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Questões de Linguagens do ENEM

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  • 18.995 questões
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  • 219 assuntos

Resultados: 18.995 questões

Página 167 de 950

  • Linguagens

    Português

    Vós, diz Cristo, Senhor nosso, falando com os pregadores, sois o sal da terra: e chama-lhes sal da terra, porque quer que façam na terra o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção; mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção? Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra se não deixa salgar. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra se não deixa salgar e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhes dão, a não querem receber. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores dizem uma cousa e fazem outra; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que dizem. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores se pregam a si e não a Cristo; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, em vez de servir a Cristo, servem a seus apetites. Não é tudo isto verdade? Ainda mal!
    (Antônio Vieira, Sermão de Santo Antônio, em: .)
    O texto trabalha fundamentalmente com duas metáforas: o sal e a terra, que representam, respectivamente, os pregadores (aqueles que deveriam propagar a palavra de Cristo) e os ouvintes (aqueles que deveriam ser convertidos). O tema central do texto é a reflexão sobre as possíveis causas da ineficiência dos pregadores. Para tanto, o autor levanta algumas hipóteses. Tendo isso em vista, considere as seguintes afirmativas:

    1. Os pregadores não pregam o que deveriam pregar.
    2. Os ouvintes se recusam a aceitar o que os pregadores pregam.
    3. Os pregadores não agem de acordo com os valores que pregam.
    4. Os ouvintes agem como os pregadores em vez de agir de acordo com o que eles pregam.
    5. Os pregadores promovem a si mesmos na pregação ao invés de promover as palavras de Cristo.

    Constituem hipóteses levantadas pelo autor do texto: 
    Escolha uma alternativa para a questão 34870a98-3b
  • Linguagens

    Inglês

    Question: Is there anything I can do to train my body to need less sleep?

    Karen Weintraub

    June 17, 2016

    Imagem da questão de Inglês, UNESP 2016, Tradução | Translation

       Many people think they can teach themselves to need less sleep, but they’re wrong, said Dr. Sigrid Veasey, a professor at the Center for Sleep and Circadian Neurobiology at the University of Pennsylvania’s Perelman School of Medicine. We might feel that we’re getting by fine on less sleep, but we’re deluding ourselves, Dr. Veasey said, largely because lack of sleep skews our self-awareness. “The more you deprive yourself of sleep over long periods of time, the less accurate you are of judging your own sleep perception,” she said.

       Multiple studies have shown that people don’t functionally adapt to less sleep than their bodies need. There is a range of normal sleep times, with most healthy adults naturally needing seven to nine hours of sleep per night, according to the National Sleep Foundation. Those over 65 need about seven to eight hours, on average, while teenagers need eight to 10 hours, and school-age children nine to 11 hours. People’s performance continues to be poor while they are sleep deprived, Dr. Veasey said.

       Health issues like pain, sleep apnea or autoimmune disease can increase people’s need for sleep, said Andrea Meredith, a neuroscientist at the University of Maryland School of Medicine. A misalignment of the clock that governs our sleep-wake cycle can also drive up the need for sleep, Dr. Meredith said. The brain’s clock can get misaligned by being stimulated at the wrong time of day, she said, such as from caffeine in the afternoon or evening, digital screen use too close to bedtime, or even exercise at a time of day when the body wants to be winding down.

    (http://well.blogs.nytimes.com. Adaptado.)

    No trecho do segundo parágrafo “Those over 65 need about seven to eight hours, on average, while teenagers need eight to 10 hours”, o termo em destaque tem sentido de
    Escolha uma alternativa para a questão 1aa1efaf-30
  • Linguagens

    Inglês

    Imagem da questão de Inglês, UNESP 2016, Interpretação de texto | Reading comprehension

    Lola thinks that
    Escolha uma alternativa para a questão 1a9046fd-30
  • Linguagens

    Português

    Leia o excerto do livro Violência urbana, de Paulo Sérgio Pinheiro e Guilherme Assis de Almeida, para responder a questão.

        De dia, ande na rua com cuidado, olhos bem abertos. Evite falar com estranhos. À noite, não saia para caminhar, principalmente se estiver sozinho e seu bairro for deserto. Quando estacionar, tranque bem as portas do carro [...]. De madrugada, não pare em sinal vermelho. Se for assaltado, não reaja – entregue tudo.
       É provável que você já esteja exausto de ler e ouvir várias dessas recomendações. Faz tempo que a ideia de integrar uma comunidade e sentir-se confiante e seguro por ser parte de um coletivo deixou de ser um sentimento comum aos habitantes das grandes cidades brasileiras. As noções de segurança e de vida comunitária foram substituídas pelo sentimento de insegurança e pelo isolamento que o medo impõe. O outro deixa de ser visto como parceiro ou parceira em potencial; o desconhecido é encarado como ameaça. O sentimento de insegurança transforma e desfigura a vida em nossas cidades. De lugares de encontro, troca, comunidade, participação coletiva, as moradias e os espaços públicos transformam-se em palco do horror, do pânico e do medo.
       A violência urbana subverte e desvirtua a função das cidades, drena recursos públicos já escassos, ceifa vidas – especialmente as dos jovens e dos mais pobres –, dilacera famílias, modificando nossas existências dramaticamente para pior. De potenciais cidadãos, passamos a ser consumidores do medo. O que fazer diante desse quadro de insegurança e pânico, denunciado diariamente pelos jornais e alardeado pela mídia eletrônica? Qual tarefa impõe-se aos cidadãos, na democracia e no Estado de direito?
    (Violência urbana, 2003.)
    As palavras do texto cujos prefixos traduzem ideia de negação são
    Escolha uma alternativa para a questão 1a813fe7-30
  • Linguagens

    Português

    Leia o excerto do livro Violência urbana, de Paulo Sérgio Pinheiro e Guilherme Assis de Almeida, para responder a questão.

        De dia, ande na rua com cuidado, olhos bem abertos. Evite falar com estranhos. À noite, não saia para caminhar, principalmente se estiver sozinho e seu bairro for deserto. Quando estacionar, tranque bem as portas do carro [...]. De madrugada, não pare em sinal vermelho. Se for assaltado, não reaja – entregue tudo.
       É provável que você já esteja exausto de ler e ouvir várias dessas recomendações. Faz tempo que a ideia de integrar uma comunidade e sentir-se confiante e seguro por ser parte de um coletivo deixou de ser um sentimento comum aos habitantes das grandes cidades brasileiras. As noções de segurança e de vida comunitária foram substituídas pelo sentimento de insegurança e pelo isolamento que o medo impõe. O outro deixa de ser visto como parceiro ou parceira em potencial; o desconhecido é encarado como ameaça. O sentimento de insegurança transforma e desfigura a vida em nossas cidades. De lugares de encontro, troca, comunidade, participação coletiva, as moradias e os espaços públicos transformam-se em palco do horror, do pânico e do medo.
       A violência urbana subverte e desvirtua a função das cidades, drena recursos públicos já escassos, ceifa vidas – especialmente as dos jovens e dos mais pobres –, dilacera famílias, modificando nossas existências dramaticamente para pior. De potenciais cidadãos, passamos a ser consumidores do medo. O que fazer diante desse quadro de insegurança e pânico, denunciado diariamente pelos jornais e alardeado pela mídia eletrônica? Qual tarefa impõe-se aos cidadãos, na democracia e no Estado de direito?
    (Violência urbana, 2003.)
    O trecho “As noções de segurança e de vida comunitária foram substituídas pelo sentimento de insegurança e pelo isolamento que o medo impõe.” (2º parágrafo) foi construído na voz passiva. Ao se adaptar tal trecho para a voz ativa, a locução verbal “foram substituídas” assume a seguinte forma:
    Escolha uma alternativa para a questão 1a7e5085-30
  • Linguagens

    Português

    Para responder a questão, leia o excerto de Auto da Barca do Inferno do escritor português Gil Vicente (1465?-1536?). A peça prefigura o destino das almas que chegam a um braço de mar onde se encontram duas barcas (embarcações): uma destinada ao Paraíso, comandada pelo anjo, e outra destinada ao Inferno, comandada pelo diabo.

     Vem um Frade com uma Moça pela mão […]; e ele
    mesmo fazendo a baixa1  começou a dançar, dizendo
    Frade: Tai-rai-rai-ra-rã ta-ri-ri-rã;
                Tai-rai-rai-ra-rã ta-ri-ri-rã;
                Tã-tã-ta-ri-rim-rim-rã, huha!
    Diabo: Que é isso, padre? Quem vai lá?
    Frade: Deo gratias2 ! Sou cortesão.
    Diabo: Danças também o tordião3 ?
    Frade: Por que não? Vê como sei.
    Diabo: Pois entrai, eu tangerei4
                e faremos um serão.
                E essa dama, porventura?
    Frade: Por minha a tenho eu,
                e sempre a tive de meu.
    Diabo: Fizeste bem, que é lindura!
                Não vos punham lá censura
                no vosso convento santo?
    Frade: E eles fazem outro tanto!
    Diabo: Que preciosa clausura5!
    Entrai, padre reverendo!
    Frade: Para onde levais gente?
    Diabo: Para aquele fogo ardente
                que não temestes vivendo.
    Frade: Juro a Deus que não te entendo!
                E este hábito6não me val7?
    Diabo: Gentil padre mundanal8
                a Belzebu vos encomendo!
    Frade: Corpo de Deus consagrado!
                Pela fé de Jesus Cristo,
                que eu não posso entender isto!
                Eu hei de ser condenado?
                Um padre tão namorado
                e tanto dado à virtude?
                Assim Deus me dê saúde,
                que eu estou maravilhado!
    Diabo: Não façamos mais detença9
                embarcai e partiremos;
                tomareis um par de remos.
    Frade: Não ficou isso na avença10.
    Diabo: Pois dada está já a sentença!
    Frade: Por Deus! Essa seria ela?
                Não vai em tal caravela
                minha senhora Florença?
                Como? Por ser namorado
                e folgar c’uma mulher?
                Se há um frade de perder,
                com tanto salmo rezado?!
    Diabo: Ora estás bem arranjado!
    Frade: Mas estás tu bem servido.
    Diabo: Devoto padre e marido,
                haveis de ser cá pingado11…

    (Auto da Barca do Inferno, 2007.)

     1 baixa: dança popular no século XVI.
    2 Deo gratias: graças a Deus.
    3 tordião: outra dança popular no século XVI.
    4 tanger: fazer soar um instrumento.
    5 clausura: convento.
    6 hábito: traje religioso.
    7 val: vale.
    8 mundanal: mundano.
    9 detença: demora.
    10 avença: acordo.
    11 ser pingado: ser pingado com gotas de gordura fervendo (segundo o imaginário popular, processo de tortura que ocorreria no inferno)
    Com a fala “E eles fazem outro tanto!”, o frade sugere que seus companheiros de convento
    Escolha uma alternativa para a questão 1a6cc77e-30
  • Linguagens

    Português

    Para responder a questão, leia o excerto de Auto da Barca do Inferno do escritor português Gil Vicente (1465?-1536?). A peça prefigura o destino das almas que chegam a um braço de mar onde se encontram duas barcas (embarcações): uma destinada ao Paraíso, comandada pelo anjo, e outra destinada ao Inferno, comandada pelo diabo.

     Vem um Frade com uma Moça pela mão […]; e ele
    mesmo fazendo a baixa1  começou a dançar, dizendo
    Frade: Tai-rai-rai-ra-rã ta-ri-ri-rã;
                Tai-rai-rai-ra-rã ta-ri-ri-rã;
                Tã-tã-ta-ri-rim-rim-rã, huha!
    Diabo: Que é isso, padre? Quem vai lá?
    Frade: Deo gratias2 ! Sou cortesão.
    Diabo: Danças também o tordião3 ?
    Frade: Por que não? Vê como sei.
    Diabo: Pois entrai, eu tangerei4
                e faremos um serão.
                E essa dama, porventura?
    Frade: Por minha a tenho eu,
                e sempre a tive de meu.
    Diabo: Fizeste bem, que é lindura!
                Não vos punham lá censura
                no vosso convento santo?
    Frade: E eles fazem outro tanto!
    Diabo: Que preciosa clausura5!
    Entrai, padre reverendo!
    Frade: Para onde levais gente?
    Diabo: Para aquele fogo ardente
                que não temestes vivendo.
    Frade: Juro a Deus que não te entendo!
                E este hábito6não me val7?
    Diabo: Gentil padre mundanal8
                a Belzebu vos encomendo!
    Frade: Corpo de Deus consagrado!
                Pela fé de Jesus Cristo,
                que eu não posso entender isto!
                Eu hei de ser condenado?
                Um padre tão namorado
                e tanto dado à virtude?
                Assim Deus me dê saúde,
                que eu estou maravilhado!
    Diabo: Não façamos mais detença9
                embarcai e partiremos;
                tomareis um par de remos.
    Frade: Não ficou isso na avença10.
    Diabo: Pois dada está já a sentença!
    Frade: Por Deus! Essa seria ela?
                Não vai em tal caravela
                minha senhora Florença?
                Como? Por ser namorado
                e folgar c’uma mulher?
                Se há um frade de perder,
                com tanto salmo rezado?!
    Diabo: Ora estás bem arranjado!
    Frade: Mas estás tu bem servido.
    Diabo: Devoto padre e marido,
                haveis de ser cá pingado11…

    (Auto da Barca do Inferno, 2007.)

     1 baixa: dança popular no século XVI.
    2 Deo gratias: graças a Deus.
    3 tordião: outra dança popular no século XVI.
    4 tanger: fazer soar um instrumento.
    5 clausura: convento.
    6 hábito: traje religioso.
    7 val: vale.
    8 mundanal: mundano.
    9 detença: demora.
    10 avença: acordo.
    11 ser pingado: ser pingado com gotas de gordura fervendo (segundo o imaginário popular, processo de tortura que ocorreria no inferno)
    No excerto, o traço mais característico do diabo é
    Escolha uma alternativa para a questão 1a69f6a9-30
  • Linguagens

    Português

    Para responder a questão, leia a crônica “Anúncio de João Alves”, de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), publicada originalmente em 1954.

         Figura o anúncio em um jornal que o amigo me mandou, e está assim redigido:

         À procura de uma besta. – A partir de 6 de outubro do ano cadente, sumiu-me uma besta vermelho-escura com os seguintes característicos: calçada e ferrada de todos os membros locomotores, um pequeno quisto na base da orelha direita e crina dividida em duas seções em consequência de um golpe, cuja extensão pode alcançar de quatro a seis centímetros, produzido por jumento.

       Essa besta, muito domiciliada nas cercanias deste comércio, é muito mansa e boa de sela, e tudo me induz ao cálculo de que foi roubada, assim que hão sido falhas todas as indagações.

      Quem, pois, apreendê-la em qualquer parte e a fizer entregue aqui ou pelo menos notícia exata ministrar, será razoavelmente remunerado. Itambé do Mato Dentro, 19 de novembro de 1899. (a) João Alves Júnior.

      Cinquenta e cinco anos depois, prezado João Alves Júnior, tua besta vermelho-escura, mesmo que tenha aparecido, já é pó no pó. E tu mesmo, se não estou enganado, repousas suavemente no pequeno cemitério de Itambé. Mas teu anúncio continua um modelo no gênero, se não para ser imitado, ao menos como objeto de admiração literária.

       Reparo antes de tudo na limpeza de tua linguagem. Não escreveste apressada e toscamente, como seria de esperar de tua condição rural. Pressa, não a tiveste, pois o animal desapareceu a 6 de outubro, e só a 19 de novembro recorreste à Cidade de Itabira. Antes, procedeste a indagações. Falharam. Formulaste depois um raciocínio: houve roubo. Só então pegaste da pena, e traçaste um belo e nítido retrato da besta.

       Não disseste que todos os seus cascos estavam ferrados; preferiste dizê-lo “de todos os seus membros locomotores”. Nem esqueceste esse pequeno quisto na orelha e essa divisão da crina em duas seções, que teu zelo naturalista e histórico atribuiu com segurança a um jumento.

       Por ser “muito domiciliada nas cercanias deste comércio”, isto é, do povoado e sua feirinha semanal, inferiste que não teria fugido, mas antes foi roubada. Contudo, não o afirmas em tom peremptório: “tudo me induz a esse cálculo”. Revelas aí a prudência mineira, que não avança (ou não avançava) aquilo que não seja a evidência mesma. É cálculo, raciocínio, operação mental e desapaixonada como qualquer outra, e não denúncia formal.

       Finalmente – deixando de lado outras excelências de tua prosa útil – a declaração final: quem a apreender ou pelo menos “notícia exata ministrar”, será “razoavelmente remunerado”. Não prometes recompensa tentadora; não fazes praça de generosidade ou largueza; acenas com o razoável, com a justa medida das coisas, que deve prevalecer mesmo no caso de bestas perdidas e entregues.

       Já é muito tarde para sairmos à procura de tua besta, meu caro João Alves do Itambé; entretanto essa criação volta a existir, porque soubeste descrevê-la com decoro e propriedade, num dia remoto, e o jornal a guardou e alguém hoje a descobre, e muitos outros são informados da ocorrência. Se lesses os anúncios de objetos e animais perdidos, na imprensa de hoje, ficarias triste. Já não há essa precisão de termos e essa graça no dizer, nem essa moderação nem essa atitude crítica. Não há, sobretudo, esse amor à tarefa bem-feita, que se pode manifestar até mesmo num anúncio de besta sumida.

    (Fala, amendoeira, 2012.)

    Em “Contudo, não o afirmas em tom peremptório: ‘tudo me induz a esse cálculo’.” (5º parágrafo), o termo destacado pode ser substituído, sem prejuízo de sentido para o texto, por:
    Escolha uma alternativa para a questão 1a612727-30
  • Linguagens

    Português

    Para responder a questão, leia a crônica “Anúncio de João Alves”, de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), publicada originalmente em 1954.

         Figura o anúncio em um jornal que o amigo me mandou, e está assim redigido:

         À procura de uma besta. – A partir de 6 de outubro do ano cadente, sumiu-me uma besta vermelho-escura com os seguintes característicos: calçada e ferrada de todos os membros locomotores, um pequeno quisto na base da orelha direita e crina dividida em duas seções em consequência de um golpe, cuja extensão pode alcançar de quatro a seis centímetros, produzido por jumento.

       Essa besta, muito domiciliada nas cercanias deste comércio, é muito mansa e boa de sela, e tudo me induz ao cálculo de que foi roubada, assim que hão sido falhas todas as indagações.

      Quem, pois, apreendê-la em qualquer parte e a fizer entregue aqui ou pelo menos notícia exata ministrar, será razoavelmente remunerado. Itambé do Mato Dentro, 19 de novembro de 1899. (a) João Alves Júnior.

      Cinquenta e cinco anos depois, prezado João Alves Júnior, tua besta vermelho-escura, mesmo que tenha aparecido, já é pó no pó. E tu mesmo, se não estou enganado, repousas suavemente no pequeno cemitério de Itambé. Mas teu anúncio continua um modelo no gênero, se não para ser imitado, ao menos como objeto de admiração literária.

       Reparo antes de tudo na limpeza de tua linguagem. Não escreveste apressada e toscamente, como seria de esperar de tua condição rural. Pressa, não a tiveste, pois o animal desapareceu a 6 de outubro, e só a 19 de novembro recorreste à Cidade de Itabira. Antes, procedeste a indagações. Falharam. Formulaste depois um raciocínio: houve roubo. Só então pegaste da pena, e traçaste um belo e nítido retrato da besta.

       Não disseste que todos os seus cascos estavam ferrados; preferiste dizê-lo “de todos os seus membros locomotores”. Nem esqueceste esse pequeno quisto na orelha e essa divisão da crina em duas seções, que teu zelo naturalista e histórico atribuiu com segurança a um jumento.

       Por ser “muito domiciliada nas cercanias deste comércio”, isto é, do povoado e sua feirinha semanal, inferiste que não teria fugido, mas antes foi roubada. Contudo, não o afirmas em tom peremptório: “tudo me induz a esse cálculo”. Revelas aí a prudência mineira, que não avança (ou não avançava) aquilo que não seja a evidência mesma. É cálculo, raciocínio, operação mental e desapaixonada como qualquer outra, e não denúncia formal.

       Finalmente – deixando de lado outras excelências de tua prosa útil – a declaração final: quem a apreender ou pelo menos “notícia exata ministrar”, será “razoavelmente remunerado”. Não prometes recompensa tentadora; não fazes praça de generosidade ou largueza; acenas com o razoável, com a justa medida das coisas, que deve prevalecer mesmo no caso de bestas perdidas e entregues.

       Já é muito tarde para sairmos à procura de tua besta, meu caro João Alves do Itambé; entretanto essa criação volta a existir, porque soubeste descrevê-la com decoro e propriedade, num dia remoto, e o jornal a guardou e alguém hoje a descobre, e muitos outros são informados da ocorrência. Se lesses os anúncios de objetos e animais perdidos, na imprensa de hoje, ficarias triste. Já não há essa precisão de termos e essa graça no dizer, nem essa moderação nem essa atitude crítica. Não há, sobretudo, esse amor à tarefa bem-feita, que se pode manifestar até mesmo num anúncio de besta sumida.

    (Fala, amendoeira, 2012.)

    Está empregado em sentido figurado o termo destacado no seguinte trecho:
    Escolha uma alternativa para a questão 1a5e4dd0-30
  • Linguagens

    Português

    Para responder a questão, leia a crônica “Anúncio de João Alves”, de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), publicada originalmente em 1954.

         Figura o anúncio em um jornal que o amigo me mandou, e está assim redigido:

         À procura de uma besta. – A partir de 6 de outubro do ano cadente, sumiu-me uma besta vermelho-escura com os seguintes característicos: calçada e ferrada de todos os membros locomotores, um pequeno quisto na base da orelha direita e crina dividida em duas seções em consequência de um golpe, cuja extensão pode alcançar de quatro a seis centímetros, produzido por jumento.

       Essa besta, muito domiciliada nas cercanias deste comércio, é muito mansa e boa de sela, e tudo me induz ao cálculo de que foi roubada, assim que hão sido falhas todas as indagações.

      Quem, pois, apreendê-la em qualquer parte e a fizer entregue aqui ou pelo menos notícia exata ministrar, será razoavelmente remunerado. Itambé do Mato Dentro, 19 de novembro de 1899. (a) João Alves Júnior.

      Cinquenta e cinco anos depois, prezado João Alves Júnior, tua besta vermelho-escura, mesmo que tenha aparecido, já é pó no pó. E tu mesmo, se não estou enganado, repousas suavemente no pequeno cemitério de Itambé. Mas teu anúncio continua um modelo no gênero, se não para ser imitado, ao menos como objeto de admiração literária.

       Reparo antes de tudo na limpeza de tua linguagem. Não escreveste apressada e toscamente, como seria de esperar de tua condição rural. Pressa, não a tiveste, pois o animal desapareceu a 6 de outubro, e só a 19 de novembro recorreste à Cidade de Itabira. Antes, procedeste a indagações. Falharam. Formulaste depois um raciocínio: houve roubo. Só então pegaste da pena, e traçaste um belo e nítido retrato da besta.

       Não disseste que todos os seus cascos estavam ferrados; preferiste dizê-lo “de todos os seus membros locomotores”. Nem esqueceste esse pequeno quisto na orelha e essa divisão da crina em duas seções, que teu zelo naturalista e histórico atribuiu com segurança a um jumento.

       Por ser “muito domiciliada nas cercanias deste comércio”, isto é, do povoado e sua feirinha semanal, inferiste que não teria fugido, mas antes foi roubada. Contudo, não o afirmas em tom peremptório: “tudo me induz a esse cálculo”. Revelas aí a prudência mineira, que não avança (ou não avançava) aquilo que não seja a evidência mesma. É cálculo, raciocínio, operação mental e desapaixonada como qualquer outra, e não denúncia formal.

       Finalmente – deixando de lado outras excelências de tua prosa útil – a declaração final: quem a apreender ou pelo menos “notícia exata ministrar”, será “razoavelmente remunerado”. Não prometes recompensa tentadora; não fazes praça de generosidade ou largueza; acenas com o razoável, com a justa medida das coisas, que deve prevalecer mesmo no caso de bestas perdidas e entregues.

       Já é muito tarde para sairmos à procura de tua besta, meu caro João Alves do Itambé; entretanto essa criação volta a existir, porque soubeste descrevê-la com decoro e propriedade, num dia remoto, e o jornal a guardou e alguém hoje a descobre, e muitos outros são informados da ocorrência. Se lesses os anúncios de objetos e animais perdidos, na imprensa de hoje, ficarias triste. Já não há essa precisão de termos e essa graça no dizer, nem essa moderação nem essa atitude crítica. Não há, sobretudo, esse amor à tarefa bem-feita, que se pode manifestar até mesmo num anúncio de besta sumida.

    (Fala, amendoeira, 2012.)

    O humor presente na crônica decorre, entre outros fatores, do fato de o cronista
    Escolha uma alternativa para a questão 1a55bd46-30
  • Linguagens

    Inglês

    Imagem da questão de Inglês, UNICAMP 2016, Interpretação de texto | Reading comprehension


    Depreende-se das informações da figura que

    Escolha uma alternativa para a questão 6f158e6c-1d
  • Linguagens

    Português

    “São Francisco botava o dedo nas feridas dos leprosos. Mas é que ele era um santo, fazia milagres, e ela é simplesmente Doralice Leitão Leiria, um ser humano como qualquer outro.”
    (Érico Veríssimo, Caminhos cruzados. São Paulo: Companhia de Bolso, 2016, p.77.)
    “ – Queres seguir a política? Então? Procura imitar Bismarck! Haverá padrão melhor?” (Idem, p. 290.)
    Os fragmentos acima captam um dos traços principais de Caminhos cruzados no que diz respeito à identidade narrativa das personagens. Considerando o conjunto do romance, tal traço consiste em uma
    Escolha uma alternativa para a questão 6e346cc6-1d
  • Linguagens

    Português

    Caligrafia (Arnaldo Antunes)
    Arte do desenho manual das letras e palavras.
    Território híbrido entre os códigos verbal e visual. A caligrafia está para a escrita como a voz está para a fala. A cor, o comprimento e espessura das linhas, a disposição espacial, a velocidade dos traços da escrita correspondem a timbre, ritmo, tom, cadência, melodia do discurso falado. Entonação gráfica.
    Assim como a voz apresenta a efetivação física do discurso (o ar nos pulmões, a vibração das cordas vocais, os movimentos da língua), a caligrafia também está intimamente ligada ao corpo, pois carrega em si os sinais de maior força ou delicadeza, rapidez ou lentidão, brutalidade ou leveza do momento de sua feitura.
    (Adaptado de https://www.arnaldoantunes.com.br. Acessado em 12/07/2016.)
    Em Caligrafia, o autor
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    Inglês

                                               TEXT

          Nearly 250 million young children across the world – 43% of under-fives – are unlikely to fulfil their potential as adults because of stunting and extreme poverty, new figures show.

          The first three years of life are crucial to a child’s development, according to a series of research papers published in the Lancet medical journal, which says there are also economic costs to the failure to help them grow. Those who do not get the nutrition, care and stimulation they need will earn about 26% less than others as adults.

          “The costs of not acting immediately to expand services to improve early childhood development are high for individuals and their families, as well as for societies,” say the researchers. The cost to some countries in GDP (gross domestic product), they estimate, is as much as twice their spending on healthcare.

          The figures come as the World Bank prepares for a summit meeting with finance ministers around the globe to discuss how nurturing children in their early years will help their countries’ economic development. The World Bank president, Jim Yong Kim, has told the Guardian that he intends to use the World Economic Forum in Davos each year to name and shame countries that do not reduce their high stunting rates.

           The Lancet series says the first 24 months of life are the critical time for avoiding stunting. Undernourished children living in extreme poverty end up small and their brain development is affected, so that they find it hard to learn. “Some catch-up is possible in height-for-age after 24 months, with uncertain cognitive gains,” says one of the papers. 

          In sub-Saharan Africa, 66% of children are estimated to be at risk of poor development because of stunting and poverty. In south Asia, the figure is 65%, and 18% in the Caribbean and South America.  

          Mothers need to be well nourished to give their babies a good start in life and be able to breastfeed. Families need help to give children the nutrition and nurturing they need, say researchers. That includes breastfeeding, free pre-school education – which is available in only two-thirds of high-income countries – paid leave for parents and a minimum wage to pull more families out of poverty.

          There are children at risk in all countries, rich and poor. The series points to early childhood programs that have been effective, including Sure Start in the UK, Early Head Start in the US, Chile’s Crece Contigo and Grade R in South Africa

          In a Comment piece in the journal, Dr Margaret Chan, director general of the World Health Organization, Anthony Lake, executive director of the United Nations Children’s Fund, and Keith Hansen, vice-president for human development at the World Bank, write: “The early childhood agenda is truly global, because the need is not limited to low-income countries. Children living in disadvantaged households in middle-income and wealthy countries are also at risk.

          “In targeting our investments, we should give priority to populations in the greatest need, such as families and children in extreme poverty and those who require humanitarian assistance. In addition, we have to build more resilient systems in vulnerable communities to mitigate the disruptive influence of natural disasters, fragility, conflict, and violence.”

          Wanda Wyporska, executive director of the Equality Trust, said: “It’s no surprise that the richer you are, the better your health is likely to be”. But the chasm of health inequality between rich and poor has widened in recent years.

          “Being born into a poor family shouldn’t mean decades of poorer health and even premature death, but that’s the shameful reality of the UK’s health gap. If you rank neighborhoods in the UK from the richest to the poorest, you have almost perfectly ranked health from the best to the worst.”

                                         https://www.theguardian.com/global-development/2016/oct/04

    One of the facts mentioned in the article is that in recent years
    Escolha uma alternativa para a questão 0b4cb765-0d
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    Inglês

    TEXTO 3

                              Escalada para o inferno

    Iniciava-se ali, meu estágio no inferno. A ardida solidão corroía cada passo que eu dava. Via crucis vivida aos seis anos de idade, ao sol das duas horas. Vermelhidão por todos os lados daquela rua íngreme e poeirenta. Meus olhos pediam socorro mas só encontravam uma infinitude de terra e desolação. Tentava acompanhar os passos de meu pai. E eles eram enormes. Não só os passos mas as pernas. Meus olhos olhavam duplamente: para os passos e para as pernas e não alcançavam nem um nem outro. Apenas se defrontavam com um vazio empoeirado que entrava no meu ser inteiro. Eu queria chorar mas tinha medo. Tropeçava a cada tentativa de correr para alcançar meu pai. E eu tinha medo de ter medo. E eu tinha medo de chorar. E era um sofrimento com todos os vórtices de agonia. À minha frente, até onde meus olhos conseguiram enxergar, estavam os pés e as pernas de meu pai que iam firmes subindo subindo subindo sem cessar. À minha volta eu podia ver e sentir a terra vermelha e minha vida envolta num turbilhão de desespero. Na verdade eu não sabia muito bem para onde estava indo. Eu era bestializado nos meus próprios passos. Nas minhas próprias pernas. Tinha a impressão que o ponto de chegada era aquele redemoinho em que me encontrava e que dele nunca mais sairia. Na ânsia de ir sem querer ir eu gaguejava no caminhar. E olhava com sofreguidão para os meus pés e via ainda com mais aflição que os bicos de meus sapatos novos estavam sujos daquela poeira impregnante, vasculhante, suja. Eu sempre gostei de sapatos. Eu sempre gostei de sapatos novos. Novos e luzidios. E eles estavam sujos. Cobertos de poeira. E a subida prosseguia inalterada. Tentava olhar para o alto e só conseguia ver os enormes joelhos de meu pai que dobravam num ritmo compassado. Via suas pernas e seus pés. E só. Sentia, lá no fundo, um desejo calado de dizer alguma coisa. De dizer-lhe que parasse. Que fosse mais devagar. Que me amparasse. Mas esse desejo era um calo na minha pequenina garganta que jamais seria curado. E eu prossegui ao extremo de meus limites. Tinha de acontecer: desamarrou o cadarço de meu sapato. A loucura do sol das duas horas parece ter se engraçado pelo meu desatino. Tudo ficou muito mais quente. Tudo ficou mais empoeirado e muito mais vermelho. O desatino me levou ao choro. Não sei se chorei ou se choraminguei. Só sei que dei índices de que eu precisava de meu pai. E ele atendeu. Voltou-se para mim e viu que estava pisando no cadarço. Que estava prestes a cair. Então me socorreu. Olhou-me nos olhos com a expressão casmurra. Levou suas enormes mãos aos meus pés e amarrou o cadarço firmemente com um intrincado nó. A cena me levou a um estado de cegueira anestésica tão intensa que sofri uma espécie de amnésia passageira. Estado de torpor. Quando dei por mim, já tinha chegado ao meu destino: cadeira do barbeiro. Alta, prepotente e giratória. Ele, o barbeiro, cabeça enorme, mãos enormes, enormes unhas, sorriso nos lábios dos quais surgiam grandes caninos. Ele portava enorme máquina que apontava em minha direção. E ouvi a voz do pai: pode tirar quase tudo! deixa só um pouco em cima! Ali, finalmente, para lembrar Rimbaud, ia se encerrar meu estágio no inferno.

    (GONÇALVES, Aguinaldo. Das estampas. São Paulo: Nankin, 2013. p. 45-46.)

    In Text 3, at the begining of the paragraph, the narrator says “Iniciava-se ali, meu estágio no inferno” and finishes it with “ia se encerrar meu estágio no inferno”. Choose the best definition for the underlined words:
    Escolha uma alternativa para a questão d14cf90e-e4
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    Português

    TEXTO 3

                              Escalada para o inferno

    Iniciava-se ali, meu estágio no inferno. A ardida solidão corroía cada passo que eu dava. Via crucis vivida aos seis anos de idade, ao sol das duas horas. Vermelhidão por todos os lados daquela rua íngreme e poeirenta. Meus olhos pediam socorro mas só encontravam uma infinitude de terra e desolação. Tentava acompanhar os passos de meu pai. E eles eram enormes. Não só os passos mas as pernas. Meus olhos olhavam duplamente: para os passos e para as pernas e não alcançavam nem um nem outro. Apenas se defrontavam com um vazio empoeirado que entrava no meu ser inteiro. Eu queria chorar mas tinha medo. Tropeçava a cada tentativa de correr para alcançar meu pai. E eu tinha medo de ter medo. E eu tinha medo de chorar. E era um sofrimento com todos os vórtices de agonia. À minha frente, até onde meus olhos conseguiram enxergar, estavam os pés e as pernas de meu pai que iam firmes subindo subindo subindo sem cessar. À minha volta eu podia ver e sentir a terra vermelha e minha vida envolta num turbilhão de desespero. Na verdade eu não sabia muito bem para onde estava indo. Eu era bestializado nos meus próprios passos. Nas minhas próprias pernas. Tinha a impressão que o ponto de chegada era aquele redemoinho em que me encontrava e que dele nunca mais sairia. Na ânsia de ir sem querer ir eu gaguejava no caminhar. E olhava com sofreguidão para os meus pés e via ainda com mais aflição que os bicos de meus sapatos novos estavam sujos daquela poeira impregnante, vasculhante, suja. Eu sempre gostei de sapatos. Eu sempre gostei de sapatos novos. Novos e luzidios. E eles estavam sujos. Cobertos de poeira. E a subida prosseguia inalterada. Tentava olhar para o alto e só conseguia ver os enormes joelhos de meu pai que dobravam num ritmo compassado. Via suas pernas e seus pés. E só. Sentia, lá no fundo, um desejo calado de dizer alguma coisa. De dizer-lhe que parasse. Que fosse mais devagar. Que me amparasse. Mas esse desejo era um calo na minha pequenina garganta que jamais seria curado. E eu prossegui ao extremo de meus limites. Tinha de acontecer: desamarrou o cadarço de meu sapato. A loucura do sol das duas horas parece ter se engraçado pelo meu desatino. Tudo ficou muito mais quente. Tudo ficou mais empoeirado e muito mais vermelho. O desatino me levou ao choro. Não sei se chorei ou se choraminguei. Só sei que dei índices de que eu precisava de meu pai. E ele atendeu. Voltou-se para mim e viu que estava pisando no cadarço. Que estava prestes a cair. Então me socorreu. Olhou-me nos olhos com a expressão casmurra. Levou suas enormes mãos aos meus pés e amarrou o cadarço firmemente com um intrincado nó. A cena me levou a um estado de cegueira anestésica tão intensa que sofri uma espécie de amnésia passageira. Estado de torpor. Quando dei por mim, já tinha chegado ao meu destino: cadeira do barbeiro. Alta, prepotente e giratória. Ele, o barbeiro, cabeça enorme, mãos enormes, enormes unhas, sorriso nos lábios dos quais surgiam grandes caninos. Ele portava enorme máquina que apontava em minha direção. E ouvi a voz do pai: pode tirar quase tudo! deixa só um pouco em cima! Ali, finalmente, para lembrar Rimbaud, ia se encerrar meu estágio no inferno.

    (GONÇALVES, Aguinaldo. Das estampas. São Paulo: Nankin, 2013. p. 45-46.)

    Que aspecto linguístico é responsável por criar, no Texto 3, uma atmosfera dramática e misteriosa? Assinale a alternativa correta:
    Escolha uma alternativa para a questão d14539a0-e4
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    Português

    TEXTO 2

                                    O milagre de viajar

    Quisera eu, então, decifrar

    os dias repletos de sombras moventes,

    à exaltação do que, insalubre, vaga

    pelos olhos dos homens.


    Quisera, enfim,

    saber por que das causas e quilhas

    de barco nenhum

    flui das tinas

    dos dias

    o fumo

    o rum(o)


    do que se foi e nunca mais será,

    como da via o milagre

    de viajar!

    (VIEIRA, Delermando. Os tambores da tempestade. Goiânia: Poligráfica, 2010. p. 142.)

    A poesia é uma expressão artística que permite associar imagens, palavras e ritmos. Sobre ela, podemos afirmar que (assinale a alternativa correta):
    Escolha uma alternativa para a questão d1428330-e4
  • Linguagens

    Português

    TEXTO 1

    Democracia

    Punhos de redes embalaram o meu canto

    para adoçar o meu país, ó Whitman.

    Jenipapo coloriu o meu corpo contra os maus-                                                                                

                                                         [olhados,

    catecismo me ensinou a abraçar os hóspedes,

    carumã me alimentou quando eu era criança,

    Mãe-negra me contou histórias de bicho,

    moleque me ensinou safadezas,

    massoca, tapioca, pipoca, tudo comi,

    bebi cachaça com caju para limpar-me,

    tive maleita, catapora e ínguas,

    bicho-de-pé, saudade, poesia;

    fiquei aluado, mal-assombrado, tocando maracá,

    dizendo coisas, brincando com as crioulas,

    vendo espíritos, abusões, mães-d’água,

    conversando com os malucos, conversando sozinho,

    emprenhando tudo que encontrava,

    abraçando as cobras pelos matos,

    me misturando, me sumindo, me acabando,

    para salvar a minha alma benzida

    e meu corpo pintado de urucu,

    tatuado de cruzes de corações, de mãos-ligadas,

    de nomes de amor em todas as línguas de branco, de                                                          

                                                     [mouro ou de pagão.

    (LIMA, Jorge de. Melhores poemas. São Paulo: Global, 2006. p. 74.)

    O título “Democracia”, do Texto 1, deve-se ao fato de que (assinale a alternativa correta):
    Escolha uma alternativa para a questão d11adc4e-e4
  • Linguagens

    Português

    Mas o pecado maior contra a Civilização e o Progresso, contra o Bom Senso e o Bom Gosto e até os Bons Costumes, que estaria sendo cometido pelo grupo de regionalistas a quem se deve a ideia ou a organização deste Congresso, estaria em procurar reanimar não só a arte arcaica dos quitutes finos e caros em que se esmeraram, nas velhas casas patriarcais, algumas senhoras das mais ilustres famílias da região, e que está sendo esquecida pelos doces dos confeiteiros franceses e italianos, como a arte - popular como a do barro, a do cesto, a da palha de Ouricuri, a de piaçava, a dos cachimbos e dos santos de pau, a das esteiras, a dos ex-votos, a das redes, a das rendas e bicos, a dos brinquedos de meninos feitos de sabugo de milho, de canudo de mamão, de lata de doce de goiaba, de quenga de coco, de cabaça - que é, no Nordeste, o preparado do doce, do bolo, do quitute de tabuleiro, feito por mãos negras e pardas com uma perícia que iguala, e às vezes excede, a das sinhás brancas.

    Gilberto Freyre. Manifesto regionalista (7ª ed.). Recife: FUNDAJ, Ed. Massangana, 1996.

    De acordo com o texto de Gilberto Freyre, o Manifesto regionalista, publicado em 1926,

    Escolha uma alternativa para a questão ffa35b8d-e1