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Instituição

Questões: Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Fluminense (IFF) — com gabarito

277 questões de Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Fluminense (IFF), de 2016 a 2018. Cada uma tem página própria, com enunciado completo, alternativas e gabarito — e dá para responder na própria página.

  • 277 questões
  • 3 provas

Resultados: 64 questões

Página 1 de 4

  • Linguagens

    Português

    As palavras pitoresca, alastrou, matriz e aquela, como classe de palavras, são, respectivamente:
    Escolha uma alternativa para a questão c6e98e62-d8
  • Linguagens

    Português

    Imagem da questão de Português, IFF 2018, Interpretação de Textos


    Um texto pode estabelecer relação com outro, reafirmando suas ideias ou contrapondo-as.


    O texto II é retomado de modo a reafirmar sua ideia por qual fragmento?

    Escolha uma alternativa para a questão 2dc95991-cc
  • Linguagens

    Português

    Imagem da questão de Português, IFF 2017, Interpretação de Textos

    Num discurso, entrelaçam-se diferentes vozes a fim de trazer comprovação dos fatos e credibilidade ao texto. Essa polifonia se dá por meio de argumentos de autoridade, dados estatísticos, exemplos, dentre outros recursos.

    No texto 3, aparecem fatos que podem se distinguir das opiniões relativas a esses fatos.


    Assinale a opção em que se evidencia uma opinião.

    Escolha uma alternativa para a questão 4c46858b-b1
  • Linguagens

    Português

    Texto 2

    FELICIDADE REALISTA
    Martha Medeiros
    De norte a sul, de leste a oeste, todo mundo quer ser feliz. Não é tarefa das mais fáceis. A princípio, bastaria ter saúde, dinheiro e amor, o que já é um pacote louvável, mas nossos desejos são ainda mais complexos.
    Não basta que a gente esteja sem febre: queremos, além de saúde, ser magérrimos, sarados, irresistíveis. Dinheiro? Não basta termos para pagar o aluguel, a comida e o cinema: queremos a piscina olímpica, a bolsa Louis Vitton e uma temporada num spa cinco estrelas. E quanto ao amor? Ah, o amor... não basta termos alguém com quem podemos conversar, dividir uma pizza e fazer sexo de vez em quando. Isso é pensar pequeno: queremos AMOR, todinho maiúsculo. Queremos estar visceralmente apaixonados, queremos ser surpreendidos por declarações e presentes inesperados, queremos jantar à luz de velas de segunda a domingo, queremos sexo selvagem e diário, queremos ser felizes assim e não de outro jeito.
    É o que dá ver tanta televisão. Simplesmente esquecemos de tentar ser felizes de uma forma mais realista.
    [...]
    MEDEIROS, Martha. Felicidade Crônica. 15.ed. Porto Alegre: L&PM, 2016, p. 35.

    Sobre o texto 2, é possível inferir que
    Escolha uma alternativa para a questão 4c3f7a8e-b1
  • Linguagens

    Português

    Leia a charge abaixo para responder à questão. 


    Imagem da questão de Português, IFF 2016, Interpretação de Textos

    O efeito de humor da charge é causado:
    Escolha uma alternativa para a questão c6f3b7e8-d8
  • Linguagens

    Português

    Texto 1


    Os cinco maiores problemas ambientais do
    mundo e suas soluções


    Poluição do ar, desmatamento, extinção de espécies, degradação do solo e superpopulação representam grandes ameaças que devem ser resolvidas para que o planeta continue sendo um lar para todas as espécies.

    (…)

    Desmatamento

    O problema: florestas ricas em espécies estão sendo destruídas, especialmente nos trópicos, para muitas vezes abrir espaço para criação de gado, plantações de soja ou de óleo de palma, ou para outras monoculturas agrícolas. Cerca de 30% da área terrestre do planeta é coberta por florestas – isso é cerca de metade do que existia antes de o início da agricultura, 11 mil anos atrás. Cerca de 7,3 milhões de hectares de floresta são destruídos a cada ano, principalmente nos trópicos.
    Florestas tropicais costumavam cobrir cerca de 15% da área terrestre do planeta. Atualmente elas cobrem de 6% a 7%. Grande parte do que sobrou foi degradado pela derrubada de árvores ou pelas queimadas. As florestas naturais não atuam apenas como reservas da biodiversidade, elas também são reservatórios, que mantêm o carbono fora da atmosfera e dos oceanos.
    Soluções: conservar o que resta das florestas naturais e recuperar as áreas degradadas com o replantio de espécies arbóreas nativas. Isso exige um governo forte – só que muitos países tropicais ainda estão em desenvolvimento, têm populações crescentes, carecem de um Estado de Direito e sofrem com nepotismo generalizado e corrupção quando se trata do uso da terra.

    (...)

    Disponível em: noticias.uol.com.br/ciencia-e-saude. Acesso em: 26 out. 2016.
    Na frase O povo está nas ruas, o vocábulo povo, de acordo com as classes gramaticais da nossa língua, é classificado como um substantivo:
    Escolha uma alternativa para a questão ac83820d-d8
  • Linguagens

    Inglês

    Nas frases a seguir, observe os sujeitos em destaque. Em seguida, verifique qual a sequência correta dos pronomes pessoais que podem substituí-los.

    I- My cousin and my sister are students.
    II- John likes to swim.
    III- Mary buys a dictionary every year.
    IV- Peter and I travel to the beach.
    V- My cat drinks milk every day.

    Assinale a alternativa correta.
    Escolha uma alternativa para a questão a64ce5a6-d8
  • Linguagens

    Português

    Leia o texto a seguir para responder à questão.

    Uma campanha alegre

    O País perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos e os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido, nem instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não existe nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Já se não crê na honestidade dos homens públicos. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos vão abandonados a uma rotina dormente. O desprezo pelas ideias aumenta em cada dia. Vivemos todos ao acaso. Perfeita, absoluta indiferença de cima a baixo! Todo o viver espiritual, intelectual, parado. O tédio invadiu as almas. A mocidade arrasta-se, envelhecida, das mesas das secretarias para as mesas dos cafés. A ruína econômica cresce, cresce, cresce... O comércio definha. A indústria enfraquece. O salário diminui. A renda diminui. O Estado é considerado na sua ação fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo. Neste salve-se quem puder, a burguesia proprietária de casas explora aluguel. A agiotagem explora o juro. (…) A intriga política alastra-se por sobre a sonolência enfastiada do País. Apenas a devoção perturba o silêncio da opinião, com padre-nossos maquinais.
    Não é uma existência, é uma expiação. 

    Disponível em: QUEIROZ, E. Obras de Eça de Queiroz. Vol. III. Porto: Lello & Irmão, [s.d.], p. 959-960. 
    O trecho Não é uma existência, é uma expiação, que compõe o último parágrafo do texto, poderia ser substituído, sem perda de sentido, pela seguinte alternativa:
    Escolha uma alternativa para a questão dd2649e2-d8
  • Linguagens

    Inglês

    How can cities be made more accessible for disabled people?

    Europe is an urban continent. The vast majority of the EU population – four out of every five people – live in a town or city. For the roughly 80 million EU citizens who have some form of disability, navigating the bustling maze of a city can pose all sorts of challenges. People with disabilities would often like to be more mobile and independent, so are there better ways to design cities so they are more accessible for everybody?
    There might be no wheelchair lifts on local buses, or no Braille on signposts, or perhaps there are annoying steps that block people in wheelchairs (or people with prams, or mobility strollers) from entering a building. Should city planners and architects consider these issues more carefully? And, where there are accessibility challenges, can technology help us overcome them?
    How can cities be made more accessible? Can new technology help us to achieve that goal? Let us know your thoughts and comments in the form below and we’ll take them to policymakers and experts for their reactions!  

    Figura 1 de 11 da questão de Inglês, IFF 2016, Tradução | Translation
    How can cities be made more accessible for disabled people? I see it the other way around. How can disabled people adapt better and faster to evolving cities? No offence, but I see it as a more rational solution. 

    Figura 2 de 11 da questão de Inglês, IFF 2016, Tradução | Translation
    More rational? We already pay out for expensive wheelchairs and mobility aids as it, without being expected to pay more. Especially in this era when disabilities benefits are being stripped away from us. Forward planning is what needed to ensure that all European towns and cities are accessible to all. 

    Figura 3 de 11 da questão de Inglês, IFF 2016, Tradução | Translation
    In many European cities the biggest access problem is finding an accessible toilet. Either because they don’t exist or because they are hard to find. 

    Figura 4 de 11 da questão de Inglês, IFF 2016, Tradução | Translation
    A good starting point is to start PLANNING! It is as simple as that, PLAN for the accessibility of disabled and limited mobility people. The European population is aging, in case planners have not noticed, and they also need and will continue needing more accessibility. There has been no planning. Only bandaids applied here and there.  

    Figura 5 de 11 da questão de Inglês, IFF 2016, Tradução | Translation
    It would take a lot more than a few dropped curbs and disabled spaces to make any impact and to be brutally honest, how can you make things any easier for the disabled when even the able bodied struggle to negotiate many cities at certain times of the day? 

    Figura 6 de 11 da questão de Inglês, IFF 2016, Tradução | Translation
    Necessary ramps on beaches! In Greece, they have a University that manufactures specific ramps beaches and is funded by donors. 

    Figura 7 de 11 da questão de Inglês, IFF 2016, Tradução | Translation
    Please add to the list accessible toilet facilities. 

    Figura 8 de 11 da questão de Inglês, IFF 2016, Tradução | Translation
    Maybe Tokio is a good example, but Japan is not. Most train/metro stations do not have a lift. 

    Figura 9 de 11 da questão de Inglês, IFF 2016, Tradução | Translation
    Hey, we’re living in the 21st century! Isn’t it better to make robotized aids for the people with disabilities in such a way that they can go anywhere a healthy person can, instead of making the environment accessible?
     
    Figura 10 de 11 da questão de Inglês, IFF 2016, Tradução | Translation
    Sometimes the issue is having adequate, reliable and affordable transportation accessible to all in one’s community. I hardly go anywhere because I don’t drive. 

    (Adapted from http://www.debatingeurope.eu/2016/04/05/how-can-cities-be-made-more-accessible-for-disabled people/#.V_vRCOUrLIU, accessed in September/2016) 

    Figura 11 de 11 da questão de Inglês, IFF 2016, Tradução | Translation

    (source: https://br.pinterest.com/pin/444167581971867250/, accessed in Septmber/2016.)




    Qual das frases a seguir melhor resume a mensagem do texto acima?

    Escolha uma alternativa para a questão 5ba3534f-b0
  • Linguagens

    Inglês

    Imagem da questão de Inglês, IFF 2018, Interpretação de texto | Reading comprehension


          Shares in the music streaming firm Spotify will be publicly traded for the first time when the firm debuts on the New York market. 

          The flotation marks a turning point for the firm that after 12 years has not yet made a profit. Spotify's listing, which could value it at $20billion (£14 billion), is unconventional: it is not issuing any new shares. Instead, shares held by the firm's private investors will be made available. 

          What was once an small upstart Swedish music platform, has grown rapidly in recent years, adding millions of users to its free-to-use ad-funded service, and converting many of them to its more lucrative subscription service. It's used in 61 countries, has 159 million active users and a library of 35 million songs. They developed the platform in 2006 as a response to the growing piracy problem the music industry was facing. It is now the global leader among music streaming companies, boasting 71 million paying customers, twice as many as runner-up Apple. 

          What Spotify must do to survive? So far costs and fees to recording companies for the rights to play their music, have exceeded Spotify's revenues. And some analysts predict the listing will speed-up Spotify's race towards profitability. "When that's done we'll see a bit of a shift in strategy and direction." says Mark Mulligan at MIDia Research. The firm made a commitment to investors who backed it as the company was growing, that they would be given the chance to cash in their investment. The streaming giant has filed for paperwork to start trading its shares publicly on the New York Stock Exchange. 

          What will Spotify look like in the future? So what will change? "So far they've been treading a very fine line between being the dramatic new future of the music business but simultaneously being the biggest friend of the old music industry by giving record labels a platform to build out of decline," says Mr Mulligan. 

          "To go to the next phase [Spotify] will have to stop being so friendly to the record companies." More than half of Spotify's revenue goes directly to the record companies. Chris Hayes expects Spotify to evolve. "I think over time they're going to have to diversify their offering." he says, helping to set them apart from a sea of rival streaming services. They have already moved into podcasts and producing original music. They may well start to offer more original content like Taylor Swift's recent video which was only made available on the platform, says Chris Hayes. 

          So can Spotify make money? The firm's first operating profit (not including debt financing) is on the horizon for 2019 based on current trends, according to Mr Hayes. "The strategy has always been the free tier, but it is a funnel through which to persuade free users to upgrade to the subscription tier which is lucrative.

          "As long as subscriptions continue to grow it should eventually become profitable. "Spotify's rivals are the biggest companies in the world with bottomless pockets," he says, and they are using music as a way to sell their core products, not as a business proposition in itself. 

          Apple, Amazon and Google are also in the streaming game and - unlike Spotify - all sell devices on which consumers can listen to music. And while Spotify has signed deals with all the "big three" record labels - Warner, Universal and Sony - it is the music executives that still hold the bargaining chips.

    Adapted from: http://www.bbc.com/news/business-43613398. Acesso em: 03 abr. 2018. 

    Observe as frases retiradas do texto I e assinale a alternativa em que a referência contextual dos termos destacados está INCORRETA:
    Escolha uma alternativa para a questão 2def5f0d-cc
  • Linguagens

    Inglês

    Imagem da questão de Inglês, IFF 2018, Interpretação de texto | Reading comprehension


          Shares in the music streaming firm Spotify will be publicly traded for the first time when the firm debuts on the New York market. 

          The flotation marks a turning point for the firm that after 12 years has not yet made a profit. Spotify's listing, which could value it at $20billion (£14 billion), is unconventional: it is not issuing any new shares. Instead, shares held by the firm's private investors will be made available. 

          What was once an small upstart Swedish music platform, has grown rapidly in recent years, adding millions of users to its free-to-use ad-funded service, and converting many of them to its more lucrative subscription service. It's used in 61 countries, has 159 million active users and a library of 35 million songs. They developed the platform in 2006 as a response to the growing piracy problem the music industry was facing. It is now the global leader among music streaming companies, boasting 71 million paying customers, twice as many as runner-up Apple. 

          What Spotify must do to survive? So far costs and fees to recording companies for the rights to play their music, have exceeded Spotify's revenues. And some analysts predict the listing will speed-up Spotify's race towards profitability. "When that's done we'll see a bit of a shift in strategy and direction." says Mark Mulligan at MIDia Research. The firm made a commitment to investors who backed it as the company was growing, that they would be given the chance to cash in their investment. The streaming giant has filed for paperwork to start trading its shares publicly on the New York Stock Exchange. 

          What will Spotify look like in the future? So what will change? "So far they've been treading a very fine line between being the dramatic new future of the music business but simultaneously being the biggest friend of the old music industry by giving record labels a platform to build out of decline," says Mr Mulligan. 

          "To go to the next phase [Spotify] will have to stop being so friendly to the record companies." More than half of Spotify's revenue goes directly to the record companies. Chris Hayes expects Spotify to evolve. "I think over time they're going to have to diversify their offering." he says, helping to set them apart from a sea of rival streaming services. They have already moved into podcasts and producing original music. They may well start to offer more original content like Taylor Swift's recent video which was only made available on the platform, says Chris Hayes. 

          So can Spotify make money? The firm's first operating profit (not including debt financing) is on the horizon for 2019 based on current trends, according to Mr Hayes. "The strategy has always been the free tier, but it is a funnel through which to persuade free users to upgrade to the subscription tier which is lucrative.

          "As long as subscriptions continue to grow it should eventually become profitable. "Spotify's rivals are the biggest companies in the world with bottomless pockets," he says, and they are using music as a way to sell their core products, not as a business proposition in itself. 

          Apple, Amazon and Google are also in the streaming game and - unlike Spotify - all sell devices on which consumers can listen to music. And while Spotify has signed deals with all the "big three" record labels - Warner, Universal and Sony - it is the music executives that still hold the bargaining chips.

    Adapted from: http://www.bbc.com/news/business-43613398. Acesso em: 03 abr. 2018. 

    Em textos jornalísticos, é comum usarmos frases com sentido figurado, metáforas e outras figuras de linguagem. Das expressões a seguir, retiradas do texto I, marque a alternativa que se apresenta com o sentido denotativo:
    Escolha uma alternativa para a questão 2deb4ab0-cc
  • Linguagens

    Português

    A apropriação textual pode ser realizada de diversas formas: paráfrases, discurso direto, discurso indireto, citações, entre outros. Marque a alternativa que NÃO justifica corretamente a forma de apropriação citada e exemplificada:
    Escolha uma alternativa para a questão 2ddc4876-cc
  • Linguagens

    Português

    Texto IV

    Felicidade clandestina

        Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria. Pouco aproveitava. E nós, menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como "data natalícia" e "saudade".

        Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.

        Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.

        Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria. Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.

        No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disseme que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez. Mas não ficou simplesmente 

    nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranquilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do "dia seguinte" com ela ia se repetir com meu coração batendo.

        E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra. Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.

        Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!

        E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: "E você fica com o livro por quanto tempo quiser." Entendem? Valia mais do que me dar o livro: "pelo tempo que eu quisesse" é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.

        Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo. 

        Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.

        Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.

        Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.


                                              LISPECTOR, Clarice. Felicidade Clandestina. In: Felicidade Clandestina: contos.                                           Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 1998 (adaptado).



    Texto V

    A busca pela felicidade está nos tornando infelizes e as redes sociais não estão ajudando

        A opinião é do pianista James Rhodes, "Não somos destinados a ser felizes o tempo inteiro", diz ele no quadro opinativo Viewsnight, do programa da BBC Newsnight, afirmando que a busca pela felicidade a todo custo está nos tornando infelizes.

        Na visão do pianista, "a busca pela felicidade parece nobre, mas é fundamentalmente falha".

        Ele considera que "a felicidade não é algo a se perseguir mais do que a tristeza, a raiva, a esperança ou o amor".

        A felicidade "é, simplesmente, um estado de ser, que é fluido, passageiro e às vezes inatingível".

        Negar a existência de outros sentimentos, nem sempre considerados positivos, afirma, não é o melhor caminho. [...]

        Rhodes observa que estamos em uma era de ritmo sem precedentes no dia a dia e que "nossa mentalidade 'sempre ligada' criou um ambiente impraticável e insustentável".

        "Estamos em apuros", diz ele. "E as selfies cuidadosamente escolhidas e postadas no Instagram; a perfeição física espalhada por todas as mídias – inalcançável e extremamente 'photoshopada' – e o anonimato das redes sociais, onde descarregamos nossa ira, não estão ajudando".


    "Sentimentos desafiadores"

        Rhodes chama a atenção para os diferentes tipos de sentimento que permeiam a vida e nem todos têm a ver com satisfação ou alegrias. Há também o outro lado. 

        "Todos nos sentimos alternadamente ansiosos, para baixo, tranquilos, aflitos, contentes. Ocasionalmente, alguns de nós podemos nos perder no continuum em direção a depressão, ao transtorno de estresse pós-traumático e a pensamentos suicidas", diz.

        Mas pondera: "Só porque não estamos felizes não significa que estamos infelizes".

        Para o pianista, assim é a complexidade da vida: "repleta de sentimentos e situações tumultuados, desafiadores e difíceis".

        "Negá-los, resistir a eles, se desculpar por eles ou fingir que não existem é contraintuitivo e contraproducente".

        Foi justamente o caminho contrário, o do reconhecimento de que "coisas ruins também acontecem" e de que é preciso falar sobre elas que ele decidiu trilhar há alguns anos – quando resolveu contar em livro problemas que enfrentou ao longo da vida.


    Disponível em: http://www.bbc.com/portuguese/salasocial-42680542. Acesso em: 06 abr. 2018 (adaptado). 

    Assinale a alternativa que avalia CORRETAMENTE as assertivas seguintes:


    I. No texto IV, caso seja retirado o acento gráfico de “histórias”, não haverá alteração semântica tampouco morfológica, o que comprova a acentuação gráfica ser fundamental para a coerência textual.

    II. Corroborando ser a ortografia recurso importante para se manter a coerência de um enunciado, no texto IV, em “...espiava em silêncio...”, se a palavra em negrito for substituída por seu homônimo homófono “expiava”, manter-se-á o sentido original da expressão.

    III. “Rhodes chama a atenção para os diferentes tipos de sentimento que permeiam a vida...” (texto V) – No período transcrito, o acréscimo de uma vírgula antes do pronome relativo “que” mudará o caráter restritivo da oração. Isso demonstra que a pontuação contribui para a coerência do texto.

    Escolha uma alternativa para a questão 2dd89fcf-cc
  • Linguagens

    Português

    Texto I


    Feliz por nada 


    Geralmente, quando uma pessoa exclama “Estou tão feliz!”, é porque engatou um novo amor, conseguiu uma promoção, ganhou uma bolsa de estudos, perdeu os quilos que precisava ou algo do tipo. Há sempre um porquê. Eu costumo torcer para que essa felicidade dure um bom tempo, mas sei que as novidades envelhecem e que não é seguro se sentir feliz apenas por atingimento de metas. Muito melhor é ser feliz por nada.


    Feliz por estar com as dívidas pagas. Feliz porque alguém o elogiou. Feliz porque existe uma perspectiva de viagem daqui a alguns meses. Feliz porque você não magoou ninguém hoje. Feliz porque daqui a pouco será hora de dormir e não há lugar no mundo mais acolhedor do que sua cama. Mesmo sendo motivos prosaicos, isso ainda é ser feliz por muito.


    Feliz por nada, nada mesmo? Talvez passe pela total despreocupação com essa busca. Essa tal de felicidade inferniza. “Faça isso, faça aquilo”. A troco? Quem garante que todos chegam lá pelo mesmo caminho?


    Particularmente, gosto de quem tem compromisso com a alegria, que procura relativizar as chatices diárias e se concentrar no que importa pra valer, e assim alivia o seu cotidiano e não atormenta o dos outros. Mas não estando alegre, é possível ser feliz também. Não estando “realizado”, também. Estando triste, felicíssimo igual. Porque felicidade é calma. Consciência. É ter talento para aturar o inevitável, é tirar algum proveito do imprevisto, é ficar debochadamente assombrado consigo próprio: como é que eu me meti nessa, como é que foi acontecer comigo? Pois é, são os efeitos colaterais de se estar vivo.


    Benditos os que conseguem se deixar em paz. Os que não se cobram por não terem cumprido suas resoluções, que não se culpam por terem falhado, não se torturam por terem sido contraditórios, não se punem por não terem sido perfeitos. Apenas fazem o melhor que podem.


    Se é para ser mestre em alguma coisa, então que sejamos mestres em nos libertar da patrulha do pensamento. De querer se adequar à sociedade e ao mesmo tempo ser livre. Adequação e liberdade simultaneamente? É uma senhora ambição. Demanda a energia de uma usina. Para que se consumir tanto?


    A vida não é um questionário de Proust. Você não precisa ter que responder ao mundo quais são suas qualidades, sua cor preferida, seu prato favorito, que bicho seria. Que mania de se autoconhecer. Chega de se autoconhecer. Você é o que é, um imperfeito bemintencionado e que muda de opinião sem a menor culpa.


    Ser feliz por nada talvez seja isso.


    MEDEIROS, Martha. Felicidade crônica. 15.ed. Porto Alegre: L&PM, 2016. p. 86-87 


    Imagem da questão de Português, IFF 2018, Interpretação de Textos


    Texto III


    O conceito felicidade para os filósofos 


    A felicidade é particular para cada ser humano, é uma questão muito individual. Mesmo que a ideia compartilhada entre a maior parte das pessoas seja que esse conceito é construído com saúde, amor, dinheiro, entre outros itens.

    A filosofia que investiga e se dedica para definir e esclarecer as ideias do ser humano é excelente para refletir sobre a felicidade. E as primeiras reflexões de filosofia sobre ética continham o assunto felicidade, na Grécia antiga.

    A mais antiga referência de filosofia sobre esse tema é o fragmento do texto de Tales de Mileto, este que viveu entre 7 a.C. e 6 a.C. Para Tales, ser feliz é ter corpo forte e são, boa sorte e alma formada.

    Para Sócrates, essa ideia teve rumo novo, ele postulou que não havia relação da felicidade com somente satisfação dos desejos e necessidades do corpo, mas que o homem não é apenas corpo, e sim em principal, alma. Felicidade seria o bem da alma, através da conduta justa e virtuosa.

    E já para Kant, a felicidade está no âmbito do prazer e desejo, e não há relação com Ética, logo não seria tema para investigar de maneira filosófica.

    Mas ao que cerca a língua inglesa, na época de Kant, a felicidade teve destaque no pensamento político e sua busca passou a ser “direito do homem”, e isso é consignado na Constituição dos Estados Unidos da América, de 1787, redigida de acordo com o Iluminismo.

    No século 20, surge uma nova reflexão sobre o tema do inglês Bertrand Russel com a obra A Conquista da Felicidade, com método da investigação lógica; para Bertrand, por síntese, ser feliz é eliminar o egocentrismo. 

    [...]


    Disponível em:http://www.afilosofia.com.br/post/o-conceito-felicidade-para-os-filosofos/542Acesso em: 06 abr. 2018 (adaptado). 

    Os textos I, III e IV apresentam o tema da felicidade sob vários pontos de vista. A maior parte dos “conceitos” expostos apoia-se numa relação de conquista de algo, apenas um dos textos apresenta uma visão diferente. Aponte-a:
    Escolha uma alternativa para a questão 2dd504db-cc
  • Linguagens

    Português

    Texto V


    A busca pela felicidade está nos tornando infelizes e

    as redes sociais não estão ajudando


    A opinião é do pianista James Rhodes, "Não somos destinados a ser felizes o tempo inteiro", diz ele no quadro opinativo Viewsnight, do programa da BBC Newsnight, afirmando que a busca pela felicidade a todo custo está nos tornando infelizes.

    Na visão do pianista, "a busca pela felicidade parece nobre, mas é fundamentalmente falha".

    Ele considera que "a felicidade não é algo a se perseguir mais do que a tristeza, a raiva, a esperança ou o amor".

    A felicidade "é, simplesmente, um estado de ser, que é fluido, passageiro e às vezes inatingível".

    Negar a existência de outros sentimentos, nem sempre considerados positivos, afirma, não é o melhor caminho. [...]

    Rhodes observa que estamos em uma era de ritmo sem precedentes no dia a dia e que "nossa mentalidade 'sempre ligada' criou um ambiente impraticável e insustentável".

    "Estamos em apuros", diz ele. "E as selfies cuidadosamente escolhidas e postadas no Instagram; a perfeição física espalhada por todas as mídias – inalcançável e extremamente 'photoshopada' – e o anonimato das redes sociais, onde descarregamos nossa ira, não estão ajudando".


    "Sentimentos desafiadores"


    Rhodes chama a atenção para os diferentes tipos de sentimento que permeiam a vida e nem todos têm a ver com satisfação ou alegrias. Há também o outro lado.

    "Todos nos sentimos alternadamente ansiosos, para baixo, tranquilos, aflitos, contentes. Ocasionalmente, alguns de nós podemos nos perder no continuum em direção a depressão, ao transtorno de estresse pós-traumático e a pensamentos suicidas", diz.

    Mas pondera: "Só porque não estamos felizes não significa que estamos infelizes".

    Para o pianista, assim é a complexidade da vida: "repleta de sentimentos e situações tumultuados, desafiadores e difíceis".

    "Negá-los, resistir a eles, se desculpar por eles ou fingir que não existem é contraintuitivo e contraproducente".

    Foi justamente o caminho contrário, o do reconhecimento de que "coisas ruins também acontecem" e de que é preciso falar sobre elas que ele decidiu trilhar há alguns anos – quando resolveu contar em livro problemas que enfrentou ao longo da vida.

    Disponível em: http://www.bbc.com/portuguese/salasocial-42680542. Acesso em: 06 abr. 2018 (adaptado).


    Os sufixos, elementos mórficos, atribuem novos sentidos aos radicais a que são agregados. Considerando o contexto em que se insere e as afirmações que seguem, julgue a opção CORRETA em relação ao termo destacado no trecho:


    "E as selfies cuidadosamente escolhidas e postadas no Instagram; a perfeição física espalhada por todas as mídias – inalcançável e extremamente 'photoshopada' – e o anonimato das redes sociais, onde descarregamos nossa ira, não estão ajudando".

    Escolha uma alternativa para a questão 2dd0fd92-cc
  • Linguagens

    Português

    Texto III


                            O conceito felicidade para os filósofos


          A felicidade é particular para cada ser humano, é uma questão muito individual. Mesmo que a ideia compartilhada entre a maior parte das pessoas seja que esse conceito é construído com saúde, amor, dinheiro, entre outros itens.

          A filosofia que investiga e se dedica para definir e esclarecer as ideias do ser humano é excelente para refletir sobre a felicidade. E as primeiras reflexões de filosofia sobre ética continham o assunto felicidade, na Grécia antiga.

          A mais antiga referência de filosofia sobre esse tema é o fragmento do texto de Tales de Mileto, este que viveu entre 7 a.C. e 6 a.C. Para Tales, ser feliz é ter corpo forte e são, boa sorte e alma formada.

          Para Sócrates, essa ideia teve rumo novo, ele postulou que não havia relação da felicidade com somente satisfação dos desejos e necessidades do corpo, mas que o homem não é apenas corpo, e sim em principal, alma. Felicidade seria o bem da alma, através da conduta justa e virtuosa.

          E já para Kant, a felicidade está no âmbito do prazer e desejo, e não há relação com Ética, logo não seria tema para investigar de maneira filosófica.

          Mas ao que cerca a língua inglesa, na época de Kant, a felicidade teve destaque no pensamento político e sua busca passou a ser “direito do homem”, e isso é consignado na Constituição dos Estados Unidos da América, de 1787, redigida de acordo com o Iluminismo.

          No século 20, surge uma nova reflexão sobre o tema do inglês Bertrand Russel com a obra A Conquista da Felicidade, com método da investigação lógica; para Bertrand, por síntese, ser feliz é eliminar o egocentrismo.

    [...]

    Disponível em: www.afilosofia.com.br/post/o-conceito-felicidade-para-os-filosofos/542. Acesso em: 06 abr. 2018 (adaptado). 


    Texto IV


                                Felicidade clandestina


          Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria. Pouco aproveitava. E nós, menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como "data natalícia" e "saudade".

          Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.

          Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.

          Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.

          Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.

          No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez. Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranquilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do "dia seguinte" com ela ia se repetir com meu coração batendo.

          E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra. Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados. 

          Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler! 

          E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: "E você fica com o livro por quanto tempo quiser." Entendem? Valia mais do que me dar o livro: "pelo tempo que eu quisesse" é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer. 

          Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo. 

          Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada. 

          Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. 

          Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante. 

    LISPECTOR, Clarice. Felicidade Clandestina. In: Felicidade Clandestina: contos. Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 1998 (adaptado).


    Os elementos de coesão são recursos imprescindíveis para que um texto cumpra, de forma efetiva, o seu papel comunicativo. No texto IV, tais elementos foram bastante utilizados. Acerca de alguns deles, fizeram-se algumas considerações.


    I. “Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados.” Verifica-se, no pronome em destaque, um caso de coesão catafórica, sendo o termo “essa menina” (l. 11) o referente.

    II. No excerto “... um pai dono de livraria. Pouco aproveitava. E nós, menos ainda...” (l. 4-5), a coesão textual por elipse se estabelece pela omissão de um termo.

    III. No fragmento “Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.”, é possível identificar uma relação lógico-discursiva concessiva entre as duas orações, separadas por “dois-pontos” (:).

    IV. Entre as linhas 61 e 63, tem-se a ocorrência do substantivo “livro” por três vezes. Percebe-se o uso intencional da repetição como recurso coesivo a fim de produzir um efeito de sentido enfático, que demonstra a importância do objeto para a personagem.


    Pode-se afirmar que estão CORRETAS

    Escolha uma alternativa para a questão 2dccf21d-cc
  • Linguagens

    Português

    Texto I


                                         Feliz por nada


          Geralmente, quando uma pessoa exclama “Estou tão feliz!”, é porque engatou um novo amor, conseguiu uma promoção, ganhou uma bolsa de estudos, perdeu os quilos que precisava ou algo do tipo. Há sempre um porquê. Eu costumo torcer para que essa felicidade dure um bom tempo, mas sei que as novidades envelhecem e que não é seguro se sentir feliz apenas por atingimento de metas. Muito melhor é ser feliz por nada.

          Feliz por estar com as dívidas pagas. Feliz porque alguém o elogiou. Feliz porque existe uma perspectiva de viagem daqui a alguns meses. Feliz porque você não magoou ninguém hoje. Feliz porque daqui a pouco será hora de dormir e não há lugar no mundo mais acolhedor do que sua cama. Mesmo sendo motivos prosaicos, isso ainda é ser feliz por muito.

          Feliz por nada, nada mesmo? Talvez passe pela total despreocupação com essa busca. Essa tal de felicidade inferniza. “Faça isso, faça aquilo”. A troco? Quem garante que todos chegam lá pelo mesmo caminho?

          Particularmente, gosto de quem tem compromisso com a alegria, que procura relativizar as chatices diárias e se concentrar no que importa pra valer, e assim alivia o seu cotidiano e não atormenta o dos outros. Mas não estando alegre, é possível ser feliz também. Não estando “realizado”, também. Estando triste, felicíssimo igual. Porque felicidade é calma. Consciência. É ter talento para aturar o inevitável, é tirar algum proveito do imprevisto, é ficar debochadamente assombrado consigo próprio: como é que eu me meti nessa, como é que foi acontecer comigo? Pois é, são os efeitos colaterais de se estar vivo.

          Benditos os que conseguem se deixar em paz. Os que não se cobram por não terem cumprido suas resoluções, que não se culpam por terem falhado, não se torturam por terem sido contraditórios, não se punem por não terem sido perfeitos. Apenas fazem o melhor que podem.

          Se é para ser mestre em alguma coisa, então que sejamos mestres em nos libertar da patrulha do pensamento. De querer se adequar à sociedade e ao mesmo tempo ser livre. Adequação e liberdade simultaneamente? É uma senhora ambição. Demanda a energia de uma usina. Para que se consumir tanto? 

          A vida não é um questionário de Proust. Você não precisa ter que responder ao mundo quais são suas qualidades, sua cor preferida, seu prato favorito, que bicho seria. Que mania de se autoconhecer. Chega de se autoconhecer. Você é o que é, um imperfeito bemintencionado e que muda de opinião sem a menor culpa.

          Ser feliz por nada talvez seja isso.

    MEDEIROS, Martha. Felicidade crônica. 15.ed. Porto Alegre: L&PM, 2016. p. 86-87. 

    Determinadas categorias gramaticais podem produzir diferentes efeitos de sentido nos contextos em que estão inseridas, como é o caso dos verbos. Alguns deles, em tempos simples ou integrando uma locução verbal, podem denotar ideias ou “matizes” denominados aspectos. Examine as alternativas e indique em qual delas o aspecto verbal está INCORRETAMENTE analisado:
    Escolha uma alternativa para a questão 2dc51e8b-cc
  • Linguagens

    Português

    Texto I


                                         Feliz por nada


          Geralmente, quando uma pessoa exclama “Estou tão feliz!”, é porque engatou um novo amor, conseguiu uma promoção, ganhou uma bolsa de estudos, perdeu os quilos que precisava ou algo do tipo. Há sempre um porquê. Eu costumo torcer para que essa felicidade dure um bom tempo, mas sei que as novidades envelhecem e que não é seguro se sentir feliz apenas por atingimento de metas. Muito melhor é ser feliz por nada.

          Feliz por estar com as dívidas pagas. Feliz porque alguém o elogiou. Feliz porque existe uma perspectiva de viagem daqui a alguns meses. Feliz porque você não magoou ninguém hoje. Feliz porque daqui a pouco será hora de dormir e não há lugar no mundo mais acolhedor do que sua cama. Mesmo sendo motivos prosaicos, isso ainda é ser feliz por muito.

          Feliz por nada, nada mesmo? Talvez passe pela total despreocupação com essa busca. Essa tal de felicidade inferniza. “Faça isso, faça aquilo”. A troco? Quem garante que todos chegam lá pelo mesmo caminho?

          Particularmente, gosto de quem tem compromisso com a alegria, que procura relativizar as chatices diárias e se concentrar no que importa pra valer, e assim alivia o seu cotidiano e não atormenta o dos outros. Mas não estando alegre, é possível ser feliz também. Não estando “realizado”, também. Estando triste, felicíssimo igual. Porque felicidade é calma. Consciência. É ter talento para aturar o inevitável, é tirar algum proveito do imprevisto, é ficar debochadamente assombrado consigo próprio: como é que eu me meti nessa, como é que foi acontecer comigo? Pois é, são os efeitos colaterais de se estar vivo.

          Benditos os que conseguem se deixar em paz. Os que não se cobram por não terem cumprido suas resoluções, que não se culpam por terem falhado, não se torturam por terem sido contraditórios, não se punem por não terem sido perfeitos. Apenas fazem o melhor que podem.

          Se é para ser mestre em alguma coisa, então que sejamos mestres em nos libertar da patrulha do pensamento. De querer se adequar à sociedade e ao mesmo tempo ser livre. Adequação e liberdade simultaneamente? É uma senhora ambição. Demanda a energia de uma usina. Para que se consumir tanto? 

          A vida não é um questionário de Proust. Você não precisa ter que responder ao mundo quais são suas qualidades, sua cor preferida, seu prato favorito, que bicho seria. Que mania de se autoconhecer. Chega de se autoconhecer. Você é o que é, um imperfeito bemintencionado e que muda de opinião sem a menor culpa.

          Ser feliz por nada talvez seja isso.

    MEDEIROS, Martha. Felicidade crônica. 15.ed. Porto Alegre: L&PM, 2016. p. 86-87. 

    Os recursos expressivos, como as figuras de linguagem, fazem-se relevantes para a compreensão e interpretação de textos literários, levando o emissor a um uso mais eficaz da linguagem, que é um fenômeno social. A partir dos comentários sobre esses recursos, analise as proposições a seguir e marque a que NÃO representa seu uso:
    Escolha uma alternativa para a questão 2dc11fa0-cc
  • Linguagens

    Inglês

    Texto 1

    BRAZILIAN TEEN WITH CANCER CELEBRATES TURBAN ON SOCIAL MEDIA

    By plus55 on Feb 13, 2017

    Thauane Cordeiro never thought she’d face accusations of cultural appropriation after posting a selfie with a turban. Diagnosed with cancer, the treatments left this Brazilian teen bald. So she styles up her baldness with colorful turbans when she heads out of the house. However, after one picture of herself wearing a turban on Facebook, she faced unexpected backlash.

    While most turban-wearers in Brazil are black, Cordeiro is white. But instead of letting her haters put her down, Cordeiro explained just why she wore a turban that day. And it wasn’t about stealing black culture.

    Here’s a translation of her post: Turban love

    I’ll explain what happened yesterday so you know why I’m so angry with this whole cultural appropriation thing. I was at the station with this pretty turban, feeling like a diva. And I started to notice that there were a lot of black women around, beautiful by the way, who were looking at me funny, like “look over there the little white girl appropriating our culture”. Anyway, one of them came over to tell me I shouldn’t use a turban because I’m white. I took off the turban and said “are you seeing this bald head, this is called cancer, so I use what I want! Bye.” I grabbed my turban and walked off leaving her in shock. #EverybodyWearsTurbans

    The post went up last week and already has 104,000 likes and 30,000 shares.

    Fonte: <http://plus55.com/brazil-culture/2017/02/brazilian-teen-cancer-turba>. Acesso em: 15 abr 2017. 

    Qual das frases abaixo exemplifica a reação da adolescente às acusações de apropriação cultural?
    Escolha uma alternativa para a questão 4c601b68-b1
  • Linguagens

    Português

    Texto 4  

    Leia a charge a seguir e responda à próxima questão.  

    Imagem da questão de Português, IFF 2017, Crase

    Disponível em: <https://www.google.com.br/search?q=charge+sobre+atividade+f%C3%ADsica&tbm=isch&imgil=WFt

    4U_3LQ2efpM%253A%253BRHPY29Cleow3gM%253Bhttp%25253A%25252F%25252Fmovimentoc

    cm.blogspot.com%25252Fp%25252Fcharges.html&source=iu&pf=m&fir=WFt4U_3LQ2efpM%253A%

    252CRHPY29Cleow3gM%252C_&usg=__sYXZJOxy9utCcILX-jhg8vPaGs%3D&biw=1366&bih=662&ved=0ahUKEwicoous8PTAhVIW5AKHbTdAfwQyjcILw&ei=Oj4BWZydCci2wQS0u4fgDw#imgrc=FQLFvgngx8MfnM> 

    Acesso em: 26 abr 2017. 

    A presença do acento grave pode alterar ou não o sentido de um enunciado.

    Marque a alternativa na qual a presença de tal acento traz alteração semântica para a frase.

    Escolha uma alternativa para a questão 4c571edf-b1