O excerto abaixo é retirado de Caderno de
memórias coloniais, de Isabela Figueiredo.
Considere-o no contexto do romance.
Ernesto não ia trabalhar há três dias. Era preto
e os pretos eram preguiçosos, queriam era
passar o dia estendidos na esteira a beber
cerveja e vinho de caju, enquanto as pretas
trabalhavam na terra, plantavam amendoim ao
sol, suando com os filhos às costas, ao peito, e
a enxada a subir e descer para o chão. Preto
era má rês. Vivia da preta. Não pensava na
vida, no futuro, nos filhos. Só queria descansar,
dormitar, dançar, cantar, beber, comer, viver
vida boa.
Era absolutamente necessário ensinar os
pretos a trabalhar, para seu próprio bem. Para
evoluírem através do reconhecimento do valor
do trabalho. Trabalhando, poderiam ganhar
dinheiro, e com o dinheiro poderiam prosperar,
desde que prosperassem como negros.
Poderiam deixar de ter uma palhota e construir
uma casa de cimento com telhado de zinco.
Poderiam calçar sapatos e mandar os filhos à
escola para aprender ofícios que fossem úteis
aos brancos. Havia muito a fazer pelo homem
negro, cuja natureza animal deveria ser
anulada – para seu bem.
Considere as afirmações sobre o excerto.
I - No trecho acima, Isabela Figueiredo revela
com crueza a perspectiva colonial que
testemunhou no convívio com seu pai, em
Moçambique.
II - Na relação entre colonizador português e
colonizado, o preconceito racial fazia parte
do cotidiano de Moçambique, no período
colonial.
III- No trecho acima, a narradora mostra o
interesse humanitário dos portugueses
para que os colonizados prosperassem
pelo trabalho.
Quais estão corretas?