Comecei a escrever muito cedo, menina. A escrita pra mim sempre foi um suporte para lidar com o mundo e, ao mesmo tempo, também…
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Comecei a escrever muito cedo, menina. A escrita pra mim sempre foi um suporte para lidar com o
mundo e, ao mesmo tempo, também colocar um questionamento para o mundo. Muitas das minhas perguntas
de infância, de adolescência, foram respondidas ou aprofundadas através da escrita e da leitura. Todas as
minhas questões da adolescência, aquelas dúvidas, eu só aguentei com a ajuda da escrita. Além das perguntas
da adolescência, pelas quais todo mundo passa nessa fase da vida, também foi marcante o momento em que
percebi as questões raciais. Eu como menina negra. O que havia de estranho nisso tudo, notar a questão racial,
a pobreza em que a gente vivia. Naquele momento eu já sabia que queria alguma coisa, só não sabia o quê.
Mas uma coisa eu tinha certeza: que aquela vida que eu tinha não podia ser eterna. Eu tinha a certeza que
aquela vida não era justa. Eu não sabia se a escrita poderia ser um caminho para mim, mas a escrita já era
uma necessidade. Já era um alento e ao mesmo tempo também um local de tormento, um lugar onde eu
colocava todas as minhas dúvidas. [...]
Eu digo que tudo que escrevo, seja de um ponto de vista crítico, como pesquisadora, ou de um ponto
de vista da criação literária, é profundamente marcado pela minha condição de mulher negra na sociedade
brasileira. O que tenho percebido é o seguinte: essa “escrevivência” tem ajudado outras mulheres a se
perceberem. Percebo cada vez mais que, na medida em que essas mulheres se encontram nos meus textos e
encontram os meus textos, elas se apossam da vida com muito mais certeza. Acho que a minha escrita tem
possibilitado que essas mulheres acreditem mais em si mesmas, que se reconheçam, que sabemos ser muito
difícil. A literatura que nós conhecemos, essa literatura canônica, ela não nos representa e quando nos
representa é sempre de uma maneira limitada, de uma maneira estereotipada. Então o meu texto é um lugar
onde as mulheres se sentem em casa, se sentem reconhecidas de verdade.
Disponível em: https://medium.com/mulheres-que-escrevem/mulheres-que-escrevem-entrevista-conceicao-evaristo-fa243ff84284.
Acesso em: 6 jan. 2026.
Na entrevista, a escritora, poetisa, professora e pesquisadora brasileira Conceição Evaristo usa o termo
“escrevivência” para se referir ao processo de
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