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Prova

Prova de 2024: Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) — questões com gabarito

463 questões da prova de 2024 de Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), em Português, Matemática, Biologia, Física e mais matérias. Cada uma tem página própria, com enunciado completo, alternativas e gabarito — e dá para responder na própria página.

  • 463 questões
  • 12 matérias
  • Linguagens

    Literatura

    — Vá para o inferno, Gondim. Você acanalhou o troço. Está pernóstico, está safado, está idiota. Há lá ninguém que fale dessa forma!

    Azevedo Gondim apagou o sorriso, engoliu em seco, apanhou os cacos da sua pequenina vaidade e replicou amuado que um artista não pode escrever como fala. — Não pode?

    — perguntei com assombro. E por quê? Azevedo Gondim respondeu que não pode porque não pode.

    — Foi assim que sempre se fez. A literatura é a literatura, seu Paulo. A gente discute, briga, trata de negócios naturalmente, mas arranjar palavras com tinta é outra coisa. Se eu fosse escrever como falo, ninguém me lia.

    RAMOS, G. São Bernardo. Rio de Janeiro: Record, 2009.


    Nesse fragmento, a discussão dos personagens traz à cena um debate acerca da escrita que
    Escolha uma alternativa para a questão 5db3be3a-d8
  • Linguagens

    Literatura

    Data venia

    Conheci Bentinho e Capitu nos meus curiosos e antigos quinze anos. E os olhos de água da jovem de Matacavalos atraíram-me, seduziram-me ao primeiro contato. Aliados ao seu jeito de ser, flor e mistério. Mas tomou-me também a indignação diante do narrador e seu texto, feito de acusação e vilipêndio. Sem qualquer direito de defesa. Sem acesso ao discurso, usurpado, sutilmente, pela palavra autoritária do marido, algoz, em pele de cordeiro vitimado. Crudelíssimo e desumano: não bastasse o que faz com a mulher, chega a desejar a morte do próprio filho e a festejá-la com um jantar, sem qualquer remorso. No fundo, uma pobre consciência dilacerada, um homem dividido, que busca encontrar-se na memória, e acaba faltando-se a si mesmo. Retomei inúmeras vezes a triste história daquele amor em desencanto. Familiarizei-me, ao longo do tempo, com a crítica do texto; poucos, muito poucos, escapam das bem traçadas linhas do libelo condenatório; no mínimo concedem à ré o beneplácito da dúvida: convertem-na num enigma indecifrável, seu atributo consagrador.

    Eis que, diante de mais um retorno ao romance, veio a iluminação: por que não dar voz plena àquela mulher, brasileira do século XIX, que, apesar de todas as artimanhas e do maquiavelismo do companheiro, se converte numa das mais fascinantes criaturas do gênio que foi Machado de Assis?

    A empresa era temerária, mas escrever é sempre um risco. Apoiado no espaço de liberdade em que habita a Literatura, arrisquei-me.

    O resultado: este livro em que, além-túmulo, como Brás Cubas, a dona dos olhos de ressaca assume, à luz do mistério da arte literária e do próprio texto do Dr. Bento Santiago, seu discurso e sua verdade.


    PROENÇA FILHO, D. Capitu: memórias póstumas. Rio de Janeiro: Atrium, 1998.



    Para apresentar a apropriação literária que faz da obra de Machado de Assis, o autor desse texto
    Escolha uma alternativa para a questão 5dbec055-d8
  • Linguagens

    Literatura

    — Eu lhe juro, Aurélia. Estes lábios nunca tocaram a face de outra mulher, que não fosse minha mãe. Meu primeiro beijo de amor, guardei-o para minha esposa, para ti...

    [...]

    — Ou de outra mais rica! — disse ela, retraindo-se para fugir ao beijo do marido, e afastando-o com a ponta dos dedos. A voz da moça tomara o timbre cristalino, eco da rispidez e aspereza do sentimento que lhe sublevava o seio, e que parecia ringir-lhe nos lábios como aço.

    — Aurélia! Que significa isto?

    — Representamos uma comédia, na qual ambos desempenhamos o nosso papel com perícia consumada. Podemos ter este orgulho, que os melhores atores não nos excederiam. Mas é tempo de pôr termo a esta cruel mistificação, com que nos estamos escarnecendo mutuamente, senhor. Entremos na realidade por mais triste que ela seja; e resigne-se cada um ao que é, eu, uma mulher traída; o senhor, um homem vendido.

    — Vendido! — exclamou Seixas ferido dentro d’alma.

    — Vendido, sim: não tem outro nome. Sou rica, muito rica; sou milionária; precisava de um marido, traste indispensável às mulheres honestas. O senhor estava no mercado; comprei-o. Custou-me cem contos de réis, foi barato; não se fez valer. Eu daria o dobro, o triplo, toda a minha riqueza por este momento.


    ALENCAR, J. Senhora. Rio de Janeiro: Tecnoprint, 2003.


    Ao tematizar o casamento, esse fragmento reproduz uma concepção de literatura romântica evidenciada na
    Escolha uma alternativa para a questão 5dd145fa-d8
  • Linguagens

    Literatura

    — Vejo, disse ele com algum acanhamento, que o doutor não é nenhum pé-rapado, mas nunca é bom facilitar... Minha filha Nocência fez 18 anos pelo Natal, e é rapariga que pela feição parece moça de cidade, muito ariscazinha de modos, mas bonita e boa deveras... Coitada, foi criada sem mãe, e aqui nestes fundões. [...]
    — Ora muito que bem, continuou Pereira caindo aos poucos na habitual garrulice, quando vi a menina tomar corpo, tratei logo de casá-la.
     — Ah! é casada? perguntou Cirino.
    — Isto é, é e não é. A coisa está apalavrada. Por aqui costuma labutar no costeio do gado para São Paulo um homem de mão- cheia, que talvez o sr. conheça... o Manecão Doca...
    — Não, respondeu Cirino abanando a cabeça.
    — Pois isso é um homem às direitas, desempenado e trabucador como ele só... fura estes sertões todos e vem tangendo pontes de gado que metem pasmo. Também dizem que tem bichado muito e ajuntado cobre grosso, o que é possível, porque não é gastador nem dado a mulheres. Uma feita que estava aqui de pousada... olhe, mesmo neste lugar onde estava mecê inda agorinha, falei-lhe em casamento... isto é, dei-lhe uns toques... porque os pais devem tomar isso a si para bem de suas famílias; não acha?
    — Boa dúvida, aprovou Cirino, dou-lhe toda a razão; era do seu dever.

    TAUNAY, A. d’E. Inocência. Disponível em: www.dominiopublico.gov.br.
    Acesso em: 29 fev. 2024. 
    Nesse trecho, ao se referir à sua filha, o pai de Inocência reproduz os ideais românticos, presentes na
    Escolha uma alternativa para a questão 70fa54e6-d2
  • Linguagens

    Literatura

    Símbolos



    Eu e tu, ante a noite e o amplo desdobramento

    do mar, fero, a estourar de encontro à rocha nua...

    Um símbolo descubro aqui, neste momento

    esta rocha, este mar... a minha vida e a tua.


    O mar vem, o mar vai, nele há o gesto violento

    de quem maltrata e, após, se arrepende e recua.

    Como compreendo bem da rocha o sentimento!

    São muito iguais, por certo, a minha mágoa e a sua.


    Contemplo neste quadro a nossa triste vida;

    tu és dúbio mar que, na sua inconsciência,

    tem carinhos de amor e fúrias de demência!


    Eu sou a dor estanque, a dor empedernida,

    sou rocha a emergir de um côncavo de areia,

    imóvel, muda, isenta e alheia ao mar, alheia.


    MACHADO, G. Poesia completa. Rio de Janeiro:

    Cátedra/MEC, 1978.

    Nesse soneto, os traços da estética simbolista são resgatados pelo eu lírico ao
    Escolha uma alternativa para a questão 71085ff8-d2