Passaram-se semanas. Jerônimo tomava agora, todas as manhãs, uma xícara de café bem grosso, à moda da Ritinha, e tragava dois…
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Leia o trecho do romance O cortiço, de Aluísio Azevedo
(1857-1913), para responder à questão.
Passaram-se semanas. Jerônimo tomava agora, todas as
manhãs, uma xícara de café bem grosso, à moda da Ritinha, e
tragava dois dedos de parati1
“pra cortar a friagem”.
Uma transformação, lenta e profunda, operava-se nele,
dia a dia, hora a hora, reviscerando-lhe o corpo e alando-lhe os
sentidos, num trabalho misterioso e surdo de crisálida. A sua
energia afrouxava lentamente: fazia-se contemplativo e amoroso. A vida americana e a natureza do Brasil patenteavam-lhe
agora aspectos imprevistos e sedutores que o comoviam;
esquecia-se dos seus primitivos sonhos de ambição; para
idealizar felicidades novas, picantes e violentas; tornava-
-se liberal, imprevidente e franco, mais amigo de gastar que
de guardar; adquiria desejos, tomava gosto aos prazeres, e
volvia-se preguiçoso resignando-se, vencido, às imposições
do sol e do calor, muralha de fogo com que o espírito eternamente revoltado do último tamoio entrincheirou a pátria contra
os conquistadores aventureiros. [...]
E o curioso é que quanto mais ia ele caindo nos usos e
costumes brasileiros, tanto mais os seus sentidos se apuravam, posto que em detrimento das suas forças físicas. Tinha
agora o ouvido menos grosseiro para a música, compreendia
até as intenções poéticas dos sertanejos, quando cantam à
viola os seus amores infelizes; seus olhos, dantes só voltados
para a esperança de tornar à terra, agora, como os olhos de
um marujo, que se habituaram aos largos horizontes de céu
e mar, já se não revoltavam com a turbulenta luz, selvagem e
alegre, do Brasil, e abriam-se amplamente defronte dos maravilhosos despenhadeiros ilimitados e das cordilheiras sem fim,
donde, de espaço a espaço, surge um monarca gigante, que
o sol veste de ouro e ricas pedrarias refulgentes e as nuvens
tocam de alvos turbantes de cambraia2
, num luxo oriental de
arábicos príncipes voluptuosos.
(O cortiço, 2011.)
1parati: cachaça.
2cambraia: tecido fino, branco, de algodão.
Zoomorfismo é um recurso utilizado pela literatura naturalista,
no qual os seres humanos são comparados com animais e
os aspectos corpóreos dos personagens são privilegiados, em
detrimento de sua racionalidade.
Configura um exemplo explícito de zoomorfismo a passagem:
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