A QUESTÃO SE REFERE AO TEXTO A SEGUIR.
Não existem finais felizes: a felicidade é uma ilusão
que não desejamos
Julián Fuks
Convidaram-me a falar sobre a mentira dos finais
felizes. Tarefa fácil: são mesmo mentirosos os finais
felizes. Basta lançar ao mundo algum olhar clínico.
Nossa cultura já aprendeu que nem tudo se dissolve
em harmonia, que jamais se cria uma paz absoluta,
carente de todo trauma passado e todo conflito futuro. Onde se vê felicidade pura pode ser que algo não
se veja, que os olhos estejam turvos.
A fórmula clássica que encerra as histórias infantis,
"e viveram felizes para sempre", é a expressão de um
desinteresse total pelo que seria essa existência feliz.
Nela se realiza, é fácil sentir, uma associação entre
felicidade e morte. No fundo o que a fórmula diz, em
tom apaziguador, equivale a um "não viveram mais
nada até que morreram". Mas me convidaram a falar
sobre isso em Medelín, em espanhol, e nessa língua
o final clássico tem outra nuance: "vivieron felices y
comieron perdices". Nesse pequeno detalhe acrescido, o fato de terem comido perdizes, cabe ao menos
um pouco de vida. Nessa outra fórmula o que se diz
é que "viveram uma série de outras coisas que já não
nos interessam", e só depois disso se chega ao fim.
Seja como for, do tempo dos clássicos até o tempo
presente, deu-se uma revolução em nosso interesse.
Já há alguns séculos, desde o surgimento do romance
moderno, nossa curiosidade tem recaído exatamente
sobre essa vida comum que se inicia ao fim de qualquer aventura, sobre o cotidiano tenso que antes
tomávamos por feliz. Interessa a aflição que subjaz
à rotina, interessa a angústia sutil que se gesta em silêncio ao longo dos anos. O que procuramos nas histórias que narramos a nós mesmos, agora, é a desilusão da vida que trai os anseios juvenis, é o indiscreto
caos do convívio familiar, é o medo da morte depois
de tanta monotonia, tudo isso quem sabe redimido
em alguma medida por um final mais ameno.
"Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira." Nessa frase magistral de Tolstói que abre Anna Karenina se manifesta com
clareza nossa vontade insuperável de observar com
atenção de que é feita a infelicidade. Mas acho que
ela merece um reparo, se formos honestos, e se o
leitor me permite tamanha insolência. Também as
famílias felizes são felizes cada uma à sua maneira.
Não porque haja tanta nuance na paz e na existência
tranquila, mas porque aquilo que chamamos felicidade também é feito da infelicidade em sua infinita
riqueza, porque uma vida feliz também é atravessada continuamente por tristezas, sobressaltos, sustos,
desalentos, desilusões, pesadelos.
De modo que não existe e jamais existiu uma felicidade pura, até porque não existe nenhum tipo real de
pureza — mesmo em ciência a pureza é sempre um
estado hipotético. Uma felicidade absoluta não chega nem mesmo a ser um ideal que nutrimos, porque
a ele associamos algum torpor, uma indolência, uma
saciedade que conduz à paralisia, a ausência de um
novo desejo que nos vitalize. A partir disso já poderíamos concluir pela impossibilidade de todo "final feliz", já que essa última palavra seria inatingível. Mas
a primeira também é uma falácia, e sobre isso talvez
valha acrescentar ainda algum raciocínio.
Penso na leitura de livros infantis que tenho feito ao
lado das minhas filhas, esse um dos momentos mais
puramente felizes da minha vida cotidiana, como já
confessei uma vez aqui. Penso nos bordões que Tulipa criou para emendar ao final de cada livro, numa
fórmula própria que em alguma medida os ordena.
São duas variações: "Mas essa já é outra história", ou
então "E vai começar tudo outra vez". Acho cômico e
preciso seu sistema de classificação. Vejo nele uma
proposta de distinção entre as histórias cíclicas, cujo
fim remonta ao princípio, e aquelas que avançam
numa espécie de deriva, e vão convocando outros
sinuosos acontecimentos que já não cabem nas páginas que lemos.
E então me pergunto se não será assim a vida, feita
de retornos e derivas, num movimento perpétuo. Se
não se encadeiam assim tanto os momentos felizes
quanto os infelizes, ou os momentos a um só tempo
felizes e infelizes, sempre sucedidos por outros tão
complexos e indefiníveis quanto eles, em nossa própria existência ou na existência daqueles que ficam
quando partimos. Não existem finais felizes, eles são
uma mentira, pelo simples fato de que não existem finais, de que os finais são sempre uma ilusão momentânea, e nada jamais termina. Bom, nada talvez
seja muito: ao menos um texto, sim, é capaz de alcançar o seu fortuito fim.
Disponível
em:
https://www.uol.com.br/ecoa/colunas/julian-fuks/2025/08/23/nao-existem-finais-felizes-a-felicidade-e-uma-ilusao-que-nao-desejamos.htm. Acesso em: 10 set. 2025.
Analise o que se afirma a seguir.
I- Na sentença “A fórmula clássica que encerra as histórias infantis, ‘e viveram felizes para sempre’, é a
expressão de um desinteresse total pelo que seria
essa existência feliz. Nela se realiza, é fácil sentir,
uma associação entre felicidade e morte.”, o pronome “nela” se refere a “existência feliz”.
II- A expressão “olhos turvos”, presente em “Onde se
vê felicidade pura pode ser que algo não se veja,
que os olhos estejam turvos.”, foi usada de maneira metafórica.
III- Ao final do texto, o autor adota uma abordagem
metalinguística para marcar que, diferentemente
da vida, seu texto tem fim.
IV- Embora classificado como um artigo de opinião, o
tipo textual predominante explorado por Fuks foi
o narrativo.
Está correto apenas o que se afirma em