Agora podia-se distinguir que o trêmulo dos finais dos versos era um começo de soluço reprimido, mas a cantora repetia e…
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Agora podia-se distinguir que o trêmulo dos finais dos
versos era um começo de soluço reprimido, mas a cantora repetia
e procurava dar-lhes a mais doce e viva expressão como se
falasse a alguém invisível que estivesse ao seu lado, de olhos
fitos nela com ternura, profundos e compreensivos, sem que
pudesse falar outra linguagem a não ser a do seu olhar, sem poder
tocá-la com as mãos muito frias, presas ao peito para poder
melhor resistir à tentação. Todo o corpo frágil da senhora
estremecia, teso e ao mesmo tempo febril, e acompanhava com
graça os braços e as mãos, que corriam com os dedos muito altos
o teclado, e arrancavam notas cristalinas das cordas já frouxas e
gastas. Fazia cantar toda a sala em suave meio-tom, como se
fosse grande caixa de ressonância de enorme instrumento e sua
voz trinada também se incorporava em um só todo sonoro, de
doçura e velhice.
Mas afinal a música cessou. Sinhá Rola chorava agora
com simplicidade e lassidão e curvara-se sobre o encosto em
forma de lira da banqueta onde estava sentada para se abandonar
à dor misteriosa que a vencia toda. Celestina contemplou-a assim
por muito tempo com os olhos velados de lágrimas, rememorou
todas as tristezas passadas de sua vida tão monótona e humilde e
viu em espírito o seu futuro apagado, eternamente votado à
dependência e à obscuridade, todo feito de sacrifícios inúteis e
devotamentos que ninguém compreenderia. Também ela, dentro
de poucos anos, tornar-se-ia uma velha fraca e ridícula e o seu
choro deveria ser qualquer coisa fora da moda, de antiquado e
absurdo como aquele que tinha diante de si.
PENNA, Cornélio. A menina morta. Curitiba:
RM Editores, 2010, p. 131-2.
No trecho anterior, do romance A Menina Morta, do escritor
brasileiro Cornélio Penna, cuja primeira edição foi publicada em
1954, as situações descritas em cada um dos parágrafos, apesar
de distintas, são comparáveis porque
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