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Instituição

Questões: Universidade Federal de Juiz de Fora - MG — com gabarito

279 questões de Universidade Federal de Juiz de Fora - MG, de 2016 a 2024. Cada uma tem página própria, com enunciado completo, alternativas e gabarito — e dá para responder na própria página.

  • 279 questões
  • 4 provas

Resultados: 86 questões

Página 4 de 5

  • Linguagens

    Português

    Leia o texto II a seguir, publicado na revista “Carta Capital”, para responder a questão. 



    Uberismo é a total desumanização das relações trabalhistas


    Não há um patrão de carne e osso, não existe um departamento de recursos humanos



            Há palavras cuja sonoridade é aparentemente inócua, cuja grafia parece inocente, insuspeita, mas basta ir um pouco além da fisionomia ortográfica para entender os infernos que escondem. Uberismo seria uma das mais recentes formas de exploração da forma de trabalho, consistente numa hiperexploração dos trabalhadores por meio de plataformas. Um emaranhado algorítmico pensado para arrancar direitos trabalhistas na forma de startup jovem, de sucesso, vibrante, lucrativa. Recomendo a leitura atenta do que escreve o professor Ruy Braga, da USP, excelente pesquisador na área sobre as ameaças brutais da “plataformização” do trabalho ou a tirania à qual as novas tecnologias digitais submetem a vida dos trabalhadores mais precarizados. É a total desumanização das relações trabalhistas. Não há um patrão de carne e osso, não existe um departamento de recursos humanos, muitos sindicatos rejeitam representar essas categorias. O contato com o “cliente” resume-se, muitas vezes, a uma entrega rápida e insensível, com um portão com grades no meio de dois indivíduos, que no momento estão a centímetros de distância, mas cujas mãos apenas se tocam e cujas vidas se tocam menos ainda. Não há direitos, não há humanidade. Um país como Brasil é o ambiente perfeito para esse processo de uberização da vida. Milhões de trabalhadores informais, uma pauperização crescente, um exército de jovens sem formação, a volta da miséria, o desmonte incessante dos direitos trabalhistas. [...] 



            No Brasil, a carne do trabalhador precarizado se vende barata. Muito barata. Uber, Ifood, Rappi, o mundo do trabalhador escravizado pelo algoritmo que, em tempos de crise, absorve, engole milhões de profissionais sem expectativas. São os descartáveis. Mas, paradoxos de uma vida fortuita, os descartáveis viraram essenciais na pandemia. O número de entregadores antes do coronavírus era de 280 mil. Depois da pandemia, passaram a 500 mil. São números impressionantes: 500 mil invisíveis que entregam comida, mas cujas famílias passam fome ou convivem com ela. São 500 mil. Mais gente, menos lucro.



           O estudo “Condições de Trabalho de Entregadores Via Plataforma Digital Durante a Covid-19” identificou as jornadas de trabalho maiores e a queda nos rendimentos de 58,9% dos entregadores. [...] Não se preocupe. O entregador é microempresário, empreendedor. Não é pobreza, é um processo de sucesso individual. Os entregadores não são trabalhadores, são “parceiros” das plataformas. Os jovens que se endividam para comprar uma moto investem no seu futuro. Num país como Brasil, o discurso da meritocracia mata, assim como matam as motos dos entregadores cansados de trabalhar durante mais de dez horas por dia. Entre março e maio deste ano, 87 morreram na capital paulista.



        [...]



            Mas a exploração tem seus limites. Os explorados também explodem. Os invisíveis se cansam da invisibilidade. As greves de entregadores e a formação dos “Entregadores Antifascistas” são focos de luz nas trevas. Entre as exigências dos trabalhadores estão reajuste de preços, entrega de EPIs para trabalhar com mais segurança durante a pandemia, fim dos bloqueios indevidos, demanda de auxílios ou licenças de saúde e acidente, questionamentos com relação a programas de pontos realizados por algumas plataformas. Dignidade para os que são tratados com indignidade. É a revolta dos de baixo, dos que passavam despercebidos e hoje se tornaram essenciais. Todo o meu respeito, todo o meu apoio. 


    Fonte: https://www.cartacapital.com.br/artigo/uberismo-e-a-totaldesumanizacao-das-relacoes-trabalhistas/. Acesso em: 08 jul. 2024. (adaptado).

    O texto lido é um artigo de opinião, gênero que tem a característica da defesa de um ponto de vista.



    Qual das alternativas a seguir apresenta a tese central do autor do texto?




    Escolha uma alternativa para a questão ba683271-3c
  • Linguagens

    Português

    TEXTO I


    Capitalismo com tração Sanguínea


     Emiliano Gullo foi trabalhar no Rappi por dez dias: ganhava 2300 pesos. Da ansiedade das primeiras ordens ao ódio a um emprego que paga mal e que mostra o pior do capitalismo: a exploração com cara boa. Entre GPS e algoritmos, uma crônica em primeira pessoa da aplicação mais selvagem da economia de plataformas.


    Por: Emiliano Gullo


            Espero que você seja pego por um feroz.

            Esperançosamente. Esperançosamente. Esperançosamente.

           Repito o desejo silencioso como um mantra de suportar a chuva e a raiva enquanto vejo como o cliente da rua Boulogne Sur Mer retorna ao elevador com seu nhoque estilo bolonhesa. Volta rápido e seco. Dou um passo em direção à calçada e fico encharcado de novo. As gotas chocalham muito na minha jaqueta de borracha. Ainda não tenho o piloto laranja. Isso vai acontecer em poucos dias, quando eu cumprir os 15 pedidos entregues. Agora fecho a caixa-mochila de telgopor e o último suspiro quente que a massa deixou antes de sair escapa. Quente e pontual.

            Em algumas semanas, o Rappi vai me pagar 50 pesos por essa remessa. O cliente não me deixou um centavo na ponta. No Rappi não há tempo para fúria. Ou sim: na bicicleta. [...]

           Antes da chuva, diante das ordens e das pedaladas frenéticas, as promessas de um emprego livre, sem patrões ou horários, de ganhos imediatos, me levam a um escritório em Villa Crespo, na Rua Castillo, 1200. E a primeira inaugurada pela empresa colombiana Rappi na Argentina, que chegou em março e está crescendo mais rápido que a inflação. [...] No final de agosto, já havia 9 mil rappitenderos na Argentina. Ou melhor, 9 mil trabalhadores não reconhecidos. Hoje já são mais de 12 mil sem assistência social, sem ART, nem férias, nem seguro, nem benefícios de qualquer natureza. [...] O diretor-presidente local da Rappi, Matías Casoy, diz que os rappintenderos não são trabalhadores formais, mas “microempreendedores porque têm seu tempo”. [...]

           Para treinar como rappitendero existem três horários, três dias por semana. Entre 40 e 50 pessoas estão amontoadas em cada fila; quase todos homens com menos de 40 anos de idade.[...] Há duas filas aqui. Uma para nós, os novos. Outra para ativos. [...]

             Sem caixa, não há trabalho. [...]

            As conversas na porta de Castillo giram em torno do labirinto burocrático. O segundo passo é a monotaxa. O Rappi dá 15 dias para que eles apresentem. Durante esse tempo, você pode trabalhar e acumular dinheiro para pedidos. Mas se o trabalhador não conseguir, a empresa bloqueia o usuário e não pode recolher seus ganhos. [...] Eu também vou ter que voltar várias vezes para resolver problemas cotidianos como um trabalhador para esta empresa. Faltam mochilas, pagamentos que não chegam, pedidos que não saem, usuários bloqueados ou recursos não ativados. [...]

           Agora estamos na clandestinidade. Somos cerca de 40 meninos e 1 menina. Não há cadeiras livres. Alguns de nós sentaram-se no chão. A palestra é ministrada por Viviana. Começa a operação de sedução. Viviana projeta um powerpoint. Ela promete que não pedalaremos mais do que 3 quilômetros, explica o comportamento do bom rappitendero, nos mostra os possíveis ganhos e, acima de tudo, vai nos empolgar com os principais benefícios. Trabalhar sem patrões, o número de horas que queremos e, como se não bastasse, temos os “benefícios de ser monotributista”. [...] 

          Viviana diz para não nos preocuparmos com a caixa. Se quisermos, podemos alugá-la. Se não, fazemos pedidos menores. [...]

        A única oportunidade em que o véu da falsa liberdade será transparente será quando Viviana falar da “taxa de aceitabilidade”. Assim que o pedido aparecer no aplicativo SoyRappi, são 30 segundos para decidir se aceita ou não a corrida. Quanto menos pedidos forem aceitos, menor será a taxa de aceitabilidade. E, quanto menor a taxa, menos pedidos aparecerão. [...] Também temos que aproveitar os horários de pico. De 12h às 16h e de 19h/20h às 24h/1h. Os ganhos para cada entrega variam de 40 a 60 pesos, dependendo - sempre em teoria - do número de quilômetros. [...]         

            No Rappi há uma diferença entre dois grupos não antagônicos. Os venezuelanos, que representam mais de 90% da tropa da Rappitenda e costumam dedicar o dia inteiro a essa atividade. E os argentinos, uma clara minoria que costuma usar o aplicativo porque não se sustenta com seu trabalho formal. A etapa final é a ativação do usuário. Eu sou Id 9133. [...]

            Viajei 9 quilômetros. Fiz 125 pesos, que vou recolher quando o Rappi acertar os ganhos e fizer a transferência para a minha conta. [...]

            Eu, enquanto isso, continuo circulando sem um destino fixo. Tento horários diferentes, dias diferentes. É sexta-feira à noite. Estou indo pela ciclovia Billinghurst. Estou com o celular na mão. [...]

            Eu tenho que pegar algumas empanadas venezuelanas em El Salvador em 4400 e levá-los para Recoleta. O aplicativo me orienta através de uma série de etapas para que todos saibam onde estou e o que estou fazendo. Aviso primeiro que estou a caminho. Para o restaurante quando eu chegar. Ao cliente quando já tenho os produtos. Por fim, aviso que dei tudo. Estou pronto para mais. [...]

            Sou controlado por satélites, sou designado e não atribuído tarefas de um telefone, sou suspenso ou disparado de um tablet, mas pedalo uma bicicleta para o trabalho. Os novos modos de exploração parecem evoluir de forma bastante singular. O século 21 nas mãos das empresas, trabalhadores ancorados no século 19. O capital viaja no tempo. Pode ser o último filme de “De Volta para o Futuro”. O mais sinistro. O capitalismo moderno se move com tração de sangue. Economia de plataforma, dizem economistas e sociólogos. A uberização da economia, dizem outros. [...]

            Como cheguei depois de 35 minutos no último pedido, o Rappi vai premiar a entrega. O telefone toca novamente. “Temos uma ordem perfeita para você.” Tenho sorte hoje. [...]

            Mudança de dias. Trabalho ao meio-dia. Trabalho noturno. Trabalho dia e noite. Com e sem chuva. Não importa se há uma tempestade ou um sol brilhante. [...]

            O Rappi se alimenta, por um lado, de duas fragilidades muito específicas e complementares: a necessidade do imigrante e o desespero dos desempregados. De outro, a fetichização do imediatismo.[...]

    Fonte: https://www.revistaanfibia.com/capitalismo-traccion-sangre/. Acesso em: 05 jul. 2024. Texto adaptado para fins didáticos.


    GLOSSÁRIO:

    Monotributista: Uma forma de pagar impostos simplificada e de baixo custo utilizada por trabalhadores independentes da Argentina.

    Peso: Moeda argentina, como o Real no Brasil

    Telgopor: Material térmico semelhante a isopor.




    TEXTO II


    Uberismo é a total desumanização das relações trabalhistas


    Não há um patrão de carne e osso, não existe um departamento de recursos humanos



            Há palavras cuja sonoridade é aparentemente inócua, cuja grafia parece inocente, insuspeita, mas basta ir um pouco além da fisionomia ortográfica para entender os infernos que escondem. Uberismo seria uma das mais recentes formas de exploração da forma de trabalho, consistente numa hiperexploração dos trabalhadores por meio de plataformas. Um emaranhado algorítmico pensado para arrancar direitos trabalhistas na forma de startup jovem, de sucesso, vibrante, lucrativa. Recomendo a leitura atenta do que escreve o professor Ruy Braga, da USP, excelente pesquisador na área sobre as ameaças brutais da “plataformização” do trabalho ou a tirania à qual as novas tecnologias digitais submetem a vida dos trabalhadores mais precarizados. É a total desumanização das relações trabalhistas. Não há um patrão de carne e osso, não existe um departamento de recursos humanos, muitos sindicatos rejeitam representar essas categorias. O contato com o “cliente” resume-se, muitas vezes, a uma entrega rápida e insensível, com um portão com grades no meio de dois indivíduos, que no momento estão a centímetros de distância, mas cujas mãos apenas se tocam e cujas vidas se tocam menos ainda. Não há direitos, não há humanidade. Um país como Brasil é o ambiente perfeito para esse processo de uberização da vida. Milhões de trabalhadores informais, uma pauperização crescente, um exército de jovens sem formação, a volta da miséria, o desmonte incessante dos direitos trabalhistas. [...] 



            No Brasil, a carne do trabalhador precarizado se vende barata. Muito barata. Uber, Ifood, Rappi, o mundo do trabalhador escravizado pelo algoritmo que, em tempos de crise, absorve, engole milhões de profissionais sem expectativas. São os descartáveis. Mas, paradoxos de uma vida fortuita, os descartáveis viraram essenciais na pandemia. O número de entregadores antes do coronavírus era de 280 mil. Depois da pandemia, passaram a 500 mil. São números impressionantes: 500 mil invisíveis que entregam comida, mas cujas famílias passam fome ou convivem com ela. São 500 mil. Mais gente, menos lucro.



           O estudo “Condições de Trabalho de Entregadores Via Plataforma Digital Durante a Covid-19” identificou as jornadas de trabalho maiores e a queda nos rendimentos de 58,9% dos entregadores. [...] Não se preocupe. O entregador é microempresário, empreendedor. Não é pobreza, é um processo de sucesso individual. Os entregadores não são trabalhadores, são “parceiros” das plataformas. Os jovens que se endividam para comprar uma moto investem no seu futuro. Num país como Brasil, o discurso da meritocracia mata, assim como matam as motos dos entregadores cansados de trabalhar durante mais de dez horas por dia. Entre março e maio deste ano, 87 morreram na capital paulista.



    [...]



            Mas a exploração tem seus limites. Os explorados também explodem. Os invisíveis se cansam da invisibilidade. As greves de entregadores e a formação dos “Entregadores Antifascistas” são focos de luz nas trevas. Entre as exigências dos trabalhadores estão reajuste de preços, entrega de EPIs para trabalhar com mais segurança durante a pandemia, fim dos bloqueios indevidos, demanda de auxílios ou licenças de saúde e acidente, questionamentos com relação a programas de pontos realizados por algumas plataformas. Dignidade para os que são tratados com indignidade. É a revolta dos de baixo, dos que passavam despercebidos e hoje se tornaram essenciais. Todo o meu respeito, todo o meu apoio. 


    Fonte: https://www.cartacapital.com.br/artigo/uberismo-e-a-totaldesumanizacao-das-relacoes-trabalhistas/. Acesso em: 08 jul. 2024. (adaptado).




    Leia o texto III a seguir para responder a questão.

    TEXTO III

    O operário em construção

    Vinicius de Moraes


    Era ele que erguia casas

    Onde antes só havia chão.

    Como um pássaro sem asas

    Ele subia com as casas

    Que lhe brotavam da mão.

    Mas tudo desconhecia

    De sua grande missão:

    Não sabia, por exemplo

    Que a casa de um homem é um templo



    Um templo sem religião

    Como tampouco sabia

    Que a casa que ele fazia

    Sendo a sua liberdade

    Era a sua escravidão.

    De fato, como podia

    Um operário em construção

    Compreender por que um tijolo

    Valia mais do que um pão?



    [...] Mas ele desconhecia

    Esse fato extraordinário:

    Que o operário faz a coisa

    E a coisa faz o operário.

    De forma que, certo dia

    A mesa, ao cortar o pão `

    O operário foi tomado

    De uma súbita emoção

    Ao constatar assombrado

    Que tudo naquela mesa

    – Garrafa, prato, facão –

    Era ele quem os fazia

    Ele, um humilde operário,

    Um operário em construção.



    [...] E foi assim que o operário

    Do edifício em construção

    Que sempre dizia sim

    Começou a dizer não

    E aprendeu a notar coisas

    A que não dava atenção:

    Notou que sua marmita

    Era o prato do patrão

    Que sua cerveja preta

    Era o uísque do patrão

    Que seu macacão de zuarte

    Era o terno do patrão

    Que o casebre onde morava

    Era a mansão do patrão



    [...] Que sua imensa fadiga

    Era amiga do patrão.

    E o operário disse: Não!

    E o operário fez-se forte

    Na sua resolução.

    Como era de se esperar

    As bocas da delação

    Começaram a dizer coisas

    Aos ouvidos do patrão.



    [...] Dia seguinte, o operário

    Ao sair da construção

    Viu-se súbito cercado

    Dos homens da delação

    E sofreu, por destinado

    Sua primeira agressão.

    Teve seu rosto cuspido

    Teve seu braço quebrado

    Mas quando foi perguntado

    O operário disse: Não! 



    [...] Sentindo que a violência

    Não dobraria o operário

    Um dia tentou o patrão

    Dobrá-lo de modo vário.

    De sorte que o foi levando

    Ao alto da construção

    E num momento de tempo

    Mostrou-lhe toda a região

    E apontando-a ao operário

    Fez-lhe esta declaração:

    — Dar-te-ei todo esse poder

    E a sua satisfação



    [...] E o operário disse: Não! 

    — Loucura! – gritou o patrão

    Não vês o que te dou eu?

    — Mentira! – disse o operário

    Não podes dar-me o que é meu.



    [...]


    Fonte: https://edisciplina.usp.br/mod/resource/view.php?id=5229060. Acesso em: 08 jul. 2024. (adaptado).


    Embora os textos I, II e III sejam de gêneros de texto diferentes, eles relacionam-se quanto à temática e à crítica presentes.



    Por isso, ao comparar os textos I, II e III, pode-se afirmar que

    Escolha uma alternativa para a questão ba6ab415-3c
  • Linguagens

    Literatura

    TEXTO I


    Sete annos de pastor Jacob servia
    Luís Vaz de Camões


    Sete annos de pastor Jacob servia
    Labão, pae de Raquel, serrana bella:
    Mas não servia ao pae, servia a ella,
    Que a ella só por premio pertendia.


    Os dias na esperança de hum só dia
    Passava, contentando-se com vella:
    Porém o pae, usando de cautella,
    Em lugar de Raquel lhe deo a Lia. 


    Vendo o triste Pastor que com enganos
    Assi lhe era negada a sua Pastora,
    Como se a não tivera merecida;


    Começou a servir outros sete annos,
    Dizendo: Mais servíra, senão fôra
    Para tão longo amor tão curta a vida.


    Fonte: CAMÕES, Luís Vaz de. Obras Completas de Luis de Camões, Tomo II (Portuguese Edition). Edição do Kindle. 



    Assinale a única alternativa INCORRETA sobre o poema de Camões.
    Escolha uma alternativa para a questão ba6d820b-3c
  • Linguagens

    Literatura

    TEXTO I


    Sete annos de pastor Jacob servia
    Luís Vaz de Camões


    Sete annos de pastor Jacob servia
    Labão, pae de Raquel, serrana bella:
    Mas não servia ao pae, servia a ella,
    Que a ella só por premio pertendia.


    Os dias na esperança de hum só dia
    Passava, contentando-se com vella:
    Porém o pae, usando de cautella,
    Em lugar de Raquel lhe deo a Lia. 


    Vendo o triste Pastor que com enganos
    Assi lhe era negada a sua Pastora,
    Como se a não tivera merecida;


    Começou a servir outros sete annos,
    Dizendo: Mais servíra, senão fôra
    Para tão longo amor tão curta a vida.


    Fonte: CAMÕES, Luís Vaz de. Obras Completas de Luis de Camões, Tomo II (Portuguese Edition). Edição do Kindle. 


    TEXTO II


    Ao casamento de Pedro Álvares da Neiva
    Gregório de Matos



    Sete anos a nobreza da Bahia
    Servia a uma pastora Indiana bela,
    Porém servia a Índia e não a ela,
    Que a Índia só por prêmio pretendia.


    Mil dias na esperança de um só dia
    Passava, contentando-se com vê-la,
    Mas frei Tomás usando de cautela,
    deu-lhe o vilão, quitou-lhe a fidalguia. 


    Vendo o Brasil, que por tão sujos modos
    Se lhe usurpara a sua Dona Elvira,
    Quase a golpes de um maço e de uma goiva:


    Logo, se arrependeram de amar todos,
    E qualquer mais amara, se não vira
    Para tão limpo amor tão suja noiva.


    Fonte: MATOS, Gregório de. Poemas escolhidos. Seleção e organização José Miguel Wisnik. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
    Assinale a única alternativa INCORRETA sobre o poema de Gregório de Matos:
    Escolha uma alternativa para a questão ba6ff358-3c
  • Linguagens

    Literatura

    TEXTO III


    Desenganos da vida humana, metaforicamente

    Gregório de Matos* 


    É a vaidade, Fábio, nesta vida,
    Rosa, que da manhã lisonjeada,
    Púrpuras mil, com ambição dourada,
    Airosa rompe, arrasta presumida.


    É planta, que de abril favorecida,
    Por mares de soberba desatada,
    Florida galeota empavesada,
    Sulca ufana, navega destemida.


    É nau enfim, que em breve ligeireza
    Com presunção de Fênix generosa,
    Galhardias apresta, alentos preza:


    Mas ser planta, ser rosa, nau vistosa
    De que importa, se aguarda sem defesa
    Penha a nau, ferro a planta, tarde a rosa?


    *Poema antologicamente reconhecido como de autoria de Gregório de Matos


    Fonte: MATOS, Gregório. Desenganos da vida humana, metaforicamente In: Wisnik, José Miguel (org.). Poemas escolhidos de Gregório de Matos. Edição vestibular. São Paulo: Companhia das letras, 2015, p.340.


            GLOSSÁRIO:

    Airosa : esbelto, gracioso.
    Soberba : orgulho, altivez.
    Galheota : pequena embarcação a remo, usada para o transporte do rei.
    Presumida : vaidosa.
    De abril favorecida : favorecida pela primavera que inicia em abril na Europa.
    Empavesado : enfeitado, adornado, guarnecido de paveses (=proteção nas embarcações).
    Ufana : que se orgulha de algo, vaidoso.
    Fênix : divindade da mitologia egípcia, símbolo da imortalidade, personificada em uma ave que renascia das próprias cinzas.
    Galhardia : garbo, elegância.
    Aprestar : preparar com prontidão.
    Alento : sopro, bafejo.
    Penha : penhasco, rochedo.


    Considerando o soneto “Desenganos da vida humana, metaforicamente”, texto III, assinale a alternativa CORRETA:
    Escolha uma alternativa para a questão ba7280ef-3c
  • Linguagens

    Literatura

    TEXTO IV


    Prosopopéia
    Bento Teixeira


    I


    Cantem Poetas o Poder Romano,
    Sobmetendo Nações ao jugo duro;
    O Mantuano pinte o Rei Troiano,
    Descendo à confusão do Reino escuro;
    Que eu canto um Albuquerque soberano,
    Da Fé, da cara Pátria firme muro,
    Cujo valor e ser, que o Ceo lhe inspira,
    Pode estancar a Lácia e Grega lira.


    II


    As Délficas irmãs chamar não quero,
    que tal invocação é vão estudo;
    Aquele chamo só, de quem espero
    A vida que se espera em fim de tudo.
    Ele fará meu Verso tão sincero,
    Quanto fora sem ele tosco e rudo,
    Que per rezão negar não deve o menos
    Quem deu o mais a míseros terrenos.


    Fonte: TEIXEIRA, Bento. Prosopopeia. Rio de Janeiro: Typ. do Imperial Instituto Artistico, 1873. Disponível em: http://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/242781. Acesso em: 09/07/2024.


    GLOSSÁRIO:

    Délficas: Musas, deusas da poesia e irmãs de Apolo por parte de pai (Zeus)
    Lácia: referente ao Lácio, região da Itália central. 


    TEXTO V


    Nas palavras do crítico literário Alfredo Bosi, a intenção do poeta Bento Teixeira, ao escrever o poema épico “Prosopopeia”, é “encomiástica, e o objeto do louvor Jorge de Albuquerque Coelho, donatário da capitania de Pernambuco, que encetava a sua carreira de prosperidade graças à cana-de-açúcar. A imitação de Os Lusíadas é assídua, desde a estrutura até o uso dos chavões da mitologia e dos torneios sintáticos. O que há de não-português (mas não diria: de brasileiro) no poemeto, como a ‘Descrição do Recife de Pernambuco’, ‘Olinda Celebrada’ e o canto dos feitos de Albuquerque Coelho, entra a título de louvação da terra enquanto colônia, parecendo precoce a atribuição de um sentimento nativista a qualquer dos passos citados”.


    Fonte: BOSI, Alfredo. História concisa da literatura. 50. ed. São Paulo: Cultrix, 2015, p. 36. 


    GLOSSÁRIO: 

    Encomiástico: elogioso, que faz elogio a algo ou alguém.
    Considerando os dois textos (IV e V), é possível afirmar que “Prosopopeia”, de Bento Teixeira, pode ser considerado o marco inicial, no Brasil, do movimento barroco, uma vez que, dentre outras características:
    Escolha uma alternativa para a questão ba77de2c-3c
  • Linguagens

    Português

    A seguir, você lerá trechos de Um livro de instruções e desenhos de Yoko Ono, da artista plástica, compositora e escritora Yoko Ono (Tóquio, 1933-). Esses trechos estão na primeira parte do livro, intitulada “Música”, em que a autora fornece “instruções” para que seus leitores componham músicas.


    Texto 1:

    Composição da batida

    Ouça uma batida de coração


    Texto 2:

    Composição do amanhecer

    Pegue a primeira palavra que vier

    à sua cabeça.

    Repita a palavra até o amanhecer.


    Texto 3:

    Composição do sanduíche de atum

    Imagine mil sóis no

    céu ao mesmo tempo.

    Deixe-os brilhar por uma hora.

    Então, deixe-os derreter gradualmente

    no céu.

    Faça um sanduíche de atum e coma.

    (ONO, Yoko. Grapefruit – A Book of Instruction and Drawings by Yoko Ono. Nova Iorque: Simon & Schuster, 2000[1964].). 

    Os verbos utilizados nos três textos acima, no imperativo, possuem sentido de
    Escolha uma alternativa para a questão c6499886-b4
  • Linguagens

    Português

    A seguir, você lerá trechos de Um livro de instruções e desenhos de Yoko Ono, da artista plástica, compositora e escritora Yoko Ono (Tóquio, 1933-). Esses trechos estão na primeira parte do livro, intitulada “Música”, em que a autora fornece “instruções” para que seus leitores componham músicas.


    Texto 1:

    Composição da batida

    Ouça uma batida de coração


    Texto 2:

    Composição do amanhecer

    Pegue a primeira palavra que vier

    à sua cabeça.

    Repita a palavra até o amanhecer.


    Texto 3:

    Composição do sanduíche de atum

    Imagine mil sóis no

    céu ao mesmo tempo.

    Deixe-os brilhar por uma hora.

    Então, deixe-os derreter gradualmente

    no céu.

    Faça um sanduíche de atum e coma.

    (ONO, Yoko. Grapefruit – A Book of Instruction and Drawings by Yoko Ono. Nova Iorque: Simon & Schuster, 2000[1964].). 

    A formação do modo imperativo afirmativo dos verbos repita, deixe e faça, presente nos Textos 1, 2 e 3, é a mesma que encontramos no item:
    Escolha uma alternativa para a questão c64efcdf-b4
  • Linguagens

    Português

    A seguir, você lerá trechos de Um livro de instruções e desenhos de Yoko Ono, da artista plástica, compositora e escritora Yoko Ono (Tóquio, 1933-). Esses trechos estão na primeira parte do livro, intitulada “Música”, em que a autora fornece “instruções” para que seus leitores componham músicas.


    Texto 1:

    Composição da batida

    Ouça uma batida de coração


    Texto 2:

    Composição do amanhecer

    Pegue a primeira palavra que vier

    à sua cabeça.

    Repita a palavra até o amanhecer.


    Texto 3:

    Composição do sanduíche de atum

    Imagine mil sóis no

    céu ao mesmo tempo.

    Deixe-os brilhar por uma hora.

    Então, deixe-os derreter gradualmente

    no céu.

    Faça um sanduíche de atum e coma.

    (ONO, Yoko. Grapefruit – A Book of Instruction and Drawings by Yoko Ono. Nova Iorque: Simon & Schuster, 2000[1964].). 

    O Texto 3 pode causar um estranhamento em seu sentido porque:
    Escolha uma alternativa para a questão c65343e9-b4
  • Linguagens

    Português

    A terceira parte de Um livro de instruções e desenhos de Yoko Ono, da artista plástica, compositora e escritora Yoko Ono (Tóquio, 1933-), é intitulada “Evento”. Nele, Yoko Ono fornece “instruções” para que seus leitores produzam eventos. 


    Texto 4:

    Evento do cheiro I

    Envie o cheiro da Lua.


    Evento do cheiro II

    Envie um cheiro para a Lua.

    (ONO, Yoko. Grapefruit – A Book of Instruction and Drawings by Yoko Ono. Nova Iorque: Simon & Schuster, 2000[1964].). 

    No Texto 4, o Evento I tem um “cheiro” determinado, em contraposição ao Evento II. Sobre tal fato podemos dizer que:

    Escolha uma alternativa para a questão c6561cf4-b4
  • Linguagens

    Português

    A terceira parte de Um livro de instruções e desenhos de Yoko Ono, da artista plástica, compositora e escritora Yoko Ono (Tóquio, 1933-), é intitulada “Evento”. Nele, Yoko Ono fornece “instruções” para que seus leitores produzam eventos. 


    Texto 4:

    Evento do cheiro I

    Envie o cheiro da Lua.


    Evento do cheiro II

    Envie um cheiro para a Lua.

    (ONO, Yoko. Grapefruit – A Book of Instruction and Drawings by Yoko Ono. Nova Iorque: Simon & Schuster, 2000[1964].). 

    No Texto 4, há uma mudança de preposições do Evento I para o II, em que o “da” passa a ser “para”. Sobre essas preposições podemos dizer que:
    Escolha uma alternativa para a questão c65a51ed-b4
  • Linguagens

    Português

    Capitalismo com tração Sanguínea

    Emiliano Gullo foi trabalhar no Rappi por dez dias: ganhava 2300 pesos. Da ansiedade das primeiras ordens ao ódio a um emprego que paga mal e que mostra o pior do capitalismo: a exploração com cara boa. Entre GPS e algoritmos, uma crônica em primeira pessoa da aplicação mais selvagem da economia de plataformas.

    Por: Emiliano Gullo

            Espero que você seja pego por um feroz.

            Esperançosamente. Esperançosamente. Esperançosamente.

            Repito o desejo silencioso como um mantra de suportar a chuva e a raiva enquanto vejo como o cliente da rua Boulogne Sur Mer retorna ao elevador com seu nhoque estilo bolonhesa. Volta rápido e seco. Dou um passo em direção à calçada e fico encharcado de novo. As gotas chocalham muito na minha jaqueta de borracha. Ainda não tenho o piloto laranja. Isso vai acontecer em poucos dias, quando eu cumprir os 15 pedidos entregues. Agora fecho a caixa-mochila de telgopor e o último suspiro quente que a massa deixou antes de sair escapa. Quente e pontual.

            Em algumas semanas, o Rappi vai me pagar 50 pesos por essa remessa. O cliente não me deixou um centavo na ponta.

            No Rappi não há tempo para fúria. Ou sim: na bicicleta. [...]

            Antes da chuva, diante das ordens e das pedaladas frenéticas, as promessas de um emprego livre, sem patrões ou horários, de ganhos imediatos, me levam a um escritório em Villa Crespo, na Rua Castillo, 1200. É a primeira inaugurada pela empresa colombiana Rappi na Argentina, que chegou em março e está crescendo mais rápido que a inflação. [...] No final de agosto, já havia 9 mil rappitenderos na Argentina. Ou melhor, 9 mil trabalhadores não reconhecidos.Hoje já são mais de 12 mil sem assistência social, sem ART, nem férias, nem seguro, nem benefícios de qualquer natureza. [...] O diretor-presidente local da Rappi, Matías Casoy, diz que os rappintenderos não são trabalhadores formais, mas “microempreendedores porque têm seu tempo”. [...]

            Para treinar como rappitendero existem três horários, três dias por semana. Entre 40 e 50 pessoas estão amontoadas em cada fila; quase todos homens com menos de 40 anos de idade.[...] Há duas filas aqui. Uma para nós, os novos. Outra para ativos. [...]

            Sem caixa, não há trabalho. [...]

            As conversas na porta de Castillo giram em torno do labirinto burocrático. O segundo passo é a monotaxa. O Rappi dá 15 dias para que eles apresentem. Durante esse tempo, você pode trabalhar e acumular dinheiro para pedidos. Mas se o trabalhador não conseguir, a empresa bloqueia o usuário e não pode recolher seus ganhos. [...] Eu também vou ter que voltar várias vezes para resolver problemas cotidianos como um trabalhador para esta empresa. Faltam mochilas, pagamentos que não chegam, pedidos que não saem, usuários bloqueados ou recursos não ativados. [...]

            Agora estamos na clandestinidade. Somos cerca de 40 meninos e 1 menina. Não há cadeiras livres. Alguns de nós sentaram-se no chão. A palestra é ministrada por Viviana. Começa a operação de sedução. Viviana projeta um powerpoint. Ela promete que não pedalaremos mais do que 3 quilômetros, explica o comportamento do bom rappitendero, nos mostra os possíveis ganhos e, acima de tudo, vai nos empolgar com os principais benefícios. Trabalhar sem patrões, o número de horas que queremos e, como se não bastasse, temos os “benefícios de ser monotributista”. [...]

            Viviana diz para não nos preocuparmos com a caixa. Se quisermos, podemos alugá-la. Senão, faze-mos pedidos menores. [...]

            A única oportunidade em que o véu da falsa liberdade será transparente será quando Viviana falar da “taxa de aceitabilidade”. Assim que o pedido aparecer no aplicativo SoyRappi, são 30 segundos para decidir se aceita ou não a corrida. Quanto menos pedidos forem aceitos, menor será a taxa de aceitabilidade. E, quanto menor a taxa, menos pedidos aparecerão. [...] Também temos que aproveitar os horários de pico. De 12h às 16h e de 19h/20h às 24h/1h. Os ganhos para cada entrega variam de 40 a 60 pesos, dependendo - sempre em teoria - do número de quilômetros. [...]

            No Rappi há uma diferença entre dois grupos não antagônicos. Os venezuelanos, que representam mais de 90% da tropa da Rappitenda e costumam dedicar o dia inteiro a essa atividade. E os argentinos, uma clara minoria que costuma usar o aplicativo porque não se sustenta com seu trabalho formal. A etapa final é a ativação do usuário. Eu sou Id 9133. [...]

            Viajei 9 quilômetros. Fiz 125 pesos, que vou recolher quando o Rappi acertar os ganhos e fizer a transferência para a minha conta. [...]

            Eu, enquanto isso, continuo circulando sem um destino fixo. Tento horários diferentes, dias diferentes. É sexta-feira à noite. Estou indo pela ciclovia Billinghurst. Estou com o celular na mão. [...]

            Eu tenho que pegar algumas empanadas venezuelanas em El Salvador em 4400 e levá-los para Recoleta. O aplicativo me orienta através de uma série de etapas para que todos saibam onde estou e o que estou fazendo. Aviso primeiro que estou a caminho. Para o restaurante quando eu chegar. Ao cliente quando já tenho os produtos. Por fim, aviso que dei tudo. Estou pronto para mais. [...]

            Sou controlado por satélites, sou designado e não atribuído tarefas de um telefone, sou suspenso ou disparado de um tablet, mas pedalo uma bicicleta para o trabalho. Os novos modos de exploração parecem evoluir de forma bastante singular. O século 21 nas mãos das empresas, trabalhadores ancorados no século 19. O capital viaja no tempo. Pode ser o último filme de “De Volta para o Futuro”. O mais sinistro. O capitalismo moderno se move com tração de sangue. Economia de plataforma, dizem economistas e sociólogos. A uberização da economia, dizem outros. [...]

            Como cheguei depois de 35 minutos no último pedido, o Rappi vai premiar a entrega. O telefone toca novamente. “Temos uma ordem perfeita para você.” Tenho sorte hoje. [...]

            Mudança de dias. Trabalho ao meio-dia. Trabalho noturno. Trabalho dia e noite. Com e sem chuva. Não importa se há uma tempestade ou um sol brilhante. [...]

            O Rappi se alimenta, por um lado, de duas fragilidades muito específicas e complementares: a necessidade do imigrante e o desespero dos desempregados. De outro, a fetichização do imediatismo.[...]

    Fonte:

    https://www.revistaanfibia.com/capitalismo-traccion-sangre/. Acesso em: 05 jul. 2024. Texto adaptado para fins didáticos.

    GLOSSÁRIO:

    Monotributista: Uma forma de pagar impostos simplificada e de baixo custo utilizada por trabalhadores independentes da Argentina.

    Peso: Moeda argentina, como o Real no Brasil

    Telgopor: Material térmico semelhante a isopor.
    O texto lido apresenta uma série de críticas ao trabalho de entregas por aplicativos.

    Para tanto, por meio da narrativa, o autor elaborou o seguinte percurso argumentativo:
    Escolha uma alternativa para a questão c9dad510-cc
  • Linguagens

    Português

    Capitalismo com tração Sanguínea

    Emiliano Gullo foi trabalhar no Rappi por dez dias: ganhava 2300 pesos. Da ansiedade das primeiras ordens ao ódio a um emprego que paga mal e que mostra o pior do capitalismo: a exploração com cara boa. Entre GPS e algoritmos, uma crônica em primeira pessoa da aplicação mais selvagem da economia de plataformas.

    Por: Emiliano Gullo

            Espero que você seja pego por um feroz.

            Esperançosamente. Esperançosamente. Esperançosamente.

            Repito o desejo silencioso como um mantra de suportar a chuva e a raiva enquanto vejo como o cliente da rua Boulogne Sur Mer retorna ao elevador com seu nhoque estilo bolonhesa. Volta rápido e seco. Dou um passo em direção à calçada e fico encharcado de novo. As gotas chocalham muito na minha jaqueta de borracha. Ainda não tenho o piloto laranja. Isso vai acontecer em poucos dias, quando eu cumprir os 15 pedidos entregues. Agora fecho a caixa-mochila de telgopor e o último suspiro quente que a massa deixou antes de sair escapa. Quente e pontual.

            Em algumas semanas, o Rappi vai me pagar 50 pesos por essa remessa. O cliente não me deixou um centavo na ponta.

            No Rappi não há tempo para fúria. Ou sim: na bicicleta. [...]

            Antes da chuva, diante das ordens e das pedaladas frenéticas, as promessas de um emprego livre, sem patrões ou horários, de ganhos imediatos, me levam a um escritório em Villa Crespo, na Rua Castillo, 1200. É a primeira inaugurada pela empresa colombiana Rappi na Argentina, que chegou em março e está crescendo mais rápido que a inflação. [...] No final de agosto, já havia 9 mil rappitenderos na Argentina. Ou melhor, 9 mil trabalhadores não reconhecidos.Hoje já são mais de 12 mil sem assistência social, sem ART, nem férias, nem seguro, nem benefícios de qualquer natureza. [...] O diretor-presidente local da Rappi, Matías Casoy, diz que os rappintenderos não são trabalhadores formais, mas “microempreendedores porque têm seu tempo”. [...]

            Para treinar como rappitendero existem três horários, três dias por semana. Entre 40 e 50 pessoas estão amontoadas em cada fila; quase todos homens com menos de 40 anos de idade.[...] Há duas filas aqui. Uma para nós, os novos. Outra para ativos. [...]

            Sem caixa, não há trabalho. [...]

            As conversas na porta de Castillo giram em torno do labirinto burocrático. O segundo passo é a monotaxa. O Rappi dá 15 dias para que eles apresentem. Durante esse tempo, você pode trabalhar e acumular dinheiro para pedidos. Mas se o trabalhador não conseguir, a empresa bloqueia o usuário e não pode recolher seus ganhos. [...] Eu também vou ter que voltar várias vezes para resolver problemas cotidianos como um trabalhador para esta empresa. Faltam mochilas, pagamentos que não chegam, pedidos que não saem, usuários bloqueados ou recursos não ativados. [...]

            Agora estamos na clandestinidade. Somos cerca de 40 meninos e 1 menina. Não há cadeiras livres. Alguns de nós sentaram-se no chão. A palestra é ministrada por Viviana. Começa a operação de sedução. Viviana projeta um powerpoint. Ela promete que não pedalaremos mais do que 3 quilômetros, explica o comportamento do bom rappitendero, nos mostra os possíveis ganhos e, acima de tudo, vai nos empolgar com os principais benefícios. Trabalhar sem patrões, o número de horas que queremos e, como se não bastasse, temos os “benefícios de ser monotributista”. [...]

            Viviana diz para não nos preocuparmos com a caixa. Se quisermos, podemos alugá-la. Senão, faze-mos pedidos menores. [...]

            A única oportunidade em que o véu da falsa liberdade será transparente será quando Viviana falar da “taxa de aceitabilidade”. Assim que o pedido aparecer no aplicativo SoyRappi, são 30 segundos para decidir se aceita ou não a corrida. Quanto menos pedidos forem aceitos, menor será a taxa de aceitabilidade. E, quanto menor a taxa, menos pedidos aparecerão. [...] Também temos que aproveitar os horários de pico. De 12h às 16h e de 19h/20h às 24h/1h. Os ganhos para cada entrega variam de 40 a 60 pesos, dependendo - sempre em teoria - do número de quilômetros. [...]

            No Rappi há uma diferença entre dois grupos não antagônicos. Os venezuelanos, que representam mais de 90% da tropa da Rappitenda e costumam dedicar o dia inteiro a essa atividade. E os argentinos, uma clara minoria que costuma usar o aplicativo porque não se sustenta com seu trabalho formal. A etapa final é a ativação do usuário. Eu sou Id 9133. [...]

            Viajei 9 quilômetros. Fiz 125 pesos, que vou recolher quando o Rappi acertar os ganhos e fizer a transferência para a minha conta. [...]

            Eu, enquanto isso, continuo circulando sem um destino fixo. Tento horários diferentes, dias diferentes. É sexta-feira à noite. Estou indo pela ciclovia Billinghurst. Estou com o celular na mão. [...]

            Eu tenho que pegar algumas empanadas venezuelanas em El Salvador em 4400 e levá-los para Recoleta. O aplicativo me orienta através de uma série de etapas para que todos saibam onde estou e o que estou fazendo. Aviso primeiro que estou a caminho. Para o restaurante quando eu chegar. Ao cliente quando já tenho os produtos. Por fim, aviso que dei tudo. Estou pronto para mais. [...]

            Sou controlado por satélites, sou designado e não atribuído tarefas de um telefone, sou suspenso ou disparado de um tablet, mas pedalo uma bicicleta para o trabalho. Os novos modos de exploração parecem evoluir de forma bastante singular. O século 21 nas mãos das empresas, trabalhadores ancorados no século 19. O capital viaja no tempo. Pode ser o último filme de “De Volta para o Futuro”. O mais sinistro. O capitalismo moderno se move com tração de sangue. Economia de plataforma, dizem economistas e sociólogos. A uberização da economia, dizem outros. [...]

            Como cheguei depois de 35 minutos no último pedido, o Rappi vai premiar a entrega. O telefone toca novamente. “Temos uma ordem perfeita para você.” Tenho sorte hoje. [...]

            Mudança de dias. Trabalho ao meio-dia. Trabalho noturno. Trabalho dia e noite. Com e sem chuva. Não importa se há uma tempestade ou um sol brilhante. [...]

            O Rappi se alimenta, por um lado, de duas fragilidades muito específicas e complementares: a necessidade do imigrante e o desespero dos desempregados. De outro, a fetichização do imediatismo.[...]

    Fonte:

    https://www.revistaanfibia.com/capitalismo-traccion-sangre/. Acesso em: 05 jul. 2024. Texto adaptado para fins didáticos.

    GLOSSÁRIO:

    Monotributista: Uma forma de pagar impostos simplificada e de baixo custo utilizada por trabalhadores independentes da Argentina.

    Peso: Moeda argentina, como o Real no Brasil

    Telgopor: Material térmico semelhante a isopor.
    De acordo com o linguista José Luiz Fiorin (2010, p. 194): “Quando se atenua aquilo que de fato teria uma intensidade maior, ocorre um eufemismo”. Sabendo disso, responda:

    Em qual trecho do texto foi utilizado um eufemismo com a intenção discursiva de atenuar “o pior do capitalismo: a exploração com cara boa”?
    Escolha uma alternativa para a questão c9df6ea3-cc
  • Linguagens

    Português

    Capitalismo com tração Sanguínea

    Emiliano Gullo foi trabalhar no Rappi por dez dias: ganhava 2300 pesos. Da ansiedade das primeiras ordens ao ódio a um emprego que paga mal e que mostra o pior do capitalismo: a exploração com cara boa. Entre GPS e algoritmos, uma crônica em primeira pessoa da aplicação mais selvagem da economia de plataformas.

    Por: Emiliano Gullo

            Espero que você seja pego por um feroz.

            Esperançosamente. Esperançosamente. Esperançosamente.

            Repito o desejo silencioso como um mantra de suportar a chuva e a raiva enquanto vejo como o cliente da rua Boulogne Sur Mer retorna ao elevador com seu nhoque estilo bolonhesa. Volta rápido e seco. Dou um passo em direção à calçada e fico encharcado de novo. As gotas chocalham muito na minha jaqueta de borracha. Ainda não tenho o piloto laranja. Isso vai acontecer em poucos dias, quando eu cumprir os 15 pedidos entregues. Agora fecho a caixa-mochila de telgopor e o último suspiro quente que a massa deixou antes de sair escapa. Quente e pontual.

            Em algumas semanas, o Rappi vai me pagar 50 pesos por essa remessa. O cliente não me deixou um centavo na ponta.

            No Rappi não há tempo para fúria. Ou sim: na bicicleta. [...]

            Antes da chuva, diante das ordens e das pedaladas frenéticas, as promessas de um emprego livre, sem patrões ou horários, de ganhos imediatos, me levam a um escritório em Villa Crespo, na Rua Castillo, 1200. É a primeira inaugurada pela empresa colombiana Rappi na Argentina, que chegou em março e está crescendo mais rápido que a inflação. [...] No final de agosto, já havia 9 mil rappitenderos na Argentina. Ou melhor, 9 mil trabalhadores não reconhecidos.Hoje já são mais de 12 mil sem assistência social, sem ART, nem férias, nem seguro, nem benefícios de qualquer natureza. [...] O diretor-presidente local da Rappi, Matías Casoy, diz que os rappintenderos não são trabalhadores formais, mas “microempreendedores porque têm seu tempo”. [...]

            Para treinar como rappitendero existem três horários, três dias por semana. Entre 40 e 50 pessoas estão amontoadas em cada fila; quase todos homens com menos de 40 anos de idade.[...] Há duas filas aqui. Uma para nós, os novos. Outra para ativos. [...]

            Sem caixa, não há trabalho. [...]

            As conversas na porta de Castillo giram em torno do labirinto burocrático. O segundo passo é a monotaxa. O Rappi dá 15 dias para que eles apresentem. Durante esse tempo, você pode trabalhar e acumular dinheiro para pedidos. Mas se o trabalhador não conseguir, a empresa bloqueia o usuário e não pode recolher seus ganhos. [...] Eu também vou ter que voltar várias vezes para resolver problemas cotidianos como um trabalhador para esta empresa. Faltam mochilas, pagamentos que não chegam, pedidos que não saem, usuários bloqueados ou recursos não ativados. [...]

            Agora estamos na clandestinidade. Somos cerca de 40 meninos e 1 menina. Não há cadeiras livres. Alguns de nós sentaram-se no chão. A palestra é ministrada por Viviana. Começa a operação de sedução. Viviana projeta um powerpoint. Ela promete que não pedalaremos mais do que 3 quilômetros, explica o comportamento do bom rappitendero, nos mostra os possíveis ganhos e, acima de tudo, vai nos empolgar com os principais benefícios. Trabalhar sem patrões, o número de horas que queremos e, como se não bastasse, temos os “benefícios de ser monotributista”. [...]

            Viviana diz para não nos preocuparmos com a caixa. Se quisermos, podemos alugá-la. Senão, faze-mos pedidos menores. [...]

            A única oportunidade em que o véu da falsa liberdade será transparente será quando Viviana falar da “taxa de aceitabilidade”. Assim que o pedido aparecer no aplicativo SoyRappi, são 30 segundos para decidir se aceita ou não a corrida. Quanto menos pedidos forem aceitos, menor será a taxa de aceitabilidade. E, quanto menor a taxa, menos pedidos aparecerão. [...] Também temos que aproveitar os horários de pico. De 12h às 16h e de 19h/20h às 24h/1h. Os ganhos para cada entrega variam de 40 a 60 pesos, dependendo - sempre em teoria - do número de quilômetros. [...]

            No Rappi há uma diferença entre dois grupos não antagônicos. Os venezuelanos, que representam mais de 90% da tropa da Rappitenda e costumam dedicar o dia inteiro a essa atividade. E os argentinos, uma clara minoria que costuma usar o aplicativo porque não se sustenta com seu trabalho formal. A etapa final é a ativação do usuário. Eu sou Id 9133. [...]

            Viajei 9 quilômetros. Fiz 125 pesos, que vou recolher quando o Rappi acertar os ganhos e fizer a transferência para a minha conta. [...]

            Eu, enquanto isso, continuo circulando sem um destino fixo. Tento horários diferentes, dias diferentes. É sexta-feira à noite. Estou indo pela ciclovia Billinghurst. Estou com o celular na mão. [...]

            Eu tenho que pegar algumas empanadas venezuelanas em El Salvador em 4400 e levá-los para Recoleta. O aplicativo me orienta através de uma série de etapas para que todos saibam onde estou e o que estou fazendo. Aviso primeiro que estou a caminho. Para o restaurante quando eu chegar. Ao cliente quando já tenho os produtos. Por fim, aviso que dei tudo. Estou pronto para mais. [...]

            Sou controlado por satélites, sou designado e não atribuído tarefas de um telefone, sou suspenso ou disparado de um tablet, mas pedalo uma bicicleta para o trabalho. Os novos modos de exploração parecem evoluir de forma bastante singular. O século 21 nas mãos das empresas, trabalhadores ancorados no século 19. O capital viaja no tempo. Pode ser o último filme de “De Volta para o Futuro”. O mais sinistro. O capitalismo moderno se move com tração de sangue. Economia de plataforma, dizem economistas e sociólogos. A uberização da economia, dizem outros. [...]

            Como cheguei depois de 35 minutos no último pedido, o Rappi vai premiar a entrega. O telefone toca novamente. “Temos uma ordem perfeita para você.” Tenho sorte hoje. [...]

            Mudança de dias. Trabalho ao meio-dia. Trabalho noturno. Trabalho dia e noite. Com e sem chuva. Não importa se há uma tempestade ou um sol brilhante. [...]

            O Rappi se alimenta, por um lado, de duas fragilidades muito específicas e complementares: a necessidade do imigrante e o desespero dos desempregados. De outro, a fetichização do imediatismo.[...]

    Fonte:

    https://www.revistaanfibia.com/capitalismo-traccion-sangre/. Acesso em: 05 jul. 2024. Texto adaptado para fins didáticos.

    GLOSSÁRIO:

    Monotributista: Uma forma de pagar impostos simplificada e de baixo custo utilizada por trabalhadores independentes da Argentina.

    Peso: Moeda argentina, como o Real no Brasil

    Telgopor: Material térmico semelhante a isopor.
    Com a afirmação “O século 21 nas mãos das empresas, trabalhadores ancorados no século 19”, parágrafo 17º, o autor
    Escolha uma alternativa para a questão c9e1fa63-cc
  • Linguagens

    Português

    Leia o texto a seguir para responder a questão.


    TEXTO III


    O operário em construção


    Vinicius de Moraes


    Era ele que erguia casas

    Onde antes só havia chão.

    Como um pássaro sem asas

    Ele subia com as casas

    Que lhe brotavam da mão.

    Mas tudo desconhecia

    De sua grande missão:

    Não sabia, por exemplo

    Que a casa de um homem é um templo


    Um templo sem religião

    Como tampouco sabia

    Que a casa que ele fazia

    Sendo a sua liberdade

    Era a sua escravidão.

    De fato, como podia

    Um operário em construção

    Compreender por que um tijolo

    Valia mais do que um pão?


    [...] Mas ele desconhecia

    Esse fato extraordinário:

    Que o operário faz a coisa

    E a coisa faz o operário.

    De forma que, certo dia

    A mesa, ao cortar o pão 

    O operário foi tomado

    De uma súbita emoção

    Ao constatar assombrado


    Que tudo naquela mesa

    – Garrafa, prato, facão –

    Era ele quem os fazia

    Ele, um humilde operário,

    Um operário em construção.


    [...] E foi assim que o operário

    Do edifício em construção

    Que sempre dizia sim

    Começou a dizer não

    E aprendeu a notar coisas

    A que não dava atenção:

    Notou que sua marmita

    Era o prato do patrão

    Que sua cerveja preta

    Era o uísque do patrão

    Que seu macacão de zuarte

    Era o terno do patrão

    Que o casebre onde morava

    Era a mansão do patrão


    [...] Que sua imensa fadiga

    Era amiga do patrão.

    E o operário disse: Não!

    E o operário fez-se forte

    Na sua resolução.

    Como era de se esperar

    As bocas da delação

    Começaram a dizer coisas

    Aos ouvidos do patrão.


    [...] Dia seguinte, o operário

    Ao sair da construção

    Viu-se súbito cercado

    Dos homens da delação

    E sofreu, por destinado

    Sua primeira agressão.

    Teve seu rosto cuspido

    Teve seu braço quebrado

    Mas quando foi perguntado

    O operário disse: Não! 


    [...] Sentindo que a violência

    Não dobraria o operário

    Um dia tentou o patrão

    Dobrá-lo de modo vário.

    De sorte que o foi levando

    Ao alto da construção

    E num momento de tempo

    Mostrou-lhe toda a região

    E apontando-a ao operário

    Fez-lhe esta declaração:

    — Dar-te-ei todo esse poder

    E a sua satisfação


    [...] E o operário disse: Não!

    — Loucura! – gritou o patrão

    Não vês o que te dou eu?

    — Mentira! – disse o operário

    Não podes dar-me o que é meu.

    [...]


    Fonte: https://edisciplina.usp.br/mod/resource/view.php?id=5229060. Acesso em: 08 jul. 2024. (adaptado).



    Embora os textos I, II e III sejam de gêneros de texto diferentes, eles relacionam-se quanto à temática e à crítica presentes.

    Por isso, ao comparar os textos I, II e III, pode-se afirmar que
    Escolha uma alternativa para a questão c9e83ad1-cc
  • Linguagens

    Literatura

    Sete annos de pastor Jacob servia


    Luís Vaz de Camões


    Sete annos de pastor Jacob servia

    Labão, pae de Raquel, serrana bella:

    Mas n˜ao servia ao pae, servia a ella,

    Que a ella só por premio pertendia.


    Os dias na esperança de hum só dia

    Passava, contentando-se com vella:

    Porém o pae, usando de cautella,

    Em lugar de Raquel lhe deo a Lia.


    Vendo o triste Pastor que com enganos

    Assi lhe era negada a sua Pastora,

    Como se a não tivera merecida;


    Começou a servir outros sete annos,

    Dizendo: Mais servíra, senão fôra

    Para tão longo amor tão curta a vida.


    Fonte: CAMOES, Luís Vaz de. Obras Completas de Luis de Camões, Tomo II (Portuguese Edition). Edição do Kindle.

    Assinale a única alternativa INCORRETA sobre o poema de Gregório de Matos.
    Escolha uma alternativa para a questão c9ed33c7-cc
  • Linguagens

    Português

    Leia o Texto I a seguir, uma letra de canção do rapper Emicida, para resolver a questão.


    TEXTO I

    A ordem natural das coisas
    Emicida


    A merendeira desce, o ônibus sai
    Dona Maria já se foi, só depois é que o Sol nasce
    De madruga é que as aranha tece no breu
    E amantes ofegantes vão pro mundo de Morfeu 


    E o Sol só vem depois
    O Sol só vem depois
    É o astro rei, ok, mas vem depois
    O Sol só vem depois


    Anunciado no latir dos cães, no cantar dos galos
    Na calma das mães, que quer o rebento cem por cento
    E diz: Leva o documento, son
    Na São Paulo das manhã que tem lá seus Vietnã
    Na vela que o vento apaga, afaga quando passa
    A brasa dorme fria e só quem dança é a fumaça
    Orvalho é o pranto dessas planta no sereno


    A Lua já tá no Japão, como esse mundo é pequeno
    Farelos de um sonho bobinho que a luz contorna
    Dar um tapa no quartinho, esse ano sai a reforma
    O som das criança indo pra escola convence
    O feijão germina no algodão, a vida sempre vence
    As nuvens curiosas, como são
    Se vestem de cabelo crespo, ancião
    Caminham lento, lá pra cima, o firmamento
    Pois no fundo ela se finge de neblina
    Pra ver o amor dos dois mundos


    Fonte: EMICIDA. Disponível em:
    https://www.letras.mus.br/emicida/a-ordem-natural-das-coisas-
    part-mc-tha/. Acesso em: 08 jul. 2024.
    A partir da letra da música de Emicida “A ordem natural das coisas”, infere-se que:
    Escolha uma alternativa para a questão ec8b7b3f-3b
  • Linguagens

    Português

    Leia o Texto I a seguir, uma letra de canção do rapper Emicida, para resolver a questão.


    TEXTO I

    A ordem natural das coisas
    Emicida


    A merendeira desce, o ônibus sai
    Dona Maria já se foi, só depois é que o Sol nasce
    De madruga é que as aranha tece no breu
    E amantes ofegantes vão pro mundo de Morfeu 


    E o Sol só vem depois
    O Sol só vem depois
    É o astro rei, ok, mas vem depois
    O Sol só vem depois


    Anunciado no latir dos cães, no cantar dos galos
    Na calma das mães, que quer o rebento cem por cento
    E diz: Leva o documento, son
    Na São Paulo das manhã que tem lá seus Vietnã
    Na vela que o vento apaga, afaga quando passa
    A brasa dorme fria e só quem dança é a fumaça
    Orvalho é o pranto dessas planta no sereno


    A Lua já tá no Japão, como esse mundo é pequeno
    Farelos de um sonho bobinho que a luz contorna
    Dar um tapa no quartinho, esse ano sai a reforma
    O som das criança indo pra escola convence
    O feijão germina no algodão, a vida sempre vence
    As nuvens curiosas, como são
    Se vestem de cabelo crespo, ancião
    Caminham lento, lá pra cima, o firmamento
    Pois no fundo ela se finge de neblina
    Pra ver o amor dos dois mundos


    Fonte: EMICIDA. Disponível em:
    https://www.letras.mus.br/emicida/a-ordem-natural-das-coisas-
    part-mc-tha/. Acesso em: 08 jul. 2024.
    O uso dos dois pontos em “E diz: Leva o documento, son” indica a inserção de:
    Escolha uma alternativa para a questão ec9001ac-3b
  • Linguagens

    Português

    TEXTO I

    A ordem natural das coisas
    Emicida


    A merendeira desce, o ônibus sai
    Dona Maria já se foi, só depois é que o Sol nasce
    De madruga é que as aranha tece no breu
    E amantes ofegantes vão pro mundo de Morfeu 


    E o Sol só vem depois
    O Sol só vem depois
    É o astro rei, ok, mas vem depois
    O Sol só vem depois


    Anunciado no latir dos cães, no cantar dos galos
    Na calma das mães, que quer o rebento cem por cento
    E diz: Leva o documento, son
    Na São Paulo das manhã que tem lá seus Vietnã
    Na vela que o vento apaga, afaga quando passa
    A brasa dorme fria e só quem dança é a fumaça
    Orvalho é o pranto dessas planta no sereno


    A Lua já tá no Japão, como esse mundo é pequeno
    Farelos de um sonho bobinho que a luz contorna
    Dar um tapa no quartinho, esse ano sai a reforma
    O som das criança indo pra escola convence
    O feijão germina no algodão, a vida sempre vence
    As nuvens curiosas, como são
    Se vestem de cabelo crespo, ancião
    Caminham lento, lá pra cima, o firmamento
    Pois no fundo ela se finge de neblina
    Pra ver o amor dos dois mundos


    Fonte: EMICIDA. Disponível em:
    https://www.letras.mus.br/emicida/a-ordem-natural-das-coisas-
    part-mc-tha/. Acesso em: 08 jul. 2024.





    TEXTO II


    Imagem da questão de Português, Universidade Federal de Juiz de Fora - MG 2024, Interpretação de Textos



                                                                                                  Fonte: https://x.com/maxmacieldf/status/130185

                                                                    1089407561728?t=q7z9woZ4a6CCgeoq-LT Jg&s=19. Acesso em:

                                                                                                                                                          08 jul. 2024.




    A letra de canção de Emicida, Texto I, e o post, Texto II, aproximam-se com relação à temática.


    O trecho metafórico do Texto I que confirma essa afirmação é: 
    Escolha uma alternativa para a questão ec928963-3b
  • Linguagens

    Português

    A seguir, são apresentados quatro relatos retirados da dissertação de Mestrado intitulada “A reconfiguração da experiência de ser doméstica através da página ‘Eu, empregada doméstica’”, de Enise de Castro Silva, textos III, IV e V. Leia-os, para resolver a questão.


    TEXTO III


            [...] Filhos sem educação que faziam de mim gato e sapato a filha dessa minha patroa tinha minha idade 14 anos a época e ela até me batia mas isso eu não deixava revidava então era uma brigaiada mas como eles não podiam perder a escravinha não me mandavam embora só ameaçavam!



    TEXTO IV


            Sem falar em outro doutorzinho que expõe sua empregada ao ridículo lá no meu trabalho ele sai mostrando a foto do perfil dela do whatsap para seus outros colegas e debochando. Olha só essa foto que cara de pobre que pose de vagabunda só podia ser doméstica mesmo!



    TEXTO V


            [...] a D. da casa é uma dondoca mesquinha que vive pra gastar o dinheiro do marido e ser servida. Um dia na hora do jantar usei um pouco de pimenta do reino dela para colocar no meu prato. A mulher fez um escândalo disse que aquilo era muito caro que aquelas pimentas era dela e da família dela. Não era pra eu usar na comida da empregada. Onde já se viu? Uma pimenta de 17 reais (só porque vinha naqueles moedores) a empregadinha colocar no prato. No dia seguinte comprei as pimentas com moedor mais caras do supermercado levei pra casa dela. Usava em todas as comidas da casa colocava na mesa a minha pimenta oferecia para os convidados dela usava a rodo. Eu sentia o constrangimento e a raiva dela mas ela não podia fazer nada eu estava sendo legal. Uns 3 anos depois vocês não sabem o que eu encontro vencida bem escondidinha. AS PIMENTAS. Era tão caras e ela deixou apodrecer.



    Trechos retirados de SILVA, Enise de Castro. A reconfiguração da experiência de ser doméstica através da página “Eu, empregada doméstica”. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal de Minas Gerais, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, 2019, p. 71-88. Textos adaptados para fins didáticos.




    O Texto VI a seguir é um trecho do livro “Da fala para a escrita – atividades de retextualização”, escrito pelo linguista brasileiro Luiz Antônio Marcuschi acerca da relação entre gêneros de textos orais e escritos. Leia-o com atenção para responder a questão.


    TEXTO VI

    Da fala para a escrita – atividades de retextualização


    Luiz Antônio Marcuschi


            A hipótese que defendemos supõe que: as diferenças entre fala e escrita se dão dentro do continuum tipológico das práticas sociais de produção dos gêneros textuais e não na relação dicotômica [oposta] de dois polos opostos. [...] Na realidade, temos uma série de textos produzidos em condições naturais e espontâneas nos mais diversos domínios discursivos das duas modalidades da língua – oral e escrita. Com isto, descobrimos que, comparando uma carta pessoal em estilo descontraído (texto escrito) com uma narrativa oral espontânea (texto oral), haverá menos diferenças do que entre a narrativa oral e um texto acadêmico escrito. Por outro lado, uma conferência universitária preparada com cuidado terá maior semelhança com textos escritos do que com uma conversação espontânea. Os textos se entrecruzam sob muitos aspectos e por vezes constituem domínios mistos, mesclando aspectos da oralidade em textos escritos e da escrita em textos orais. [...] Com isso, toda vez que emprego a palavra língua não me refiro a um sistema de regras determinado, abstrato, regular e homogêneo, nem a relações linguísticas imanentes. Ao contrário, minha concepção de língua pressupõe um fenômeno heterogêneo (com múltiplas formas de manifestação), variável (dinâmico, suscetível a mudanças), histórico e social (fruto de práticas sociais e históricas), indeterminado sob o ponto de vista semântico e sintático (submetido às condições de produção) e que se manifesta em situações de uso concretas como texto e discurso. [...]


     Fonte: MARCUSCHI, Luiz Antônio. Da fala para a escrita – atividades de retextualização. São Paulo: Cortez, 2010. p. 37-38. Texto adaptado para fins didáticos
    Marcuschi, autor do texto VI, defende uma hipótese sobre a linguagem. Sabendo disso, pode-se afirmar que os textos III, IV, V - escritos por empregadas domésticas na página de rede social “Eu, empregada”:



    Escolha uma alternativa para a questão ec950ac3-3b