Português
- Interpretação de Textos
- Prova de 2011
- UFRN
- Dificuldade: Fácil
- Código da questão: 33EDE130-DC
Disciplina · Linguagens
Questões de Português, da área de Linguagens, com gabarito em cada página.

Os bens e o sangue
VIII
(...)
Ó filho pobre, e descorçoado*, e finito
ó inapto para as cavalhadas e os trabalhos brutais
com a faca, o formão, o couro... Ó tal como quiséramos
para tristeza nossa e consumação das eras,
para o fim de tudo que foi grande!
Ó desejado,
ó poeta de uma poesia que se furta e se expande
à maneira de um lago de pez** e resíduos letais...
És nosso fim natural e somos teu adubo,
tua explicação e tua mais singela virtude...
Pois carecia que um de nós nos recusasse
para melhor servirnos. Face a face
te contemplamos, e é teu esse primeiro
e úmido beijo em nossa boca de barro e de sarro.
Carlos Drummond de Andrade, Claro enigma.
* “descorçoado”: assim como “desacorçoado”, é uma variante de uso popular da palavra “desacoroçoado”, que significa “desanimado”.
** “pez”: piche.
Considere as seguintes afirmações:
I. Os familiares, que falam no poema, ironizam a condição frágil do poeta.
II. O passado é uma maldição da qual o poeta, como revela o título do poema, não consegue se desvencilhar.
III. O trecho “o fim de tudo que foi grande” remete à ruína das oligarquias, das quais Drummond é tributário.
IV. A imagem de uma “poesia que se furta e se expande/à maneira de um lago de pez e resíduos letais...” sintetiza o pessimismo dos poemas de Claro enigma.
Estão corretas:

Os bens e o sangue
VIII
(...)
Ó filho pobre, e descorçoado*, e finito
ó inapto para as cavalhadas e os trabalhos brutais
com a faca, o formão, o couro... Ó tal como quiséramos
para tristeza nossa e consumação das eras,
para o fim de tudo que foi grande!
Ó desejado,
ó poeta de uma poesia que se furta e se expande
à maneira de um lago de pez** e resíduos letais...
És nosso fim natural e somos teu adubo,
tua explicação e tua mais singela virtude...
Pois carecia que um de nós nos recusasse
para melhor servirnos. Face a face
te contemplamos, e é teu esse primeiro
e úmido beijo em nossa boca de barro e de sarro.
Carlos Drummond de Andrade, Claro enigma.
* “descorçoado”: assim como “desacorçoado”, é uma variante de uso popular da palavra “desacoroçoado”, que significa “desanimado”.
** “pez”: piche.
Considere o tipo de relação estabelecida pela preposição “para” nos seguintes trechos do poema:
I. “ó inapto para as cavalhadas e os trabalhos brutais”.
II. “Ó tal como quiséramos para tristeza nossa e consumação das eras”.
III. “para o fim de tudo que foi grande”.
IV. “para melhor servirnos”.
A preposição “para” introduz uma oração com ideia de finalidade apenas em




Linguisticamente
A linguística, nascida no século 19 e amadurecida no 20, revolucionou o mapa do nosso entendimento sobre as línguas. Até então, a cartografia do verbo tinha duas estradas principais, a normativista e a enciclopédica.
O normativismo é, como diria o Chico, “bedel e também juiz”. Dita regras de bom uso do idioma, pautadas num distante ideal fixado por escritores clássicos, e fica bravo se discordamos. É o que costuma cair em provas, muitas vezes na forma de ridículas pegadinhas. O maior símbolo dessa visão que divide o mundo em certo e errado é aquele tijolo temido pelos estudantes do meu tempo, a gramática normativa. Até hoje o normativismo pauta o senso comum. “Português é tão difícil! A língua está decadente! Será que pode se escrever assim?”
O enciclopedismo é menos carrancudo. Como um colecionador de borboletas, espeta expressões — com destaque para as pitorescas — em compridos murais de cortiça que formam corredores a perder de vista. Tem como símbolo um tijolo maior ainda, o dicionário, que hoje já quase ninguém tira da estante, porque funciona melhor on-line.
A linguística abriu uma terceira via nesse mapa, rumo a amplas regiões inexploradas — a do olhar científico aplicado à língua. Um linguista não está interessado em como a língua deveria ser nem na catalogação de palavras em sua quase infinita variedade. O que se deseja saber é como essa poderosa máquina de fazer sentido, moeda simbólica de toda sociedade humana, estrutura-se e se manifesta. Trata-se de uma ideia simples, indiscutível até. A língua existe na vida real, material, fora do âmbito de nossos desejos, e está condicionada apenas à história.
Sérgio Rodrigues, Folha de São Paulo, 03 fev. 2021. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/sergio-rodrigues/2021/02/linguisticamente.shtml.
Acesso em: 20 ago. 2022 (fragmento).
Sobre a interpretação autorizada do texto de Sérgio Rodrigues, é correto afirmar que a linguística
Salman Rushdie: duas semanas após ataque, intelectuais fazem campanha por Nobel para escritor.
Hospitalizado após sofrer 15 facadas no último 12 de agosto de 2022, o escritor Salman Rushdie, de 75 anos, é daqueles nomes que são todo ano lembrados para o Nobel de Literatura. Após o atentado que quase o matou, essa lembrança ficou ainda mais forte. Entre diversos escritores franceses, um possível Nobel para Rushdie virou caso de torcida e campanha nos últimos dias. Neste ano, o prêmio da Academia Sueca, o mais importante da literatura, será anunciado no dia 10 de dezembro de 2022.
[...]
Próximo de Rushdie, Bernard-Henri Lévy publicou um longo texto relatando sua amizade com o colega britânico.
“A comunidade internacional terá de dizer aos patrocinadores do crime que há um antes e um depois do novo caso Salman Rushdie”, escreveu Henri Lévy. “Mas seus amigos, seus pares, aqueles cuja opinião conta, a imprensa, têm uma decisão nas mãos. Para garantir que, em nome de toda a sua família e em seu próprio nome, lhe seja atribuído este ano, ou seja, em poucas semanas, o Prêmio Nobel da Literatura”.
Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/cultura/salman-rushdie-duas-semanas-apos-ataque-intelectuais-fazem-campanha-por-nobel-para-escritor/. Acesso
em: 01 set. 2022 (adaptado).
De acordo com o trecho apresentado, é correto afirmar que
[...]
Orientupis orientupis
Ameriquítalos luso nipo caboclos
Orientupis orientupis
Iberibárbaros indo ciganagôs
[...]
ANTUNES. Arnaldo. Inclassificáveis. Disponível em: https://www.letras.mus.br/ney-matogrosso/1228362/. Acesso em: 05 set. 2022 (fragmento).
Com base no trecho da letra da música Inclassificáveis, composta por Arnaldo Antunes e interpretada por Ney Matogrosso, o compositor recorre ao processo morfológico de formação de palavras chamado
Cantares do sem - nome e de partidas
Hilda Hilst
[...]
Que este amor não me cegue nem me siga
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua do estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.
Que este amor só me faça descontente
E farta de fadigas. E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena. E diminuta e tenra
Como só soem ser aranhas e formigas.
Que este amor só me veja de partida.
HILST, Hilda. Que este amor não me cegue. Disponível em: http://www.hildahilst.com.br/portfolio/cantares-do-sem-nome-e-de-partidas. Acesso em: 08 set. 2022 (fragmento).
Respectivamente, as palavras fulgor, rutilante e soem equivalem semanticamente a:
TEXTO I
Ninguém ganha uma multa
Quantas vezes você já ouviu um repórter ou locutor esportivo afirmar que o jogador acaba de “ganhar cartão amarelo”? Perdeu a conta? Pois esse é apenas um dos usos indevidos do verbo ganhar. Como ele só tem sentido positivo, de modo diferente do que se lê ou ouve muitas vezes, ninguém “ganha” uma punição, uma multa, uma advertência, uma repreensão, uma descompostura, um ferimento, um tiro ou uma cicatriz no rosto. O que a pessoa pode é receber ou sofrer – mas jamais “ganhar” – quaisquer coisas dessas.
MARTINS, Eduardo. Com todas as letras: o português simplificado. São Paulo: Moderna, 1999, p. 123.
TEXTO II
Ganhar (ga.nhar) v. t.d. e t.d.i. 1 (prep. de) receber (algo) por merecimento, trabalho ou sorte < ganhou um par de tênis (do pai) > 2 <ganhou um beijo do amigo> < ganhou um tapa > B infrm*(prep. de) ser atingido por; receber, levar t.d. 3 tomar conta de; apoderar-se <o sono ganhou o doente > 4 passar a ter; adquirir <ganhou saúde, fama> 5 deixar de gastar (tempo); economizar < seguindo pelo atalho, ganhou algumas horas > 6 trazer de volta; recuperar <quer ganhar o tempo que perdeu> recuperar 7 infrm. Conquistar; seduzir <ganhou uma garota> 8 dar à luz (uma criança); parir t.d. e int. 9 sair vitorioso (em); vencer <i promotor ganhou a causa> <o time da casa ganhou> GRAM/USO part.: ganhado, ganho.
* B infrm – brasileirismo; linguagem informal. Instituto Antônio Houaiss de Lexicografia (org.). Pequeno dicionário Houaiss de língua portuguesa. São Paulo:
Moderna, 2015, p.480-481.
Considerando os argumentos apresentados no texto I, quanto a uma possível acepção semântica do verbo “ganhar”, e as trazidas no texto II pelo Dicionário Houaiss para esse verbo, assinale a alternativa correta.
Xe rohenói eju orendive (Tradução do verso: Nós te chamamos pra revolucionar)
Venha com nós, nessa levada
Xe rohenói eju orendive (Tradução do verso: Nós te chamamos pra revolucionar)
Aldeia unida, mostra a cara
BRÔ MC’S OFICIAL. Brô Mc’s - Eju orendivê | Clipe oficial | Legendado. 6/5/2020. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=sqq1ye9aK0s. Acesso em:
31 out. 2022 (fragmento).

Disponível em: https://g1.globo.com/ms/mato-grosso-do-sul/noticia/2022/09/07/apos-darem-o-nome-no-palco-do-rock-in-rio-bro-mcs-fala-de-show-e-da-spoiler-de-proximos-passos.ghtml. Acesso em: 31 out. 2022.
Rememorando o RAP Eju orendive, do Grupo Brô Mcs, estando apresentado o refrão em sua versão oficial, extraído do canal desse Grupo no YouTube, é correto afirmar que
[...] MARIA LÚCIA – Nossa! Que susto! (ela ouve um interlocutor) O que? Claro. Eu percebi que a luz vermelha acendeu, não sou cega. (pausa) Ah! Não... O senhor não vai me obrigar a abrir toda a minha bagagem, vai? (pausa) Vai. Escuta, eu estou vindo ao Brasil porque, eu sei que o senhor não tem nada a ver com isso, mas é uma emergência. Minha mãe faleceu e eu só consegui passagem para hoje e hoje é enterro, entendeu? (pausa) Morreu, sim... Ah, obrigada. Não, já estava bem idosa, coisa da vida.
[...] SELMA – Em mogno, o senhor não tem nada? (Ela ouve, atenta) Sei... aquele ali, é de que? Cerejeira é? Nem percebi... e olha que mandei fazer os armários lá de casa todinhos em cerejeira. [...] Não, não. Eu queria uma coisa mais simples, acho meio vulgar essas tampas muito entalhadas. (pausa) Como? Claro que não é para mim! Que ideia! Isola! (pausa) Trouxe. Trouxe as medidas, sim. (procura na bolsa. Acha o papel.) O senhor não acha isso um horror? Claro que não... é o seu negócio, não é? A mãe é que é minha.
[...] REGINA – Sabe de uma coisa, Francis? Eu descobri que nunca gostei muito da minha mãe. Pelo menos, não da maneira que as pessoas esperam que a gente goste. Eu tenho investigado essa relação há tanto tempo, mas nunca consegui chegar a nenhuma conclusão satisfatória!
[...] (Luz sobre Laura, noutro ponto. Laura está na redação do jornal, onde trabalha. Ela é a mais fechada, a intelectual da família. Ela está com um telefone nas mãos. Sonoplastia típica da redação de um jornal.)
LAURA – Alô? Alô? Merda! Secretária eletrônica, outra vez. (pausa) Alô, aqui é Laura, novamente. Olha desculpe eu estar incomodando, mas eu preciso de uma declaração sua pra fechar uma matéria ainda hoje. Se você puder ligar aqui pro jornal, eu já deixei o número. Obrigada. (ela desliga e fala com alguém) [...].
FALABELLA, Miguel. A Partilha. Universidade Federal de São João del-Rei. Grupo de Estudos e Pesquisa em Teatro Brasileiro. Cópia digitalizada. São João del Rei – MG, maio, 2011.
Com base na leitura da peça teatral A Partilha, de Miguel Falabella, cujos trechos apresentados suscitam reflexões, é correto afirmar que