# Questão dbb2a65b-8b — Português

> Questão de múltipla escolha com gabarito, do acervo do Dicas do ENEM.
> Página com a questão respondível: https://dicasdoenem.com.br/questao/dbb2a65b-8b

- **Código:** dbb2a65b-8b
- **Disciplina:** [Português](https://dicasdoenem.com.br/disciplina/1-portugues)
- **Área:** [Linguagens](https://dicasdoenem.com.br/area/linguagens)
- **Ano:** [2022](https://dicasdoenem.com.br/ano/2022)
- **Instituição:** Universidade Estadual Paulista
- **Assuntos:** Figuras de Linguagem, Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto
- **Gabarito:** alternativa C

## Enunciado

Para responder à questão, leia o trecho do conto “A menina, as aves e o sangue”, do escritor moçambicano
Mia Couto (1955- ).

Aconteceu, certa vez, uma menina a quem o coração batia só de quando em enquantos. A mãe sabia que o sangue
estava parado pelo roxo dos lábios, palidez nas unhas. Se o
coração estancava por demasia de tempo a menina começava a esfriar e se cansava muito. A mãe, então, se afligia:
roía o dedo e deixava a unha intacta. Até que o peito da filha
voltava a dar sinal:

— Mãe, venha ouvir: está a bater!

A mãe acorria, debruçando a orelha sobre o peito estreito
que soletrava pulsação. E pareciam, as duas, presenciando
pingo de água em pleno deserto. Depois, o sangue dela voltava a calar, resina empurrando a arrastosa vida.

Até que, certa noite, a mulher ganhou para o susto. Foi
quando ela escutou os pássaros. Sentou na cama: não eram
só piares, chilreinações. Eram rumores de asas, brancos drapejos de plumas. A mãe se ergueu, pé descalço pelo corredor. Foi ao quarto da menina e joelhou-se junto ao leito. Sentiu a transpiração, reconheceu o seu próprio cheiro. Quando
lhe ia tocar na fronte a menina despertou:

— Mãe, que bom, me acordou! Eu estava sonhar
pássaros.

A mãe sortiu-se de medo, aconchegou o lençol como se
protegesse a filha de uma maldição. Ao tocar no lençol uma
pena se desprendeu e subiu, levinha, volteando pelo ar. A
menina suspirou e a pluma, algodão em asa, de novo se ergueu, rodopiando por alturas do tecto. A mãe tentou apanhar
a errante plumagem. Em vão, a pena saiu voando pela janela. A senhora ficou espreitando a noite, na ilusão de escutar
a voz de um pássaro. Depois, retirou-se, adentrando-se na
solidão do seu quarto. Dos pássaros selou-se o segredo, só
entre as duas.[...]

Com o tempo, porém, cada vez menos o coração se fazia
frequente. Quase deixou de dar sinais à vida. Até que essa
imobilidade se prolongou por consecutivas demoras. A menina falecera? Não se vislumbravam sinais dessa derradeiragem. Pois ela seguia praticando vivências, brincando, sempre cansadinha, resfriorenta. Uma só diferença se contava.
Já à noite a mãe não escutava os piares.


— Agora não sonha, filha?

— Ai mãe, está tão escuro no meu sonho!

Só então a mãe arrepiou decisão e foi à cidade:


— Doutor, lhe respeito a permissão: queria saber a saúde
de minha única. É seu peito... nunca mais deu sinal.

O médico corrigiu os óculos como se entendesse rectificar a própria visão. Clareou a voz, para melhor se autorizar.
E disse:

— Senhora, vou dizer: a sua menina já morreu.


— Morta, a minha menina? Mas, assim...?

— Esta é a sua maneira de estar morta.

A senhora escutou, mãos juntas, na educação do colo.
Anuindo com o queixo, ia esbugolhando o médico. Todo seu
corpo dizia sim, mas ela, dentro do seu centro, duvidava.
Pode-se morrer assim com tanta leveza, que nem se nota
a retirada da vida? E o médico, lhe amparando, já na porta:

— Não se entristonhe, a morte é o fim sem finalidade.

A mãe regressou à casa e encontrou a filha entoando
danças, cantarolando canções que nem existem. Se chegou
a ela, tocou-lhe como se a miúda inexistisse. A sua pele não
desprendia calor.

— Então, minha querida não escutou nada?

Ela negou. A mãe percorreu o quarto, vasculhou recantos. Buscava uma pena, o sinal de um pássaro. Mas nada
não encontrou. E assim, ficou sendo, então e adiante.

Cada vez mais fria, a moça brinca, se aquece na torreira
do sol. Quando acorda, manhã alta, encontra flores que a
mãe depositou ao pé da cama. Ao fim da tarde, as duas, mãe
e filha, passeiam pela praça e os velhos descobrem a cabeça
em sinal de respeito.

E o caso se vai seguindo, estória sem história. Uma única, silenciosa, sombra se instalou: de noite, a mãe deixou de
dormir. Horas a fio a sua cabeça anda em serviço de escutar,
a ver se regressam as vozearias das aves.


(Mia Couto. A menina sem palavra, 2013.)

O narrador recorre a um enunciado aparentemente paradoxal
no seguinte trecho:

## Alternativas

- **A)** “Quando acorda, manhã alta, encontra flores que a mãe depositou ao pé da cama.” (21° parágrafo)
- **B)** “O médico corrigiu os óculos como se entendesse rectificar a própria visão.” (12° parágrafo)
- **C)** “A mãe regressou à casa e encontrou a filha entoando danças, cantarolando canções que nem existem.” (18° parágrafo) ✔ **correta**
- **D)** “Ao fim da tarde, as duas, mãe e filha, passeiam pela praça e os velhos descobrem a cabeça em sinal de respeito.” (21° parágrafo)
- **E)** “A mãe se ergueu, pé descalço pelo corredor.” (4° parágrafo)

## Resposta correta

Alternativa **C**.

## Como citar

Dicas do ENEM. Questão dbb2a65b-8b. Disponível em: https://dicasdoenem.com.br/questao/dbb2a65b-8b
