# Questão fb96363d-3b — Literatura

> Questão de múltipla escolha com gabarito, do acervo do Dicas do ENEM.
> Página com a questão respondível: https://dicasdoenem.com.br/questao/fb96363d-3b

- **Código:** fb96363d-3b
- **Disciplina:** [Literatura](https://dicasdoenem.com.br/disciplina/408-literatura)
- **Área:** [Linguagens](https://dicasdoenem.com.br/area/linguagens)
- **Ano:** [2014](https://dicasdoenem.com.br/ano/2014)
- **Instituição:** Universidade de São Paulo
- **Assuntos:** Escolas Literárias, Romantismo
- **Nível:** Difícil
- **Gabarito:** alternativa D

## Enunciado

O OPERÁRIO NO MAR

Na rua passa um operário. Como vai firme! Não tem blusa.
No conto, no drama, no discurso político, a dor do operário
está na sua blusa azul, de pano grosso, nas mãos grossas,
nos pés enormes, nos desconfortos enormes. Esse é um
homem comum, apenas mais escuro que os outros, e com
uma significação estranha no corpo, que carrega desígnios
e segredos. Para onde vai ele, pisando assim tão firme? Não
sei. A fábrica ficou lá atrás. Adiante é só o campo, com
algumas árvores, o grande anúncio de gasolina americana e
os fios, os fios, os fios. O operário não lhe sobra tempo de
perceber que eles levam e trazem mensagens, que contam
da Rússia, do Araguaia, dos Estados Unidos. Não ouve, na
Câmara dos Deputados, o líder oposicionista vociferando.
Caminha no campo e apenas repara que ali corre água, que
mais adiante faz calor. Para onde vai o operário? Teria
vergonha de chamá-lo meu irmão. Ele sabe que não é,
nunca foi meu irmão, que não nos entenderemos nunca. E
me despreza... Ou talvez seja eu próprio que me despreze a
seus olhos. Tenho vergonha e vontade de encará-lo: uma
fascinação quase me obriga a pular a janela, a cair em
frente dele, sustar-lhe a marcha, pelo menos implorar-lhe
que suste a marcha. Agora está caminhando no mar. Eu
pensava que isso fosse privilégio de alguns santos e de
navios. Mas não há nenhuma santidade no operário, e não
vejo rodas nem hélices no seu corpo, aparentemente banal.
Sinto que o mar se acovardou e deixou-o passar. Onde
estão nossos exércitos que não impediram o milagre? Mas
agora vejo que o operário está cansado e que se molhou,
não muito, mas se molhou, e peixes escorrem de suas mãos.
Vejo-o que se volta e me dirige um sorriso úmido. A palidez
e confusão do seu rosto são a própria tarde que se
decompõe. Daqui a um minuto será noite e estaremos
irremediavelmente separados pelas circunstâncias
atmosféricas, eu em terra firme, ele no meio do mar. Único
e precário agente de ligação entre nós, seu sorriso cada vez
mais frio atravessa as grandes massas líquidas, choca-se
contra as formações salinas, as fortalezas da costa, as
medusas, atravessa tudo e vem beijar-me o rosto, trazer-me
uma esperança de compreensão. Sim, quem sabe se um dia
o compreenderei?

Carlos Drummond de Andrade, Sentimento do mundo.

Embora o texto de Drummond e o romance Capitães da
Areia, de Jorge Amado, assemelhem-se na sua especial
atenção às classes populares, um trecho do texto que NÃO
poderia, sem perda de coerência formal e ideológica, ser
enunciado pelo narrador do livro de Jorge Amado é,
sobretudo, o que está em:

## Alternativas

- **A)** “Na rua passa um operário. Como vai firme! Não tem blusa.”
- **B)** “Esse é um homem comum, apenas mais escuro que os outros (...).”
- **C)** “Não ouve, na Câmara dos Deputados, o líder oposicionista vociferando.”
- **D)** “Teria vergonha de chamá-lo meu irmão. Ele sabe que não é, nunca foi meu irmão, que não nos entenderemos nunca.” ✔ **correta**
- **E)** “Mas agora vejo que o operário está cansado e que se molhou, não muito, mas se molhou, e peixes escorrem de suas mãos.”

## Resposta correta

Alternativa **D**.

## Como citar

Dicas do ENEM. Questão fb96363d-3b. Disponível em: https://dicasdoenem.com.br/questao/fb96363d-3b
