelmente nunca
mais dormir. Vejo que decidiu continuar. Muito bem, vamos
em frente. Talvez, posta no papel, a ideia perca um pouco do
seu poder de susto. Mas não posso garantir nada. É assim: Um
casal de velhos mora sozinho numa casa. Já criaram os filhos,
os netos já estão grandes, só lhes resta implicar um com o
outro. Retomam com novo fervor uma discussão antiga. Ela
diz que ele ronca quando dorme, ele diz que é mentira.

– Ronca.

– Não ronco.

– Ele diz que não ronca – comenta ela, impaciente, como se
falasse com uma terceira pessoa.

Mas não existe outra pessoa na casa. Os filhos raramente
visitam. Os netos, nunca. A empregada vem de manhã, faz o
almoço, deixa o jantar e sai cedo. Ficam os dois sozinhos.

– Eu devia gravar os seus roncos, pra você se convencer – diz
ela. E em seguida tem a ideia infeliz. – É o que eu vou fazer!
Esta noite, quando você dormir, vou ligar o gravador e gravar
os seus roncos.

– Humrfm – diz o velho.

Você, leitor, já deve estar sentindo o que vai acontecer. Pare
de ler, leitor. Eu não posso parar de escrever. Às ideias não
podem ser desperdiçadas, mesmo que nos custem amigos, a
vida ou o sono. Imagine se Shakespeare tivesse se horrorizado
com suas próprias ideias e deixado de escrevê-las, por puro
comedimento. Não que eu queira me comparar a Shakespeare.
Shakespeare era bem mais magro. Tenho que exercer este
ofício, esta danação. Você, no entanto, não é obrigado a me
acompanhar, leitor. Vá passear, vá tomar um sol. Uma das
maneiras de controlar a demência solta no mundo e deixar
os escritores falando sozinhos, exercendo sozinhos a sua
profissão malsã, o seu vício solitário. Você ainda está lendo.
Você é pior do que eu, leitor. Você tinha escolha.

Sozinhos. Os velhos sozinhos na casa. Os dois vão para a
cama. Quando o velho dorme, a velha liga o gravador. Mas
em poucos minutos a velha também dorme. O gravador
fica ligado, gravando. Pouco depois a fita acaba. Na manhã
seguinte, certa do seu triunfo, a velha roda a fita. Ouvem-se
alguns minutos de silêncio. Depois, alguém roncando.

– Rarrá! – diz a velha, feliz.

Pouco depois ouve-se o ronco de outra pessoa, a velha
também ronca!

– Rarrá! – diz o velho, vingativo.

E, em seguida, por cima do contraponto de roncos, ouve-se
um sussurro. Uma voz sussurrando, leitor. Uma voz indefinida.
Pode ser de homem, de mulher ou de criança. A princípio –
por causa dos roncos – não se distingue o que ela diz. Mas aos
poucos as palavras vão ficando claras. São duas vozes. É um
diálogo sussurrado.

“Estão prontos?”

“Não, acho que ainda não...”

“Então, vamos voltar amanhã...”.

VERISSIMO, Luis Fernando. Sozinho. In.: Comédias para se ler na escola. Rio
de Janeiro: Objetiva, 2001

Assinale a alternativa correta sobre os aspectos narrativos
empregados por Luís Fernando Veríssimo no texto
Sozinhos, presente na obra Comédias para se ler na escola
(use o texto I como apoio).

## Alternativas

- **A)** Ao utilizar-se do suspense no auge do conflito dramático (identificado pelo trecho “e, em seguida, por cima do contraponto de roncos, ouve-se um sussurro”), a crônica traz um desfecho inesperado, capaz de instigar a imaginação e fazer o leitor se questionar: eles estariam mesmo sozinhos? ✔ **correta**
- **B)** O clímax, ou seja, o fato que interrompe o fluxo da situação inicial da crônica de terror, dá-se quando o narrador questiona enfaticamente o leitor, logo no primeiro parágrafo: “Pode parar aqui, e se poupar, ou ler até o fim e provavelmente nunca mais dormir. Vejo que decidiu continuar”.
- **C)** Para a construção do nó e do desfecho da tragicomédia de terror Sozinhos, o narrador e o autor usam como elemento narrativo a linguagem humorística para retratar o cotidiano de um casal de idosos que, constantemente, recebe visitas inesperadas de seus filhos e familiares.
- **D)** No desfecho da crônica estilo épico, a gravação da fita apresenta uma mensagem de caráter sensacionalista, repleta de onomatopeias e simbolismos, que podem ser identificados nos trechos: “Humrfm – diz o velho”; “Rarrá! – diz a velha, feliz” e “Rarrá! – diz o velho, vingativo”
- **E)** Ao apresentar como elemento dramático as ações linguístico-discursivas do gênero diálogo formal (presentes nas conversas de personagens, autor e leitor), o conto lírico surpreende o narrador ao trazer, em seu desfecho, a continuidade da trama, identificada por: “[...] vamos voltar amanhã[...]”.

## Resposta correta

Alternativa **A**.

## Como citar

Dicas do ENEM. Questão bcee24ea-04. Disponível em: https://dicasdoenem.com.br/questao/bcee24ea-04
