# Questão e4c768bd-de — Português

> Questão de múltipla escolha com gabarito, do acervo do Dicas do ENEM.
> Página com a questão respondível: https://dicasdoenem.com.br/questao/e4c768bd-de

- **Código:** e4c768bd-de
- **Disciplina:** [Português](https://dicasdoenem.com.br/disciplina/1-portugues)
- **Área:** [Linguagens](https://dicasdoenem.com.br/area/linguagens)
- **Ano:** [2016](https://dicasdoenem.com.br/ano/2016)
- **Instituição:** Universidade Federal de São Paulo
- **Assuntos:** Denotação e Conotação, Interpretação de Textos
- **Nível:** Médio
- **Gabarito:** alternativa E

## Enunciado

Leia o trecho do conto “A igreja do Diabo”, de Machado de
Assis (1839-1908), para responder à questão.

Uma vez na terra, o Diabo não perdeu um minuto. Deu-se
pressa em enfiar a cogula¹ beneditina, como hábito de boa
fama, e entrou a espalhar uma doutrina nova e extraordinária, com uma voz que reboava nas entranhas do século. Ele
prometia aos seus discípulos e fiéis as delícias da terra, todas
as glórias, os deleites mais íntimos. Confessava que era o
Diabo; mas confessava-o para retificar a noção que os homens tinham dele e desmentir as histórias que a seu respeito
contavam as velhas beatas.

– Sim, sou o Diabo, repetia ele; não o Diabo das noites
sulfúreas, dos contos soníferos, terror das crianças, mas o
Diabo verdadeiro e único, o próprio gênio da natureza, a que
se deu aquele nome para arredá-lo do coração dos homens.
Vede-me gentil e airoso. Sou o vosso verdadeiro pai. Vamos
lá: tomai daquele nome, inventado para meu desdouro², fazei
dele um troféu e um lábaro³
, e eu vos darei tudo, tudo, tudo,
tudo, tudo, tudo...

Era assim que falava, a princípio, para excitar o entusiasmo, espertar os indiferentes, congregar, em suma, as multidões ao pé de si. E elas vieram; e logo que vieram, o Diabo
passou a definir a doutrina. A doutrina era a que podia ser na
boca de um espírito de negação. Isso quanto à substância,
porque, acerca da forma, era umas vezes sutil, outras cínica
e deslavada.

Clamava ele que as virtudes aceitas deviam ser substituídas por outras, que eram as naturais e legítimas. A soberba, a
luxúria, a preguiça foram reabilitadas, e assim também a avareza, que declarou não ser mais do que a mãe da economia,
com a diferença que a mãe era robusta, e a filha uma esgalgada4
. A ira tinha a melhor defesa na existência de Homero;
sem o furor de Aquiles, não haveria a Ilíada: “Musa, canta a
cólera de Aquiles, filho de Peleu”... [...] Pela sua parte o Diabo
prometia substituir a vinha do Senhor, expressão metafórica,
pela vinha do Diabo, locução direta e verdadeira, pois não
faltaria nunca aos seus com o fruto das mais belas cepas do
mundo. Quanto à inveja, pregou friamente que era a virtude
principal, origem de prosperidades infinitas; virtude preciosa,
que chegava a suprir todas as outras, e ao próprio talento.

As turbas corriam atrás dele entusiasmadas. O Diabo
incutia-lhes, a grandes golpes de eloquência, toda a nova
ordem de coisas, trocando a noção delas, fazendo amar as
perversas e detestar as sãs.

Nada mais curioso, por exemplo, do que a definição que
ele dava da fraude. Chamava-lhe o braço esquerdo do homem; o braço direito era a força; e concluía: Muitos homens
são canhotos, eis tudo. Ora, ele não exigia que todos fossem
canhotos; não era exclusivista. Que uns fossem canhotos,
outros destros; aceitava a todos, menos os que não fossem
nada. A demonstração, porém, mais rigorosa e profunda, foi
a da venalidade5
. Um casuísta6
do tempo chegou a confessar
que era um monumento de lógica. A venalidade, disse o Diabo, era o exercício de um direito superior a todos os direitos.
Se tu podes vender a tua casa, o teu boi, o teu sapato, o teu
chapéu, coisas que são tuas por uma razão jurídica e legal,
mas que, em todo caso, estão fora de ti, como é que não
podes vender a tua opinião, o teu voto, a tua palavra, a tua
fé, coisas que são mais do que tuas, porque são a tua própria
consciência, isto é, tu mesmo? Negá-lo é cair no absurdo e
no contraditório. Pois não há mulheres que vendem os cabelos? não pode um homem vender uma parte do seu sangue
para transfundi-lo a outro homem anêmico? e o sangue e os cabelos, partes físicas, terão um privilégio que se nega ao
caráter, à porção moral do homem? Demonstrando assim o
princípio, o Diabo não se demorou em expor as vantagens de
ordem temporal ou pecuniária; depois, mostrou ainda que, à
vista do preconceito social, conviria dissimular o exercício de
um direito tão legítimo, o que era exercer ao mesmo tempo
a venalidade e a hipocrisia, isto é, merecer duplicadamente.

(Contos: uma antologia, 1998.)

1cogula: espécie de túnica larga, sem mangas, usada por certos
religiosos.


2desdouro: descrédito, desonra.

3lábaro: estandarte, bandeira.

4esgalgado: comprido e estreito.


5venalidade: condição ou qualidade do que pode ser vendido.


6casuísta: pessoa que pratica o casuísmo (argumento fundamentado em
raciocínio enganador ou falso).

Estão empregados em sentido figurado os termos destacados nos seguintes trechos:

## Alternativas

- **A)** “a que podia ser na boca de um espírito de negação” (3º parágrafo) e “sem o furor de Aquiles, não haveria a Ilíada” (4º parágrafo).
- **B)** “incutia-lhes, a grandes golpes de eloquência” (5º parágrafo) e “a definição que ele dava da fraude” (6º parágrafo).
- **C)** “retificar a noção que os homens tinham dele” (1º parágrafo) e “congregar, em suma, as multidões ao pé de si” (3º parágrafo).
- **D)** “Sou o vosso verdadeiro pai.” (2º parágrafo) e “as virtudes aceitas deviam ser substituídas por outras” (4º parágrafo)
- **E)** “uma voz que reboava nas entranhas do século” (1º parágrafo) e “a que se deu aquele nome para arredá-lo do coração dos homens” (2º parágrafo). ✔ **correta**

## Resposta correta

Alternativa **E**.

## Como citar

Dicas do ENEM. Questão e4c768bd-de. Disponível em: https://dicasdoenem.com.br/questao/e4c768bd-de
