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Disciplina · Linguagens

Questões de Português do ENEM

Questões de Português, da área de Linguagens, com gabarito em cada página.

  • 10.965 questões
  • 95 assuntos

Resultados: 10.965 questões

Página 176 de 549

  • Linguagens

    Português

    Leia o excerto para responder à questão.


         A presença feminina foi sempre destacada no exercício do pequeno comércio em vilas e cidades do Brasil colonial. Desde os primeiros tempos, em lugares como Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo, estabeleceu-se uma divisão de trabalho assentada em critérios sexuais, em que o comércio ambulante representava ocupação preponderantemente feminina. A quase exclusiva presença de mulheres num mercado onde se consumiam gêneros a varejo resultou da convergência de duas referências culturais determinantes no Brasil. A primeira delas está relacionada à influência africana, uma vez que nessas sociedades tradicionais as mulheres desempenhavam tarefas de alimentação e distribuição de gêneros de primeira necessidade. O segundo tipo de influência deriva da transposição para o mundo colonial da divisão de papéis sexuais vigentes em Portugal, onde a legislação amparava de maneira incisiva a participação feminina.


    (Luciano Figueiredo. “Mulheres nas Minas Gerais”.

    In: Mary del Priore (org.). História das mulheres no Brasil, 2015.)

    O tipo de atividade econômica mencionado no excerto
    Escolha uma alternativa para a questão ab30ed3f-31
  • Linguagens

    Português

    Para responder à questão, leia o trecho de uma crônica de Machado de Assis, publicada originalmente em 16.06.1878.


           Estrugiram1 os últimos foguetes de Santo Antônio; não tarda chegar a vez de S. João e de S. Pedro. [...] Indague quem quiser o motivo histórico deste foguetear os três santos, uso que herdamos dos nossos maiores; a realidade é que, não obstante o ceticismo do tempo, muita e muita dezena de anos há de correr, primeiro que o povo perca os seus antigos amores. Nestas noites abençoadas é que as crendices sãs abrem todas as velas. As consultas, as sortes, os ovos guardados em água, e outras sublimes ridicularias2, ria-se delas quem quiser; eu vejo-as com respeito, com simpatia, e se alguma coisa me molestam é por eu não as saber já praticar. [...]


          Os dias passam, e os meses, e os anos, e as situações políticas, e as gerações e os sentimentos, e as ideias. Cada olimpíada3 traz nas mãos uma nova andaina4 do tempo. [...]


          Duas coisas, entretanto, perduram no meio da instabilidade universal: 1o a constância da polícia, que todos os anos declara editalmente ser proibido queimar fogos, por ocasião das festas de S. João e seus comensais; 2o a disposição do povo em desobedecer às ordens da polícia. A proibição não é simples vontade do chefe; é uma postura municipal de 1856. Anualmente aparece o mesmo edital, escrito com os mesmos termos; o chefe rubrica essa chapa inofensiva, que é impressa, lida e desrespeitada. Da tenacidade com que a polícia proíbe, e da teimosia com que o povo infringe a proibição, fica um resíduo comum: o trecho impresso e os fogos queimados.


    (Machado de Assis. Notas semanais, 2008.)


    1 estrugir: soar ou vibrar fortemente.


    2 ridicularia: coisa mínima e sem importância; insignificância.


    3 olimpíada: período de quatro anos.


    4 andaina: veste.

    Originalmente um verbo, o termo sublinhado está empregado como substantivo no seguinte trecho:
    Escolha uma alternativa para a questão ab0c047d-31
  • Linguagens

    Português

    Para responder à questão, leia o poema “A cinta de Vênus”, do poeta árcade Silva Alvarenga. 



    Cai a cinta a Vênus1 bela,

    Sem cautela recostada;

    E turbada2 entre os pesares

    Pede aos mares que lha deem.


    O tesouro se procura,

    Os desejos se interessam,

    Os cuidados já se apressam,

    E a ternura vai também. 


    Empenhou-se, ó Glaura, o zelo;

    Mas em vão: que perda triste!

    Só eu vi, sei onde existe;

    E dizê-lo não convém. 


    Cai a cinta a Vênus bela,

    Sem cautela recostada;

    E turbada entre os pesares

    Pede aos mares que lha deem.


    Roubador do puro ornato

    Foi Antero e foi Cupido3;

    E o levaram escondido

    Com recato, eu sei a quem.


    Receosos pelo insulto,

    Que traidores cometeram,

    No teu seio se acolheram,

    Onde oculto asilo têm. 


    Cai a cinta a Vênus bela,

    Sem cautela recostada;

    E turbada entre os pesares

    Pede aos mares que lha deem.


    Dos meus olhos não se escondem

    Os meninos4 , a quem amo:

    Se os procuro, espreito e chamo,

    Correspondem, mas não vêm.


    Com acenos expressivos

    De alegria suspeitosa

    Mostram faixa preciosa,

    Que atrativos mil contêm. 


    Cai a cinta a Vênus bela,

    Sem cautela recostada;

    E turbada entre os pesares

    Pede aos mares que lha deem.


    Se piedade aflito rogo,

    E que cessem teus rigores,

    (Ah cruéis, lindos Amores!)

    Fogem logo e com desdém. 


    Abrandá-los não consigo,

    E já deles tenho medo:

    Guarda, Ninfa, este segredo,

    Que não digo a mais ninguém. 


    Cai a cinta a Vênus bela,

    Sem cautela recostada;

    E turbada entre os pesares

    Pede aos mares que lha deem.



    (Silva Alvarenga. Obras poéticas: poemas líricos, 2005.)



    1Vênus: deusa do Amor.

    2 turbada: aflita, transtornada.

    3Antero e Cupido: irmãos, filhos de Vênus.

    4meninos: os filhos de Vênus, ou seja, Antero e Cupido.

    Está empregado como pronome apassivador o termo sublinhado em:
    Escolha uma alternativa para a questão aaff0fc4-31
  • Linguagens

    Português

    Para responder à questão, leia o poema “A cinta de Vênus”, do poeta árcade Silva Alvarenga. 



    Cai a cinta a Vênus1 bela,

    Sem cautela recostada;

    E turbada2 entre os pesares

    Pede aos mares que lha deem.


    O tesouro se procura,

    Os desejos se interessam,

    Os cuidados já se apressam,

    E a ternura vai também. 


    Empenhou-se, ó Glaura, o zelo;

    Mas em vão: que perda triste!

    Só eu vi, sei onde existe;

    E dizê-lo não convém. 


    Cai a cinta a Vênus bela,

    Sem cautela recostada;

    E turbada entre os pesares

    Pede aos mares que lha deem.


    Roubador do puro ornato

    Foi Antero e foi Cupido3;

    E o levaram escondido

    Com recato, eu sei a quem.


    Receosos pelo insulto,

    Que traidores cometeram,

    No teu seio se acolheram,

    Onde oculto asilo têm. 


    Cai a cinta a Vênus bela,

    Sem cautela recostada;

    E turbada entre os pesares

    Pede aos mares que lha deem.


    Dos meus olhos não se escondem

    Os meninos4 , a quem amo:

    Se os procuro, espreito e chamo,

    Correspondem, mas não vêm.


    Com acenos expressivos

    De alegria suspeitosa

    Mostram faixa preciosa,

    Que atrativos mil contêm. 


    Cai a cinta a Vênus bela,

    Sem cautela recostada;

    E turbada entre os pesares

    Pede aos mares que lha deem.


    Se piedade aflito rogo,

    E que cessem teus rigores,

    (Ah cruéis, lindos Amores!)

    Fogem logo e com desdém. 


    Abrandá-los não consigo,

    E já deles tenho medo:

    Guarda, Ninfa, este segredo,

    Que não digo a mais ninguém. 


    Cai a cinta a Vênus bela,

    Sem cautela recostada;

    E turbada entre os pesares

    Pede aos mares que lha deem.



    (Silva Alvarenga. Obras poéticas: poemas líricos, 2005.)



    1Vênus: deusa do Amor.

    2 turbada: aflita, transtornada.

    3Antero e Cupido: irmãos, filhos de Vênus.

    4meninos: os filhos de Vênus, ou seja, Antero e Cupido.

    Dois pronomes átonos, quando ocorrem numa mesma oração, podem ser contraídos, como no verso “Pede aos mares que lha deem.”, em que “lha” é a junção de “lhe” + “a”. Esses pronomes referem-se, respectivamente, a
    Escolha uma alternativa para a questão aafc7d9d-31
  • Linguagens

    Português

    Para responder à questão, leia o poema “A cinta de Vênus”, do poeta árcade Silva Alvarenga. 



    Cai a cinta a Vênus1 bela,

    Sem cautela recostada;

    E turbada2 entre os pesares

    Pede aos mares que lha deem.


    O tesouro se procura,

    Os desejos se interessam,

    Os cuidados já se apressam,

    E a ternura vai também. 


    Empenhou-se, ó Glaura, o zelo;

    Mas em vão: que perda triste!

    Só eu vi, sei onde existe;

    E dizê-lo não convém. 


    Cai a cinta a Vênus bela,

    Sem cautela recostada;

    E turbada entre os pesares

    Pede aos mares que lha deem.


    Roubador do puro ornato

    Foi Antero e foi Cupido3;

    E o levaram escondido

    Com recato, eu sei a quem.


    Receosos pelo insulto,

    Que traidores cometeram,

    No teu seio se acolheram,

    Onde oculto asilo têm. 


    Cai a cinta a Vênus bela,

    Sem cautela recostada;

    E turbada entre os pesares

    Pede aos mares que lha deem.


    Dos meus olhos não se escondem

    Os meninos4 , a quem amo:

    Se os procuro, espreito e chamo,

    Correspondem, mas não vêm.


    Com acenos expressivos

    De alegria suspeitosa

    Mostram faixa preciosa,

    Que atrativos mil contêm. 


    Cai a cinta a Vênus bela,

    Sem cautela recostada;

    E turbada entre os pesares

    Pede aos mares que lha deem.


    Se piedade aflito rogo,

    E que cessem teus rigores,

    (Ah cruéis, lindos Amores!)

    Fogem logo e com desdém. 


    Abrandá-los não consigo,

    E já deles tenho medo:

    Guarda, Ninfa, este segredo,

    Que não digo a mais ninguém. 


    Cai a cinta a Vênus bela,

    Sem cautela recostada;

    E turbada entre os pesares

    Pede aos mares que lha deem.



    (Silva Alvarenga. Obras poéticas: poemas líricos, 2005.)



    1Vênus: deusa do Amor.

    2 turbada: aflita, transtornada.

    3Antero e Cupido: irmãos, filhos de Vênus.

    4meninos: os filhos de Vênus, ou seja, Antero e Cupido.

    No poema, o eu lírico manifesta um sentimento contraditório em relação aos filhos de Vênus. Tal sentimento contraditório está explícito no seguinte trecho: 
    Escolha uma alternativa para a questão aaf6ec1f-31
  • Linguagens

    Português

    Para responder à questão, leia o trecho de uma crônica de José de Alencar, publicada originalmente em 03.09.1854.


                Um belo dia, não sei de que ano, uma linda fada, que chamareis como quiserdes, a poesia ou a imaginação, tomou-se de amores por um moço de talento, um tanto volúvel como de ordinário o são as fantasias ricas e brilhantes que se deleitam admirando o belo em todas as formas. Ora, dizem que as fadas não podem sofrer a inconstância, no que lhes acho toda a razão; e por isso a fada de meu conto, temendo a rivalidade dos anjinhos cá deste mundo, onde os há tão belos, tomou as formas de uma pena, pena de cisne, linda como os amores, e entregou-se ao seu amante de corpo e alma.

            Não serei eu que desvendarei os mistérios desses amores fantásticos, e vos contarei as horas deliciosas que corriam no silêncio do gabinete, mudas e sem palavras. Só vos direi, e isto mesmo é confidência, que, depois de muito sonho e de muita inspiração, a pena se lançava sobre o papel, deslizava docemente, brincava como uma fada que era, bordando as flores mais delicadas, destilando perfumes mais esquisitos que todos os perfumes do Oriente. As folhas se animavam ao seu contato, a poesia corria em ondas de ouro, donde saltavam chispas brilhantes de graça e espírito.

           Por fim, a desoras1 , quando já não havia mais papel, quando a luz a morrer apenas empalidecia as sombras da noite, a pena trêmula e vacilante caía sobre a mesa sem forças e sem vida, e soltava uns acentos doces, notas estremecidas como as cordas da harpa ferida pelo vento. Era o último beijo da fada que se despedia, o último canto do cisne moribundo.

           Assim se passou muito tempo; mas já não há amores que durem sempre, principalmente em dias como os nossos, nos quais o símbolo da constância é uma borboleta. Acabou o poema fantástico no fim de dois anos; e um dia o herói do meu conto, chamado a estudos mais graves, lembrou-se de um amigo obscuro, e deu-lhe a sua pena de ouro.


    (José de Alencar. Crônicas escolhidas, 1995.)


    1desoras: altas horas da noite. 
    Retoma um termo mencionado anteriormente no texto a palavra sublinhada em:
    Escolha uma alternativa para a questão 9b5e6bc9-31
  • Linguagens

    Português

    Para responder à questão, leia o trecho de uma crônica de José de Alencar, publicada originalmente em 03.09.1854.


                Um belo dia, não sei de que ano, uma linda fada, que chamareis como quiserdes, a poesia ou a imaginação, tomou-se de amores por um moço de talento, um tanto volúvel como de ordinário o são as fantasias ricas e brilhantes que se deleitam admirando o belo em todas as formas. Ora, dizem que as fadas não podem sofrer a inconstância, no que lhes acho toda a razão; e por isso a fada de meu conto, temendo a rivalidade dos anjinhos cá deste mundo, onde os há tão belos, tomou as formas de uma pena, pena de cisne, linda como os amores, e entregou-se ao seu amante de corpo e alma.

            Não serei eu que desvendarei os mistérios desses amores fantásticos, e vos contarei as horas deliciosas que corriam no silêncio do gabinete, mudas e sem palavras. Só vos direi, e isto mesmo é confidência, que, depois de muito sonho e de muita inspiração, a pena se lançava sobre o papel, deslizava docemente, brincava como uma fada que era, bordando as flores mais delicadas, destilando perfumes mais esquisitos que todos os perfumes do Oriente. As folhas se animavam ao seu contato, a poesia corria em ondas de ouro, donde saltavam chispas brilhantes de graça e espírito.

           Por fim, a desoras1 , quando já não havia mais papel, quando a luz a morrer apenas empalidecia as sombras da noite, a pena trêmula e vacilante caía sobre a mesa sem forças e sem vida, e soltava uns acentos doces, notas estremecidas como as cordas da harpa ferida pelo vento. Era o último beijo da fada que se despedia, o último canto do cisne moribundo.

           Assim se passou muito tempo; mas já não há amores que durem sempre, principalmente em dias como os nossos, nos quais o símbolo da constância é uma borboleta. Acabou o poema fantástico no fim de dois anos; e um dia o herói do meu conto, chamado a estudos mais graves, lembrou-se de um amigo obscuro, e deu-lhe a sua pena de ouro.


    (José de Alencar. Crônicas escolhidas, 1995.)


    1desoras: altas horas da noite. 
    Considerando o contexto, a forma verbal em negrito deve sua flexão à expressão sublinhada em:
    Escolha uma alternativa para a questão 9b56e9f8-31
  • Linguagens

    Português

    Para responder à questão, leia um trecho do Manifesto da Poesia Pau-Brasil, de Oswald de Andrade, publicado há exatos 100 anos, em 1924.


         A poesia existe nos fatos. Os casebres de açafrão e de ocre nos verdes da Favela, sob o azul cabralino, são fatos estéticos.

        O Carnaval no Rio é o acontecimento religioso da raça. Pau-Brasil. Wagner submerge ante os cordões de Botafogo. Bárbaro e nosso. A formação étnica rica. Riqueza vegetal. O minério. A cozinha. O vatapá, o ouro e a dança. [...]

        A nunca exportação de poesia. A poesia anda oculta nos cipós maliciosos da sabedoria. Nas lianas1 da saudade universitária. [...]

        A língua sem arcaísmos, sem erudição. Natural e neológica. A contribuição milionária de todos os erros. Como falamos. Como somos. [...]

       A reação contra o assunto invasor, diverso da finalidade. A peça de tese era um arranjo monstruoso. O romance de ideias, uma mistura. O quadro histórico, uma aberração. A escultura eloquente, um pavor sem sentido.


    (Gilberto Mendonça Teles (org.).
    Vanguarda europeia e modernismo brasileiro, 1992.)

    1 liana: cipó.
    Emprega-se vírgula para assinalar a supressão de um verbo no seguinte trecho:
    Escolha uma alternativa para a questão 9b4768bf-31
  • Linguagens

    Português

    Para responder à questão, leia o conto “Passei por um sonho”, do escritor angolano José Eduardo Agualusa (1960- ).


    1   Começou com um sonho. Afinal, é como começa quase tudo. Justo Santana, enfermeiro de profissão, sonhou um pássaro.

          — Passei por um sonho — disse à mulher quando esta acordou —, e vi um pássaro.

          A mulher quis saber que espécie de pássaro, mas Justo Santana não foi capaz de precisar. Era um pássaro grande, grave, branco como um ferro incandescente, e com umas asas ainda mais brilhosas, que o dito pássaro usava sempre abertas, de tal maneira que fazia lembrar Jesus Cristo pregado na cruz.

         — Fui sonhado por ti — disse-lhe o pássaro —, com o fim de esclarecer o espírito dos Homens e de trazer a liberdade a este pobre país.

    5   O discurso do pássaro assustou o enfermeiro, homem simples, tímido, avesso a confrontos, e sem qualquer vocação para a política.

          — Foi apenas um sonho — disse à mulher —, um sonho estúpido.

         Na noite seguinte, porém, o pássaro voltou a aparecer- -lhe. Estava ainda mais branco, mais trágico, e parecia aborrecido com o desinteresse do enfermeiro:

           — Ordeno-te que vás por esse país fora e digas a todos os homens que se preparem para um mundo novo. Os brancos vão partir e os pretos ocuparão as casas, os palácios, as igrejas e os quartéis, e a liberdade há de reinar para sempre.

          Dizendo isto sacudiu as asas e as suas penas espalharam-se pelo quarto:

    10  — Com estas minhas penas hás de curar os enfermos — disse o pássaro —, e assim até os mais incrédulos acreditarão em ti e seguirão os teus passos.

        Quando Justo Santana despertou o quarto brilhava com o esplendor das penas. Na manhã desse mesmo dia o enfermeiro serviu-se de uma delas para curar um homem com elefantíase e à tardinha devolveu a vista a um cego. Passado apenas um mês a sua fama de santo e milagreiro já se espalhara muito para além das margens do Rio Zaire e à porta da sua casa ia crescendo uma multidão de padecentes. [...]

       Justo Santana colocava na boca dos enfermos uma pena do pássaro, como se fosse uma hóstia, e estes imediatamente ganhavam renovado alento. Enquanto fazia isto o enfermeiro repetia os discursos do pássaro, incapaz de compreender a fúria daquelas palavras e o alcance delas. Todas as noites sonhava com a ave e todas as noites esta o forçava a decorar um discurso novo, após o que sacudia as asas, espalhando pelo ar morto do quarto as penas milagrosas:

         — Se esse pássaro continuar assim tão generoso — disse Justo Santana à mulher —, ainda o veremos transformado numa alma despenada.

         Isto durou um ano. Então, numa manhã de cacimbo1 , apareceram quatro soldados à porta da casa, afastaram com rancor a multidão de desvalidos, e levaram Justo Santana. O infeliz foi acusado de fomentar o terrorismo e a sublevação, e desterrado para uma praia remota, em pleno deserto do Namibe, onde passou a exercer o ofício de faroleiro.

    15 Quando o encontrei, muitos anos depois, em Luanda2 , ele falou-me desse desterro com nostalgia:

          — Foi a melhor época da minha vida.

          Encontrei-o doente, estendido numa larga cama de ferro, sob lençóis muito brancos. No quarto havia apenas a cama e um pequeno crucifixo preso à parede. Na sala ao lado os devotos rezavam murmurosas ladainhas. Aquela era a sede da Igreja do Divino Espírito. Não tinha sido nada fácil chegar até junto do enfermeiro: os seus seguidores guardavam-no corno a uma relíquia — na verdade mantinham-no preso ali, naquele quarto, quase isolado do mundo, desde 19753.

         A melhor época da vida de Justo Santana terminou de forma trágica, numa noite de tempestade, quando um bando de aves migratórias caiu sobre o farol. Enlouquecidas pela luz as avezinhas batiam contra o cristal até quebrarem as asas, sendo depois arrastadas pelo vento. Isto está sempre a acontecer. Milhares de aves migratórias morrem todos os anos traídas pelo fulgor dos faróis. Naquela noite, desrespeitando as normas, Justo Santana foi em socorro das aves e desligou o farol. Teve pouca sorte: um barco com tropas, de regresso à metrópole, perdeu-se na escuridão e encalhou na praia. Dessa vez o enfermeiro foi julgado, condenado a quinze anos de prisão, e enviado para o Tarrafal4 , em Cabo Verde. Foi solto com a Revolução de Abril5 e regressou a Angola.

         Quando o visitei, antes de me ir embora, quis saber se o pássaro ainda lhe frequentava os sonhos. Ele olhou em redor para se certificar de que estávamos sozinhos:

    20   — Estrangulei-o — segredou com um sorriso cúmplice —, mas enquanto eu for vivo não conte isto a ninguém.

    (Rita Chaves (org.).
    Contos africanos dos países de língua portuguesa, 2009.)


    1cacimbo: estação com elevado índice de umidade caracterizada pela descida gradual da temperatura e pelo aumento da nebulosidade.

    2 Luanda: capital de Angola.

    3Angola tornou-se um país independente em 1975.

    4Tarrafal: antiga colônia penal portuguesa.

    5Ocorrida em 25 de abril de 1974, a Revolução de Abril, também conhecida como Revolução dos Cravos, restabeleceu a democracia em Portugal, abrindo caminho para o processo de descolonização dos países da África.

    “Fui sonhado por ti” (4o parágrafo)


    Transposto para a voz ativa, o trecho assume a seguinte redação:

    Escolha uma alternativa para a questão 9b378fe7-31
  • Linguagens

    Português

    No que isso vai dar?

    Uma velha amiga jornalista, hoje professora da graduação, estava me contando: "É uma luta para fazer com que os alunos leiam um livro inteiro. Eles vivem grudados no TikTok ou no Instagram e não têm concentração. Outro dia, ao ver que todos estavam no celular, parei a aula. Perguntei a alguns o que estavam vendo —e muitos não se lembravam. Não se lembravam do que tinham acabado de ver 15 segundos atrás! Um deles disse que estava comprando uma calça comprida. Para usar a palavra que eles mais dizem, não têm 'foco'."

    "Não é só a facilidade das mídias digitais", ela continuou. "A falta de gosto pela leitura é culpa também da pandemia, da preguiça e, agora, entrando firme, da inteligência artificial. Na pós-graduação, não tem jeito, os alunos são obrigados a ler. Mas, na graduação, recorrem aos resumos de livros na internet, às lives, às gravações. Claro que não são todos assim. Alguns são inteligentes e fazem coisas que não aprendemos no nosso tempo, como editar áudios e vídeos. Sabem falar e, até certo ponto, escrever. Mas, ler??? No que isso vai dar?"

    Nos EUA, uma organização denunciou o declínio dos estudantes americanos em leitura, matemática e ciência, pela falta de atenção provocada pela distração digital. Os filmes têm ritmo cada vez mais acelerado, com takes de menos de um segundo. As músicas estão cada vez mais curtas. O vocabulário encolheu, o que significa que, em breve, só poderão expressar ideias muito simples. Não toleram nada que passe de dois minutos e meio.

    Minha amiga tem razão: no que isso vai dar? Esses garotos serão os médicos, cientistas, engenheiros e juristas do futuro? Ou só chegarão a isso os excepcionalmente bem dotados, que, cada vez em menor número, ainda existem?

    Ao ouvir que o aluno estava comprando uma calça durante a aula, minha amiga disse: "Oba! Vou aproveitar e fazer minhas compras da semana!".


    Folha de São Paulo,
    13/07/2024-https://www.academia.org.br/artigos/no-que-isso-vai-dar-Ru y Castro
    De acordo com o texto, a função da comunicação predominante é a:
    Escolha uma alternativa para a questão c2a3e1f8-30
  • Linguagens

    Português

    Todas as grandes línguas de cultura que conhecemos hoje, ao longo de sua história, passaram por um processo de estandardização. Por estandardização, entenderemos aqui o fato de que a língua assume uma mesma forma para a maioria dos usuários e passa a obedecer a modelos definidos. No processo de estandardização de uma língua entram, às vezes, fatores de natureza extralinguística. Em poucos séculos, a invenção da imprensa fez com que as mesmas obras pudessem ser lidas exatamente com o mesmo texto em lugares diferentes. Antes da imprensa, elas circulavam em versões manuscritas, produzidas a bico-de-pena em oficinas de cópia: a ignorância dos empregados a respeito do assunto da obra, suas diferenças de formação, a própria lentidão da tarefa, que obrigava a utilizar vários copistas na produção de um mesmo manuscrito, faziam com que o texto copiado se alterasse ao longo do tempo. No século XX, a estandardização da língua esteve intimamente ligada à explosão dos meios de comunicação de massa (o rádio, a televisão, o jornal, o outdoor e a internet), e a algumas grandes tendências da educação, como a generalização do ensino primário, que gerou um mercado de livros didáticos de grandes proporções e levou à criação de uma rica literatura infantil. É difícil avaliar de maneira exata a influência de todos esses fatores extralinguísticos, mas o certo é que eles contribuíram para uniformizar a língua e frear suas mudanças.


    Ilari, R.; Basso, R. O português da gente: a língua que estudamos a língua que falamos. São Paulo: Contexto, 2006. p. 197-199. Adaptado.
    De acordo com o texto, assinale a alternativa correta.
    Escolha uma alternativa para a questão 8cbe47f4-0e
  • Linguagens

    Português

    Durante a Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), em entrevista concedida ao programa Metrópolis (2019), Jarid Arraes falou sobre sua estética e suas inspirações para o desenvolvimento de Redemoinho em Dia Quente (2019). Leia, a seguir, um trecho de sua fala.


    [...] Eu comecei escrevendo cordel, porque meu pai e meu avô, eles são cordelistas, então eu queria dar continuidade à tradição do cordel na família. Mas eu queria fazer isso de um jeito subversivo. [...] Escrever sobre o interior do Ceará, escrever sobre o sertão, era uma coisa que me importava muito. Até porque eu queria escrever pela minha ótica, que, com certeza, não iria ser aquela ótica do estereótipo, do chão rachado, com o esqueleto de uma vaca. [...] Acima de tudo, é uma questão política pra mim. É por isso que eu quis tanto, que eu me esforcei muito para parecer verdadeiro.


    Disponível em: https://youtu.be/t-vpleu8HmE. Acesso em: 28 jun. 2024 (adaptado).



    De acordo com a referida obra, assinale a alternativa correta. 

    Escolha uma alternativa para a questão a9290e3d-04
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    Português

    TEXTO 2


    Ministério da Saúde atualiza cenário epidemiológico sobre a dengue no Brasil



    Figura 1 de 3 da questão de Português, UECE 2024, Coesão e coerência

    Figura 2 de 3 da questão de Português, UECE 2024, Coesão e coerência

    Figura 3 de 3 da questão de Português, UECE 2024, Coesão e coerência


    VICTOR, Nathan. Disponível em https://www.gov.br/saude/ptbr/assuntos/noticias/2024/marco/ministerio-da-saude-atualizacenario-epidemiologico-sobre-a-dengue-no-brasil


    No texto 2, alguns elementos e expressões são responsáveis por estabelecer a coesão textual para marcar a retomada ou a sequenciação de elementos, contribuindo para o sentido do texto. Assinale a opção em que a correspondência dos elementos do texto está correta.
    Escolha uma alternativa para a questão c7b0418c-03
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    Português

    TEXTO 1


    81% dos adolescentes têm dois ou mais fatores de risco para saúde, aponta pesquisa da UFMG e Unifesp


    Figura 1 de 3 da questão de Português, UECE 2024, Análise sintática
    Figura 2 de 3 da questão de Português, UECE 2024, Análise sintática
    Figura 3 de 3 da questão de Português, UECE 2024, Análise sintática


    Do HOJE EM DIA - portal@hojeemdia.com.br em 18/07/2024 . Adaptado.
    Assinale com V ou F conforme seja verdadeiro ou falso o que se afirma a seguir.


    ( ) Em “81% dos adolescentes têm dois ou mais fatores de risco para saúde [...]” (título), o verbo destacado concorda com o numeral.

    ( ) Em “Há uma necessidade urgente de abordagens dinâmicas e proativas que capacitem os adolescentes a assumir a corresponsabilidade por sua saúde.” (linhas 28-31), o termo destacado se refere a toda a população.

    ( ) No trecho “É o que mostra trabalho feito por pesquisadores das universidades federais de Minas (UFMG) e de São Paulo (Unifesp).” (linhas 06-09), entende-se, pela construção sintática, que há mais de uma universidade federal em cada um dos estados mencionados, Minas e São Paulo.


    A sequência correta, de cima para baixo, é
    Escolha uma alternativa para a questão 38f49f67-03
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    Português

    TEXTO 1


    81% dos adolescentes têm dois ou mais fatores de risco para saúde, aponta pesquisa da UFMG e Unifesp


    Figura 1 de 3 da questão de Português, UECE 2024, Figuras de Linguagem
    Figura 2 de 3 da questão de Português, UECE 2024, Figuras de Linguagem
    Figura 3 de 3 da questão de Português, UECE 2024, Figuras de Linguagem


    Do HOJE EM DIA - portal@hojeemdia.com.br em 18/07/2024 . Adaptado.
    Elipse é uma figura de linguagem caracterizada pela omissão de um termo (palavra ou expressão) no enunciado a fim de evitar a repetição desnecessária e possibilitar maior fluidez ao texto. Assinale a opção que apresenta elipse.
    Escolha uma alternativa para a questão 38efbcf7-03
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    Português

         O sertanejo verá o nascimento de outro Brasil, que não será o da palhoça, o das febres, o da verminose, o do analfabetismo. Para todos se abrirão as perspectivas de um Brasil integrado na unidade real da terra e no sentimento comum de que essa unidade já está viva na grande nova capital, levantada no Planalto Central: Brasília. Não há dúvida de que o presidente Juscelino Kubitschek despertou grande parte do território nacional. Quem viu quase imobilizada aquela imensa região e, hoje, a contempla palpitante de vida, poderá imaginar o que significa tudo isso para o futuro do Brasil.


    Brasília é um marco histórico no movimento de emancipação nacional.
    Correio Braziliense, 26 abr. 1960 (adaptado).



    O texto faz referência a uma mudança de perspectiva acerca da integração nacional que relaciona
    Escolha uma alternativa para a questão 07e5f63a-d9
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    Português

    Imagem da questão de Português, ENEM 2024, Interpretação de Textos




    Disponível em: https://revistareacao.com.br.

    Acesso em: 11 jan. 2024 (adaptado).




    Nesse cartaz, a articulação do texto verbal com imagens de peças de quebra-cabeça corrobora a ideia de que é preciso


    Escolha uma alternativa para a questão 07e38219-d9
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    Português

    XIX


            Talvez não se lembre de um Jacinto, cujo nome, então desconhecido para mim, ouvira uma vez da boca de Lúcia.

              Era um homem de 45 anos; feição comum e espírito medíocre. Encontrava-o agora todos os dias em casa de Lúcia; e desde a primeira vez antipatizara com a sua enjoativa figura.

              — Quem é este senhor? — perguntei a Lúcia. Ela perturbou-se.

              — É um sujeito que costuma tratar dos meus negócios.

             — Que importantes negócios são os teus que eu não me possa incumbir deles?

             — Compras... Não tenho outros. Para que incomodá-lo com isso?

             — Também sou ciumento: não desejo que ocupes outra pessoa além de mim.

             — Esse homem é quase um criado.

             A palavra produziu o seu efeito; desde que o Jacinto desceu ao mister de homem assalariado, não fiz mais reparo na sua assiduidade. Quase sempre o encontrava na escada interior, descendo quando eu subia; dava-lhe tanta atenção como ao carroceiro que enchia as talhas d’água, ou ao cozinheiro que saía a compras.


    ALENCAR, J. Lucíola. Disponível em: www.dominiopublico.gov.br.
    Acesso em: 25 ago. 2017.



    Ao relatar seu passado com Lúcia, cortesã de modos refinados, o narrador revela uma visão de mundo alinhada ao Romantismo, representada, nesse fragmento, pela
    Escolha uma alternativa para a questão 07e0d78a-d9
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    Português

    Recado


    Se me der um beijo eu gosto
    Se me der um tapa eu brigo
    Se me der um grito não calo
    Se mandar calar, mais eu falo


    Mas se me der a mão claro aperto
    Se for franco direto e aberto
    Tô contigo amigo e não abro
    Vamos ver o diabo de perto


    Mas preste bem atenção seu moço
    Não engulo a fruta e o caroço
    Minha vida é tutano é osso
    Liberdade virou prisão


    Se é amor, deu e recebeu
    Se é suor, só o meu e o seu
    Verbo eu, pra mim já morreu
    Quem mandava em mim nem nasceu


    É viver e aprender
    Vá viver e entender, malandro
    Vá compreender,
    Vá tratar de viver


    GONZAGUINHA. Recado. Rio de Janeiro: EMI, 1978 (fragmento).


     
    Nessa letra de canção, há um tom de ameaça que é evidenciado na recorrência de
    Escolha uma alternativa para a questão 07bec818-d9
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    Português

    Uma carta para Freud


           Caro Freud,

         Resolvi lhe escrever uma carta porque o senhor anda muito ocupado e eu demoro demais para me fazer compreender verbalmente. Aqui, nesta carta, acho que consigo ser franco e direto.

        Hoje resolvi aplicar alguns de seus conselhos. E outros do Facebook. O senhor mencionou que eu precisava encontrar prazer no meu trabalho. Pois bem, resolvi espalhar chocolate em todas as mesas, pias, balcões e até no banheiro.

        Romanticamente, a história é mais complicada. Sempre que nos encontramos, o senhor pergunta: “E as namoradas, como vão?”. Realmente, doutor Freud, nunca entendi o porquê do plural. Mas já que tocamos no assunto, acho que precisarei de um pouco mais do que chocolate para resolver este problema.

          O senhor disse que o segredo do sucesso é fazer as mulheres rirem. Mas rir de mim também conta?

        O senhor também mencionou que eu não poderia deixar as garotas me encararem como amigo, não foi? “Mulheres nunca se apaixonam por amigos”. Tentei aplicar este conselho.

          Ah, meu amigo Sigmund. A vida não é nada fácil. Pela expressão fechada em seu rosto, o senhor deve me entender. Podíamos sair para tomar uma cerveja. Ver luzes, ouvir pessoas, essas coisas. Acho que lhe faria bem, também.


    MARTINZ, J. Disponível em: https://corrosiva.com.br. Acesso em: 24 out. 2021.



    O trecho que faz referência ao vocativo inicial da carta “Caro Freud” é
    Escolha uma alternativa para a questão 07b9bd0c-d9