Um belo dia, não sei de que ano, uma linda fada, que chamareis como quiserdes, a poesia ou a imaginação, tomou-se de amores por…
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Para responder à questão, leia o trecho de
uma crônica de José de Alencar, publicada originalmente em
03.09.1854.
Um belo dia, não sei de que ano, uma linda fada, que chamareis como quiserdes, a poesia ou a imaginação, tomou-se
de amores por um moço de talento, um tanto volúvel como de
ordinário o são as fantasias ricas e brilhantes que se deleitam
admirando o belo em todas as formas. Ora, dizem que as fadas não podem sofrer a inconstância, no que lhes acho toda
a razão; e por isso a fada de meu conto, temendo a rivalidade
dos anjinhos cá deste mundo, onde os há tão belos, tomou as
formas de uma pena, pena de cisne, linda como os amores, e
entregou-se ao seu amante de corpo e alma.
Não serei eu que desvendarei os mistérios desses amores fantásticos, e vos contarei as horas deliciosas que corriam no silêncio do gabinete, mudas e sem palavras. Só vos
direi, e isto mesmo é confidência, que, depois de muito sonho
e de muita inspiração, a pena se lançava sobre o papel, deslizava docemente, brincava como uma fada que era, bordando
as flores mais delicadas, destilando perfumes mais esquisitos
que todos os perfumes do Oriente. As folhas se animavam ao
seu contato, a poesia corria em ondas de ouro, donde saltavam chispas brilhantes de graça e espírito.
Por fim, a desoras1
, quando já não havia mais papel,
quando a luz a morrer apenas empalidecia as sombras da
noite, a pena trêmula e vacilante caía sobre a mesa sem forças e sem vida, e soltava uns acentos doces, notas estremecidas como as cordas da harpa ferida pelo vento. Era o
último beijo da fada que se despedia, o último canto do cisne
moribundo.
Assim se passou muito tempo; mas já não há amores
que durem sempre, principalmente em dias como os nossos,
nos quais o símbolo da constância é uma borboleta. Acabou
o poema fantástico no fim de dois anos; e um dia o herói do
meu conto, chamado a estudos mais graves, lembrou-se de
um amigo obscuro, e deu-lhe a sua pena de ouro.
(José de Alencar. Crônicas escolhidas, 1995.)
1desoras: altas horas da noite.
Retoma um termo mencionado anteriormente no texto a
palavra sublinhada em:Alternativas
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