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Instituição

Questões: Fundação Getulio Vargas (FGV) — com gabarito

1.077 questões de Fundação Getulio Vargas (FGV), de 2012 a 2020. Cada uma tem página própria, com enunciado completo, alternativas e gabarito — e dá para responder na própria página.

  • 1.077 questões
  • 8 provas

Resultados: 424 questões

Página 4 de 22

  • Linguagens

    Português

    Leia o poema de Alberto Caeiro para responder à questão.

    Não basta abrir a janela
    Para ver os campos e o rio.
    Não é bastante não ser cego
    Para ver as árvores e as flores.
    É preciso também não ter filosofia nenhuma.
    Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
    Há só cada um de nós, como uma cave1 .
    Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
    E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
    Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.

    (Obra poética, 1992.)

    1cave: pavimento de uma construção que fica abaixo do nível do solo.
    De acordo com o poema,
    Escolha uma alternativa para a questão 6607d3f4-05
  • Linguagens

    Português

    Texto para a pergunta

    UMA MULHER, DA PORTA DE ONDE SAIU O HOMEM,

    ANUNCIA-LHE O QUE SE VERÁ


    – Compadre José, compadre,

    que na relva estais deitado:

    conversais e não sabeis

    que vosso filho é chegado?

    Estais aí conversando

    em vossa prosa entretida:

    não sabeis que vosso filho

    saltou para dentro da vida?

    Saltou para dentro da vida

    ao dar o primeiro grito;

    e estais aí conversando;

    pois sabei que ele é nascido.

    João Cabral de Melo Neto, Morte e vida severina.


    Se, no texto, em lugar de “vosso”, fosse usado o pronome “teu” ou “seu”, a concordância nos quatro primeiros versos estaria correta apenas em:
    Escolha uma alternativa para a questão 3ea4d08e-fc
  • Linguagens

    Português

    Texto para a pergunta

    UMA MULHER, DA PORTA DE ONDE SAIU O HOMEM,

    ANUNCIA-LHE O QUE SE VERÁ


    – Compadre José, compadre,

    que na relva estais deitado:

    conversais e não sabeis

    que vosso filho é chegado?

    Estais aí conversando

    em vossa prosa entretida:

    não sabeis que vosso filho

    saltou para dentro da vida?

    Saltou para dentro da vida

    ao dar o primeiro grito;

    e estais aí conversando;

    pois sabei que ele é nascido.

    João Cabral de Melo Neto, Morte e vida severina.


    O nascimento do filho do retirante, anunciado nesse trecho de Morte e vida severina , forma contraste com a seguinte marca da obra a que pertence:
    Escolha uma alternativa para a questão 3ea12fa2-fc
  • Linguagens

    Português

    Texto para a pergunta

    Imagem da questão de Português, FGV 2020, Análise sintática

    Aluísio Azevedo, O cortiço. 

    Tendo em vista as relações de sentido estabelecidas no texto, as orações “ao retirar-se o patrão para a terra” (L. 4) e “que afrontava resignado as mais duras privações” (L. 9) exprimem, respectivamente, ideia de
    Escolha uma alternativa para a questão 3e9e6653-fc
  • Linguagens

    Português

    Texto para a pergunta

    Imagem da questão de Português, FGV 2020, Interpretação de Textos

    Aluísio Azevedo, O cortiço. 

    João Romão e Bertoleza, tais como caracterizados no excerto, distinguem-se de Leonardo pai e de Leonardo filho, de Memórias de um sargento de milícias, principalmente na medida em que essas personagens de O cortiço, diferentemente do que ocorre com os dois Leonardos, apresentam, como traço marcante, o fato de que
    Escolha uma alternativa para a questão 3e9b72fa-fc
  • Linguagens

    Português

    Texto para a pergunta

    Imagem da questão de Português, FGV 2020, Interpretação de Textos

    Aluísio Azevedo, O cortiço. 

    A maneira como é caracterizada, no excerto, a morte do companheiro de Bertoleza – que “caiu morto na rua, ao lado da carroça, estrompado como uma besta” (Linha 20) – inaugurou, no início de O cortiço, um procedimento que será uma constante no desenvolvimento da narrativa, ou seja
    Escolha uma alternativa para a questão 3e98aed1-fc
  • Linguagens

    Português

    Texto para a pergunta

    REFORMATÓRIO 

    O Jornal da Tarde trouxe a notícia em grandes títulos.

    Uma manchete ia de lado a lado na primeira página: 

    PRESO O CHEFE DOS CAPITÃES DA AREIA 
        Depois vinham os títulos que estavam em cima de um clichê, onde se viam Pedro Bala, Dora, João Grande, Sem-Pernas e Gato cercados de guardas e investigadores:  


    UMA MENINA NO GRUPO • A SUA HISTÓRIA • RECOLHIDA A UM ORFANATO ● O CHEFE DOS CAPITÃES DA AREIA É FILHO DE UM GREVISTA • OS OUTROS CONSEGUEM FUGIR • “O REFORMATÓRIO O ENDIREITARÁ", NOS AFIRMA O DIRETOR.

    Sob o clichê vinha esta legenda:

    Após ser batida esta chapa o chefe dos peraltas armou uma discussão e um barulho que deu lugar a que os demais moleques presos pudessem fugir. O chefe é o que está marcado com a cruz e ao seu lado vê-se Dora, a nova gigolete dos moleques baianos.

    Jorge Amado, Capitães da Areia.  

    No texto, observa-se que a descrição e a parcial reprodução de notícia de jornal sobre os Capitães da Areia vêm desacompanhadas de juízos de valor ou de comentários do narrador. Esse procedimento artístico
    Escolha uma alternativa para a questão 3e8a4a10-fc
  • Linguagens

    Português

    Texto para a pergunta

    É TRABALHO OU MALHAÇÃO?

    Uma academia dentro do escritório. Esse é o benefício da vez em empresas que levam a sério a saúde (e a produtividade) dos funcionários. 

        O que uma empresa pode oferecer para fazer os olhos do funcionário brilharem? A lista tem crescido nos últimos anos: horário flexível, sala de descompressão, propósito... A resposta também passa pela saúde. É na área do bem-estar que parecem estar os novos e desejáveis benefícios. Um deles é oferecer mais do que apenas acesso a uma academia de ginástica – e, sim, uma academia dentro do próprio escritório

    (...) 

        A tendência é impulsionada por algo mais do que altruísmo: cuidar da saúde dos funcionários é bom, também, para a companhia. No mundo, segundo levantamentos da Organização Mundial da Saúde, os gastos anuais em consequência da inatividade física chegam a 67,5 bilhões de dólares, entre perda de produtividade e cuidados médicos. No Brasil, são 3,6 bilhões de dólares por ano. Uma quantia nada desprezível.

    (...) 

    Natália Leão, Exame, No . 1202, 5/2/2020.  

    No subtítulo do texto, os parênteses em “(e a produtividade)” visam destacar um dos objetivos da empresa, que também está mencionado no seguinte trecho do texto:
    Escolha uma alternativa para a questão 3e77508d-fc
  • Linguagens

    Inglês

    GERMANY IN THE MIDDLE AGES
    By Simon Winder

    Imagem da questão de Inglês, FGV 2018, Interpretação de texto | Reading comprehension

    Adapted from Chapter 3 of the book Germania.
    According to the information in the article, the Black Death
    Escolha uma alternativa para a questão 620aa52e-16
  • Linguagens

    Inglês

    GERMANY IN THE MIDDLE AGES
    By Simon Winder

    Imagem da questão de Inglês, FGV 2018, Interpretação de texto | Reading comprehension

    Adapted from Chapter 3 of the book Germania.
    With respect to the memorials that can still be found in many local churches in Germany, the information in the article most supports which of the following?
    Escolha uma alternativa para a questão 62004005-16
  • Linguagens

    Inglês

    THE PERILS OF POLYGAMY

    Imagem da questão de Inglês, FGV 2018, Interpretação de texto | Reading comprehension

    Adapted from The Economist, December 23, 2017.
    With respect to countries in which polygamy is practiced, the information in the article supports all of the following except
    Escolha uma alternativa para a questão 61e6c1ac-16
  • Linguagens

    Inglês

    THE PERILS OF POLYGAMY

    Imagem da questão de Inglês, FGV 2018, Interpretação de texto | Reading comprehension

    Adapted from The Economist, December 23, 2017.
    Which of the following is most supported by the information in the article?
    Escolha uma alternativa para a questão 61dfea5e-16
  • Linguagens

    Português

    Texto para a questão


    Remissão


    Tua memória, pasto de poesia,

    tua poesia, pasto dos vulgares,

    vão se engastando numa coisa fria

    a que tu chamas: vida, e seus pesares.


    Mas, pesares de quê? perguntaria,

    se esse travo de angústia nos cantares,

    se o que dorme na base da elegia

    vai correndo e secando pelos ares,


    e nada resta, mesmo, do que escreves

    e te forçou ao exílio das palavras,

    senão contentamento de escrever,


    enquanto o tempo, em suas formas breves

    ou longas, que sutil interpretavas,

    se evapora no fundo de teu ser?


    Carlos Drummond de Andrade, Claro enigma.

    Nesse poema de Carlos Drummond de Andrade, encontram-se presentes, entre outras, as seguintes linhas formais e temáticas bastante características de Claro enigma:

    I o emprego de modalidades tradicionais de composição, como, no caso, o verso decassílabo, com rimas cruzadas;
    II a desilusão quanto à integração entre a poesia e o mundo exterior;
    III a madureza, como consciência crescente da finitude do ser;
    IV o recurso à forma fixa do soneto.

    Completa de maneira adequada o que se afirma no início da questão o que está em
    Escolha uma alternativa para a questão 61d6239e-16
  • Linguagens

    Português

    Texto para a questão 

        Vindos do norte, da fronteira velha-de-guerra, bem montados, bem enroupados, bem apessoados, chegaram uns oito homens, que de longe se via que eram valentões: primeiro surgiu um, dianteiro, escoteiro, que percorreu, de ponta a ponta, o povoado, pedindo água à porta de uma casa, pedindo pousada em outra, espiando muito para tudo e fazendo pergunta e pergunta; depois, então, apareceram os outros, equipados com um despropósito de armas – carabinas, novinhas quase; garruchas, de um e de dois canos; revólveres de boas marcas; facas, punhais, quicés de cabos esculpidos; porretes e facões, – e transportando um excesso de breves nos pescoços.
        O bando desfilou em formação espaçada, o chefe no meio. E o chefe – o mais forte e o mais alto de todos, com um lenço azul enrolado no chapéu de couro, com dentes brancos limados em acume, de olhar dominador e tosse rosnada, mas sorriso bonito e mansinho de moça – era o homem mais afamado dos dois sertões do rio: célebre do Jequitinhonha à Serra das Araras, da beira do Jequitaí à barra do Verde Grande, do Rio Gavião até nos Montes Claros, de Carinhanha até Paracatu; maior do que Antônio Dó ou Indalécio; o arranca-toco, o treme-terra, o come-brasa, o pega-à-unha, o fecha-treta, o tira-prosa, o parte-ferro, o rompe-racha, o rompe-e-arrasa: Seu Joãozinho Bem-Bem.

    João Guimarães Rosa, “A hora e vez de Augusto Matraga”, in Sagarana.
    Os “valentões armados”, que figuram no texto, atuando isoladamente ou em bando, constituem fenômeno geral,
    Escolha uma alternativa para a questão 61c88b77-16
  • Linguagens

    Português

    Texto para a questão

    PARDAIS NOVOS

        Um dia o meu telefone, instalado à cabeceira de minha cama, retiniu violentamente às sete da manhã. Estremunhado tomei do receptor e ouvi do outro lado uma voz que dizia: “Mestre, sou um pardal novo. Posso ler-lhe uns versos para que o senhor me dê a sua opinião?” Ponderei com mau humor ao pardal que aquilo não eram horas para consultas de tal natureza, que ele me telefonasse mais tarde. O pardal não telefonou de novo: veio às nove e meia ao meu apartamento.
        Mal o vi, percebi que não se tratava de pardal novo. Ele mesmo como que concordou que o não era, pois perguntando-lhe eu a idade, hesitou contrafeito para responder que tinha 35 anos. Ainda por cima era um pardal velho!
        Desde esse dia passei a chamar de pardais novos os rapazes que me procuram para mostrar-me os seus primeiros ensaios de voo no céu da poesia. Dizem eles que desejam saber se têm realmente queda para o ofício, se vale a pena persistir etc. Fico sempre embaraçado para dar qualquer conselho. A menos que se seja um Rimbaud ou, mais modestamente, um Castro Alves, que poesia se pode fazer antes dos vinte anos? Como Mallarmé afirmou certa vez que todo verso é um esforço para o estilo, acabo aconselhando ao pardal que vá fazendo os seus versinhos, sem se preocupar com a opinião de ninguém, inclusive a minha. (...)

    Manuel Bandeira, Melhores crônicas. Global Editora.
    A oração sublinhada no trecho “Mal o vi, percebi que não se tratava de pardal novo.” tem valor
    Escolha uma alternativa para a questão 61afa1fc-16
  • Linguagens

    Português

    Texto para a questão


    “PIMBA NA GORDUCHINHA”* DATOU


        Empolgação já não basta. Comentaristas usam cada vez mais estatísticas e termos técnicos para traduzir o que acontece em campo.

        Por tradição, a tarefa de comentar uma partida de futebol sempre foi o oposto disso. A “crônica esportiva” pontificada por lendas como Nelson Rodrigues e Armando Nogueira, entre muitos outros, evocava heróis em campo e fazia da genialidade individual, do empenho coletivo e do imponderável instituições que comandavam o jogo. O belo texto valia tanto quanto – ou mais – que a observação de treinos e jogos. “O padrão para falar de futebol no Brasil costumava abordar aspectos como a qualidade individual do jogador e fatores emocionais”, afirma Carlos Eduardo Mansur, do jornal O Globo. “O desafio hoje é estudar o jogo taticamente.” Não havia no passado, obviamente, a ideia nem os recursos técnicos para compilar dados, que hoje sustentam as análises feitas durante os 90 minutos.

        O uso de softwares que ajudam a dissecar partidas em números se difundiu nos clubes e transbordou para as redações. Crescem grupos dedicados à tabulação e análise de dados. Estatísticas individuais e coletivas, como o número de finalizações de um atacante e a média de posse de bola de uma equipe, são dados prosaicos em palestras de treinadores e programas de TV, blogs ou jornais.

        Detratores desse modelo, no entanto, consideram essa tendência um modismo, uma chatice. “Há preconceito de quem ouve e exagero de quem usa”, afirma o comentarista PVC [Paulo Vinícius Coelho]. Excessos ou modismos à parte, não há como fugir da realidade. O uso de dados e estatísticas por clubes europeus para elaborar estratégias e jogadas é antigo e há anos chegou aos brasileiros, com maior ou menor simpatia. Não existe futebol bem jogado, em alto nível, sem isso.

        A tarefa de dissecar o jogo por números e dados ajuda a entender, mas não esgota o futebol, que, por sua dinâmica, segue como um esporte dos mais imprevisíveis.


    Rafael Oliveira, Época, 29.01.2018. Adaptado.

    * "ripa na chulipa e pimba na gorduchinha": bordão criado pelo narrador de futebol Osmar Santos e popularizado nos anos 1980.
    Segundo o texto, a análise de dados sobre uma partida colhidos por meio de recursos tecnológicos
    Escolha uma alternativa para a questão 61a07ed2-16
  • Linguagens

    Inglês

    Imagem da questão de Inglês, FGV 2018, Interpretação de texto | Reading comprehension

    With respect to the exclusively financial aspects of the brideprice, a South Sudanese cattle farmer would most likely get the biggest benefit from which of the following situations?
    Escolha uma alternativa para a questão b11866bd-15
  • Linguagens

    Português

                                             Imagem da questão de Português, FGV 2018, Interpretação de Textos


          À hora do primeiro almoço, como prometera, Aristarco mostrou-se em toda a grandeza fúnebre dos justiçadores. De preto. Calculando magnificamente os passos pelos do diretor, seguiam-no em guarda de honra muitos professores. À porta fronteira, mais professores de pé e os bedéis ainda, e a multidão bisbilhoteira dos criados.

          Tão grande a calada, que se distinguia nítido o tique-taque do relógio, na sala de espera, palpitando os ansiados segundos.

          Aristarco soprou duas vezes através do bigode, inundando o espaço com um bafejo de todo-poderoso.

          E, sem exórdio:

          “Levante-se, Sr. Cândido Lima! “Apresento-lhes, meus senhores, a Sra. D. Cândida”, acrescentou com uma ironia desanimada.

          “Para o meio da casa! e curve-se diante dos seus colegas!”

          Cândido era um grande menino, beiçudo, louro, de olhos verdes e maneiras difíceis de indolência e enfado. Atravessou devagar a sala, dobrando a cabeça, cobrindo o rosto com a manga, castigado pela curiosidade pública.

          “Levante-se, Sr. Emílio Tourinho...

           Este é o cúmplice, meus senhores!”

          Tourinho era um pouco mais velho que o outro, porém mais baixo; atarracado, moreno, ventas arregaladas, sobrancelhas crespas, fazendo um só arco pela testa. Nada absolutamente conformado para galã; mas era com efeito o amante.

          “Venha ajoelhar-se com o companheiro.”

          “Agora, os auxiliares...”

          Desde as cinco horas da manhã trabalhava Aristarco no processo. O interrogatório, com o apêndice das delações da polícia secreta e dos tímidos, comprometera apenas dez alunos.

          A chamado do diretor, foram deixando os lugares e postando-se de joelhos em seguimento dos principais culpados.

          “Estes são os acólitos da vergonha, os corréus do silêncio!”

          Cândido e Tourinho, braço dobrado contra os olhos, espreitavam-se a furto, confortando-se na identidade da desgraça, como Francesca e Paolo* no inferno.

          Prostrados os doze rapazes perante Aristarco, na passagem alongada entre as cabeceiras das mesas, parecia aquilo um ritual desconhecido de noivado: a espera da bênção para o casal à frente.

          Em vez da bênção chovia a cólera.

                                                                                                    Raul Pompeia, O Ateneu.

    * Francesca e Paolo: personagens de A Divina Comédia, de Dante Alighieri. 

    No contexto da obra O Ateneu, a homossexualidade, tematizada no trecho aqui reproduzido, configura-se como
    Escolha uma alternativa para a questão b0ac3863-15
  • Linguagens

    Português

                                            PARDAIS NOVOS


          Um dia o meu telefone, instalado à cabeceira de minha cama, retiniu violentamente às sete da manhã. Estremunhado tomei do receptor e ouvi do outro lado uma voz que dizia: “Mestre, sou um pardal novo. Posso ler-lhe uns versos para que o senhor me dê a sua opinião?” Ponderei com mau humor ao pardal que aquilo não eram horas para consultas de tal natureza, que ele me telefonasse mais tarde. O pardal não telefonou de novo: veio às nove e meia ao meu apartamento.

          Mal o vi, percebi que não se tratava de pardal novo. Ele mesmo como que concordou que o não era, pois perguntando-lhe eu a idade, hesitou contrafeito para responder que tinha 35 anos. Ainda por cima era um pardal velho!

          Desde esse dia passei a chamar de pardais novos os rapazes que me procuram para mostrar-me os seus primeiros ensaios de voo no céu da poesia. Dizem eles que desejam saber se têm realmente queda para o ofício, se vale a pena persistir etc. Fico sempre embaraçado para dar qualquer conselho. A menos que se seja um Rimbaud ou, mais modestamente, um Castro Alves, que poesia se pode fazer antes dos vinte anos? Como Mallarmé afirmou certa vez que todo verso é um esforço para o estilo, acabo aconselhando ao pardal que vá fazendo os seus versinhos, sem se preocupar com a opinião de ninguém, inclusive a minha.

          (...)

                                                     Manuel Bandeira, Melhores crônicas. Global Editora. 

    Sabendo-se que “alegoria consiste em uma metáfora que, em um dado contexto, desdobra-se em outras”, pode-se apontar o emprego desse recurso, sobretudo, no seguinte trecho do texto:
    Escolha uma alternativa para a questão b0959b0b-15
  • Linguagens

    Português

                           “PIMBA NA GORDUCHINHA”* DATOU


          Empolgação já não basta. Comentaristas usam cada vez mais estatísticas e termos técnicos para traduzir o que acontece em campo.

          Por tradição, a tarefa de comentar uma partida de futebol sempre foi o oposto disso. A “crônica esportiva” pontificada por lendas como Nelson Rodrigues e Armando Nogueira, entre muitos outros, evocava heróis em campo e fazia da genialidade individual, do empenho coletivo e do imponderável instituições que comandavam o jogo. O belo texto valia tanto quanto – ou mais – que a observação de treinos e jogos. “O padrão para falar de futebol no Brasil costumava abordar aspectos como a qualidade individual do jogador e fatores emocionais”, afirma Carlos Eduardo Mansur, do jornal O Globo. “O desafio hoje é estudar o jogo taticamente.” Não havia no passado, obviamente, a ideia nem os recursos técnicos para compilar dados, que hoje sustentam as análises feitas durante os 90 minutos.

          O uso de softwares que ajudam a dissecar partidas em números se difundiu nos clubes e transbordou para as redações. Crescem grupos dedicados à tabulação e análise de dados. Estatísticas individuais e coletivas, como o número de finalizações de um atacante e a média de posse de bola de uma equipe, são dados prosaicos em palestras de treinadores e programas de TV, blogs ou jornais.

          Detratores desse modelo, no entanto, consideram essa tendência um modismo, uma chatice. “Há preconceito de quem ouve e exagero de quem usa”, afirma o comentarista PVC [Paulo Vinícius Coelho]. Excessos ou modismos à parte, não há como fugir da realidade. O uso de dados e estatísticas por clubes europeus para elaborar estratégias e jogadas é antigo e há anos chegou aos brasileiros, com maior ou menor simpatia. Não existe futebol bem jogado, em alto nível, sem isso.

          A tarefa de dissecar o jogo por números e dados ajuda a entender, mas não esgota o futebol, que, por sua dinâmica, segue como um esporte dos mais imprevisíveis.

                                                                    Rafael Oliveira, Época, 29.01.2018. Adaptado.

    * "ripa na chulipa e pimba na gorduchinha": bordão criado pelo narrador de futebol Osmar Santos e popularizado nos anos 1980.  

    Considerada no contexto, a substituição proposta para a frase citada no início de cada alternativa mantém o sentido mas NÃO a correção gramatical em:
    Escolha uma alternativa para a questão b090b553-15