Questões do ENEM 2024
Questões aplicadas na prova de 2024, cada uma em página própria com enunciado, alternativas e gabarito.
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99B6B1EC-3C Capitalismo com tração SanguíneaEmiliano Gullo foi trabalhar no Rappi por dez dias: ganhava 2300 pesos. Da ansiedade das primeiras ordens ao ódio a um emprego que paga mal e que mostra o pior do capitalismo: a exploração com cara boa. Entre GPS e algoritmos, uma crônica em primeira pessoa da aplicação mais selvagem da economia de plataformas.Por: Emiliano GulloEspero que você seja pego por um feroz.Esperançosamente. Esperançosamente. Esperançosamente.Repito o desejo silencioso como um mantra de suportar a chuva e a raiva enquanto vejo como o cliente da rua Boulogne Sur Mer retorna ao elevador com seu nhoque estilo bolonhesa. Volta rápido e seco. Dou um passo em direção à calçada e fico encharcado de novo. As gotas chocalham muito na minha jaqueta de borracha. Ainda não tenho o piloto laranja. Isso vai acontecer em poucos dias, quando eu cumprir os 15 pedidos entregues. Agora fecho a caixa-mochila de telgopor e o último suspiro quente que a massa deixou antes de sair escapa. Quente e pontual.Em algumas semanas, o Rappi vai me pagar 50 pesos por essa remessa. O cliente não me deixou um centavo na ponta.No Rappi não há tempo para fúria. Ou sim: na bicicleta. [...]Antes da chuva, diante das ordens e das pedaladas frenéticas, as promessas de um emprego livre, sem patrões ou horários, de ganhos imediatos, me levam a um escritório em Villa Crespo, na Rua Castillo, 1200. É a primeira inaugurada pela empresa colombiana Rappi na Argentina, que chegou em março e está crescendo mais rápido que a inflação. [...] No final de agosto, já havia 9 mil rappitenderos na Argentina. Ou melhor, 9 mil trabalhadores não reconhecidos.Hoje já são mais de 12 mil sem assistência social, sem ART, nem férias, nem seguro, nem benefícios de qualquer natureza. [...] O diretor-presidente local da Rappi, Matías Casoy, diz que os rappintenderos não são trabalhadores formais, mas “microempreendedores porque têm seu tempo”. [...]Para treinar como rappitendero existem três horários, três dias por semana. Entre 40 e 50 pessoas estão amontoadas em cada fila; quase todos homens com menos de 40 anos de idade.[...] Há duas filas aqui. Uma para nós, os novos. Outra para ativos. [...]Sem caixa, não há trabalho. [...]As conversas na porta de Castillo giram em torno do labirinto burocrático. O segundo passo é a monotaxa. O Rappi dá 15 dias para que eles apresentem. Durante esse tempo, você pode trabalhar e acumular dinheiro para pedidos. Mas se o trabalhador não conseguir, a empresa bloqueia o usuário e não pode recolher seus ganhos. [...] Eu também vou ter que voltar várias vezes para resolver problemas cotidianos como um trabalhador para esta empresa. Faltam mochilas, pagamentos que não chegam, pedidos que não saem, usuários bloqueados ou recursos não ativados. [...]Agora estamos na clandestinidade. Somos cerca de 40 meninos e 1 menina. Não há cadeiras livres. Alguns de nós sentaram-se no chão. A palestra é ministrada por Viviana. Começa a operação de sedução. Viviana projeta um powerpoint. Ela promete que não pedalaremos mais do que 3 quilômetros, explica o comportamento do bom rappitendero, nos mostra os possíveis ganhos e, acima de tudo, vai nos empolgar com os principais benefícios. Trabalhar sem patrões, o número de horas que queremos e, como se não bastasse, temos os “benefícios de ser monotributista”. [...]Viviana diz para não nos preocuparmos com a caixa. Se quisermos, podemos alugá-la. Senão, faze-mos pedidos menores. [...]A única oportunidade em que o véu da falsa liberdade será transparente será quando Viviana falar da “taxa de aceitabilidade”. Assim que o pedido aparecer no aplicativo SoyRappi, são 30 segundos para decidir se aceita ou não a corrida. Quanto menos pedidos forem aceitos, menor será a taxa de aceitabilidade. E, quanto menor a taxa, menos pedidos aparecerão. [...] Também temos que aproveitar os horários de pico. De 12h às 16h e de 19h/20h às 24h/1h. Os ganhos para cada entrega variam de 40 a 60 pesos, dependendo - sempre em teoria - do número de quilômetros. [...]No Rappi há uma diferença entre dois grupos não antagônicos. Os venezuelanos, que representam mais de 90% da tropa da Rappitenda e costumam dedicar o dia inteiro a essa atividade. E os argentinos, uma clara minoria que costuma usar o aplicativo porque não se sustenta com seu trabalho formal. A etapa final é a ativação do usuário. Eu sou Id 9133. [...]Viajei 9 quilômetros. Fiz 125 pesos, que vou recolher quando o Rappi acertar os ganhos e fizer a transferência para a minha conta. [...]Eu, enquanto isso, continuo circulando sem um destino fixo. Tento horários diferentes, dias diferentes. É sexta-feira à noite. Estou indo pela ciclovia Billinghurst. Estou com o celular na mão. [...]Eu tenho que pegar algumas empanadas venezuelanas em El Salvador em 4400 e levá-los para Recoleta. O aplicativo me orienta através de uma série de etapas para que todos saibam onde estou e o que estou fazendo. Aviso primeiro que estou a caminho. Para o restaurante quando eu chegar. Ao cliente quando já tenho os produtos. Por fim, aviso que dei tudo. Estou pronto para mais. [...]Sou controlado por satélites, sou designado e não atribuído tarefas de um telefone, sou suspenso ou disparado de um tablet, mas pedalo uma bicicleta para o trabalho. Os novos modos de exploração parecem evoluir de forma bastante singular. O século 21 nas mãos das empresas, trabalhadores ancorados no século 19. O capital viaja no tempo. Pode ser o último filme de “De Volta para o Futuro”. O mais sinistro. O capitalismo moderno se move com tração de sangue. Economia de plataforma, dizem economistas e sociólogos. A uberização da economia, dizem outros. [...]Como cheguei depois de 35 minutos no último pedido, o Rappi vai premiar a entrega. O telefone toca novamente. “Temos uma ordem perfeita para você.” Tenho sorte hoje. [...]Mudança de dias. Trabalho ao meio-dia. Trabalho noturno. Trabalho dia e noite. Com e sem chuva. Não importa se há uma tempestade ou um sol brilhante. [...]O Rappi se alimenta, por um lado, de duas fragilidades muito específicas e complementares: a necessidade do imigrante e o desespero dos desempregados. De outro, a fetichização do imediatismo.[...]Fonte:https://www.revistaanfibia.com/capitalismo-traccion-sangre/. Acesso em: 05 jul. 2024. Texto adaptado para fins didáticos.GLOSSÁRIO:Monotributista: Uma forma de pagar impostos simplificada e de baixo custo utilizada por trabalhadores independentes da Argentina.Peso: Moeda argentina, como o Real no BrasilTelgopor: Material térmico semelhante a isopor.De acordo com o linguista José Luiz Fiorin (2010, p. 194): “Quando se atenua aquilo que de fato teria uma intensidade maior, ocorre um eufemismo”. Sabendo disso, responda:Em qual trecho do texto foi utilizado um eufemismo com a intenção discursiva de atenuar “o pior do capitalismo: a exploração com cara boa”?BA77DE2C-3C Literatura
Escolas LiteráriasUniversidade Federal de Juiz de Fora - MG · 2024MédioEntre para guardar nos favoritosTEXTO IVProsopopéiaBento TeixeiraICantem Poetas o Poder Romano,Sobmetendo Nações ao jugo duro;O Mantuano pinte o Rei Troiano,Descendo à confusão do Reino escuro;Que eu canto um Albuquerque soberano,Da Fé, da cara Pátria firme muro,Cujo valor e ser, que o Ceo lhe inspira,Pode estancar a Lácia e Grega lira.IIAs Délficas irmãs chamar não quero,que tal invocação é vão estudo;Aquele chamo só, de quem esperoA vida que se espera em fim de tudo.Ele fará meu Verso tão sincero,Quanto fora sem ele tosco e rudo,Que per rezão negar não deve o menosQuem deu o mais a míseros terrenos.Fonte: TEIXEIRA, Bento. Prosopopeia. Rio de Janeiro: Typ. do Imperial Instituto Artistico, 1873. Disponível em: http://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/242781. Acesso em: 09/07/2024.GLOSSÁRIO:Délficas: Musas, deusas da poesia e irmãs de Apolo por parte de pai (Zeus)Lácia: referente ao Lácio, região da Itália central.TEXTO VNas palavras do crítico literário Alfredo Bosi, a intenção do poeta Bento Teixeira, ao escrever o poema épico “Prosopopeia”, é “encomiástica, e o objeto do louvor Jorge de Albuquerque Coelho, donatário da capitania de Pernambuco, que encetava a sua carreira de prosperidade graças à cana-de-açúcar. A imitação de Os Lusíadas é assídua, desde a estrutura até o uso dos chavões da mitologia e dos torneios sintáticos. O que há de não-português (mas não diria: de brasileiro) no poemeto, como a ‘Descrição do Recife de Pernambuco’, ‘Olinda Celebrada’ e o canto dos feitos de Albuquerque Coelho, entra a título de louvação da terra enquanto colônia, parecendo precoce a atribuição de um sentimento nativista a qualquer dos passos citados”.Fonte: BOSI, Alfredo. História concisa da literatura. 50. ed. São Paulo: Cultrix, 2015, p. 36.GLOSSÁRIO:Encomiástico: elogioso, que faz elogio a algo ou alguém.Considerando os dois textos (IV e V), é possível afirmar que “Prosopopeia”, de Bento Teixeira, pode ser considerado o marco inicial, no Brasil, do movimento barroco, uma vez que, dentre outras características:BA7280EF-3C Literatura
Escolas LiteráriasUniversidade Federal de Juiz de Fora - MG · 2024MédioEntre para guardar nos favoritosTEXTO IIIDesenganos da vida humana, metaforicamenteGregório de Matos*É a vaidade, Fábio, nesta vida,Rosa, que da manhã lisonjeada,Púrpuras mil, com ambição dourada,Airosa rompe, arrasta presumida.É planta, que de abril favorecida,Por mares de soberba desatada,Florida galeota empavesada,Sulca ufana, navega destemida.É nau enfim, que em breve ligeirezaCom presunção de Fênix generosa,Galhardias apresta, alentos preza:Mas ser planta, ser rosa, nau vistosaDe que importa, se aguarda sem defesaPenha a nau, ferro a planta, tarde a rosa?*Poema antologicamente reconhecido como de autoria de Gregório de MatosFonte: MATOS, Gregório. Desenganos da vida humana, metaforicamente In: Wisnik, José Miguel (org.). Poemas escolhidos de Gregório de Matos. Edição vestibular. São Paulo: Companhia das letras, 2015, p.340.GLOSSÁRIO:Airosa : esbelto, gracioso.Soberba : orgulho, altivez.Galheota : pequena embarcação a remo, usada para o transporte do rei.Presumida : vaidosa.De abril favorecida : favorecida pela primavera que inicia em abril na Europa.Empavesado : enfeitado, adornado, guarnecido de paveses (=proteção nas embarcações).Ufana : que se orgulha de algo, vaidoso.Fênix : divindade da mitologia egípcia, símbolo da imortalidade, personificada em uma ave que renascia das próprias cinzas.Galhardia : garbo, elegância.Aprestar : preparar com prontidão.Alento : sopro, bafejo.Penha : penhasco, rochedo.Considerando o soneto “Desenganos da vida humana, metaforicamente”, texto III, assinale a alternativa CORRETA:BA6FF358-3C Literatura
Escolas LiteráriasUniversidade Federal de Juiz de Fora - MG · 2024MédioEntre para guardar nos favoritosTEXTO ISete annos de pastor Jacob serviaLuís Vaz de CamõesSete annos de pastor Jacob serviaLabão, pae de Raquel, serrana bella:Mas não servia ao pae, servia a ella,Que a ella só por premio pertendia.Os dias na esperança de hum só diaPassava, contentando-se com vella:Porém o pae, usando de cautella,Em lugar de Raquel lhe deo a Lia.Vendo o triste Pastor que com enganosAssi lhe era negada a sua Pastora,Como se a não tivera merecida;Começou a servir outros sete annos,Dizendo: Mais servíra, senão fôraPara tão longo amor tão curta a vida.Fonte: CAMÕES, Luís Vaz de. Obras Completas de Luis de Camões, Tomo II (Portuguese Edition). Edição do Kindle.TEXTO IIAo casamento de Pedro Álvares da NeivaGregório de MatosSete anos a nobreza da BahiaServia a uma pastora Indiana bela,Porém servia a Índia e não a ela,Que a Índia só por prêmio pretendia.Mil dias na esperança de um só diaPassava, contentando-se com vê-la,Mas frei Tomás usando de cautela,deu-lhe o vilão, quitou-lhe a fidalguia.Vendo o Brasil, que por tão sujos modosSe lhe usurpara a sua Dona Elvira,Quase a golpes de um maço e de uma goiva:Logo, se arrependeram de amar todos,E qualquer mais amara, se não viraPara tão limpo amor tão suja noiva.Fonte: MATOS, Gregório de. Poemas escolhidos. Seleção e organização José Miguel Wisnik. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.Assinale a única alternativa INCORRETA sobre o poema de Gregório de Matos:BA6D820B-3C Literatura
Gêneros LiteráriosUniversidade Federal de Juiz de Fora - MG · 2024MédioEntre para guardar nos favoritosTEXTO ISete annos de pastor Jacob serviaLuís Vaz de CamõesSete annos de pastor Jacob serviaLabão, pae de Raquel, serrana bella:Mas não servia ao pae, servia a ella,Que a ella só por premio pertendia.Os dias na esperança de hum só diaPassava, contentando-se com vella:Porém o pae, usando de cautella,Em lugar de Raquel lhe deo a Lia.Vendo o triste Pastor que com enganosAssi lhe era negada a sua Pastora,Como se a não tivera merecida;Começou a servir outros sete annos,Dizendo: Mais servíra, senão fôraPara tão longo amor tão curta a vida.Fonte: CAMÕES, Luís Vaz de. Obras Completas de Luis de Camões, Tomo II (Portuguese Edition). Edição do Kindle.Assinale a única alternativa INCORRETA sobre o poema de Camões.BA6AB415-3C Português
Interpretação de TextosUniversidade Federal de Juiz de Fora - MG · 2024MédioEntre para guardar nos favoritosTEXTO ICapitalismo com tração SanguíneaEmiliano Gullo foi trabalhar no Rappi por dez dias: ganhava 2300 pesos. Da ansiedade das primeiras ordens ao ódio a um emprego que paga mal e que mostra o pior do capitalismo: a exploração com cara boa. Entre GPS e algoritmos, uma crônica em primeira pessoa da aplicação mais selvagem da economia de plataformas.Por: Emiliano GulloEspero que você seja pego por um feroz.Esperançosamente. Esperançosamente. Esperançosamente.Repito o desejo silencioso como um mantra de suportar a chuva e a raiva enquanto vejo como o cliente da rua Boulogne Sur Mer retorna ao elevador com seu nhoque estilo bolonhesa. Volta rápido e seco. Dou um passo em direção à calçada e fico encharcado de novo. As gotas chocalham muito na minha jaqueta de borracha. Ainda não tenho o piloto laranja. Isso vai acontecer em poucos dias, quando eu cumprir os 15 pedidos entregues. Agora fecho a caixa-mochila de telgopor e o último suspiro quente que a massa deixou antes de sair escapa. Quente e pontual.Em algumas semanas, o Rappi vai me pagar 50 pesos por essa remessa. O cliente não me deixou um centavo na ponta. No Rappi não há tempo para fúria. Ou sim: na bicicleta. [...]Antes da chuva, diante das ordens e das pedaladas frenéticas, as promessas de um emprego livre, sem patrões ou horários, de ganhos imediatos, me levam a um escritório em Villa Crespo, na Rua Castillo, 1200. E a primeira inaugurada pela empresa colombiana Rappi na Argentina, que chegou em março e está crescendo mais rápido que a inflação. [...] No final de agosto, já havia 9 mil rappitenderos na Argentina. Ou melhor, 9 mil trabalhadores não reconhecidos. Hoje já são mais de 12 mil sem assistência social, sem ART, nem férias, nem seguro, nem benefícios de qualquer natureza. [...] O diretor-presidente local da Rappi, Matías Casoy, diz que os rappintenderos não são trabalhadores formais, mas “microempreendedores porque têm seu tempo”. [...]Para treinar como rappitendero existem três horários, três dias por semana. Entre 40 e 50 pessoas estão amontoadas em cada fila; quase todos homens com menos de 40 anos de idade.[...] Há duas filas aqui. Uma para nós, os novos. Outra para ativos. [...]Sem caixa, não há trabalho. [...]As conversas na porta de Castillo giram em torno do labirinto burocrático. O segundo passo é a monotaxa. O Rappi dá 15 dias para que eles apresentem. Durante esse tempo, você pode trabalhar e acumular dinheiro para pedidos. Mas se o trabalhador não conseguir, a empresa bloqueia o usuário e não pode recolher seus ganhos. [...] Eu também vou ter que voltar várias vezes para resolver problemas cotidianos como um trabalhador para esta empresa. Faltam mochilas, pagamentos que não chegam, pedidos que não saem, usuários bloqueados ou recursos não ativados. [...]Agora estamos na clandestinidade. Somos cerca de 40 meninos e 1 menina. Não há cadeiras livres. Alguns de nós sentaram-se no chão. A palestra é ministrada por Viviana. Começa a operação de sedução. Viviana projeta um powerpoint. Ela promete que não pedalaremos mais do que 3 quilômetros, explica o comportamento do bom rappitendero, nos mostra os possíveis ganhos e, acima de tudo, vai nos empolgar com os principais benefícios. Trabalhar sem patrões, o número de horas que queremos e, como se não bastasse, temos os “benefícios de ser monotributista”. [...]Viviana diz para não nos preocuparmos com a caixa. Se quisermos, podemos alugá-la. Se não, fazemos pedidos menores. [...]A única oportunidade em que o véu da falsa liberdade será transparente será quando Viviana falar da “taxa de aceitabilidade”. Assim que o pedido aparecer no aplicativo SoyRappi, são 30 segundos para decidir se aceita ou não a corrida. Quanto menos pedidos forem aceitos, menor será a taxa de aceitabilidade. E, quanto menor a taxa, menos pedidos aparecerão. [...] Também temos que aproveitar os horários de pico. De 12h às 16h e de 19h/20h às 24h/1h. Os ganhos para cada entrega variam de 40 a 60 pesos, dependendo - sempre em teoria - do número de quilômetros. [...]No Rappi há uma diferença entre dois grupos não antagônicos. Os venezuelanos, que representam mais de 90% da tropa da Rappitenda e costumam dedicar o dia inteiro a essa atividade. E os argentinos, uma clara minoria que costuma usar o aplicativo porque não se sustenta com seu trabalho formal. A etapa final é a ativação do usuário. Eu sou Id 9133. [...]Viajei 9 quilômetros. Fiz 125 pesos, que vou recolher quando o Rappi acertar os ganhos e fizer a transferência para a minha conta. [...]Eu, enquanto isso, continuo circulando sem um destino fixo. Tento horários diferentes, dias diferentes. É sexta-feira à noite. Estou indo pela ciclovia Billinghurst. Estou com o celular na mão. [...]Eu tenho que pegar algumas empanadas venezuelanas em El Salvador em 4400 e levá-los para Recoleta. O aplicativo me orienta através de uma série de etapas para que todos saibam onde estou e o que estou fazendo. Aviso primeiro que estou a caminho. Para o restaurante quando eu chegar. Ao cliente quando já tenho os produtos. Por fim, aviso que dei tudo. Estou pronto para mais. [...]Sou controlado por satélites, sou designado e não atribuído tarefas de um telefone, sou suspenso ou disparado de um tablet, mas pedalo uma bicicleta para o trabalho. Os novos modos de exploração parecem evoluir de forma bastante singular. O século 21 nas mãos das empresas, trabalhadores ancorados no século 19. O capital viaja no tempo. Pode ser o último filme de “De Volta para o Futuro”. O mais sinistro. O capitalismo moderno se move com tração de sangue. Economia de plataforma, dizem economistas e sociólogos. A uberização da economia, dizem outros. [...]Como cheguei depois de 35 minutos no último pedido, o Rappi vai premiar a entrega. O telefone toca novamente. “Temos uma ordem perfeita para você.” Tenho sorte hoje. [...]Mudança de dias. Trabalho ao meio-dia. Trabalho noturno. Trabalho dia e noite. Com e sem chuva. Não importa se há uma tempestade ou um sol brilhante. [...]O Rappi se alimenta, por um lado, de duas fragilidades muito específicas e complementares: a necessidade do imigrante e o desespero dos desempregados. De outro, a fetichização do imediatismo.[...]Fonte: https://www.revistaanfibia.com/capitalismo-traccion-sangre/. Acesso em: 05 jul. 2024. Texto adaptado para fins didáticos.GLOSSÁRIO:Monotributista: Uma forma de pagar impostos simplificada e de baixo custo utilizada por trabalhadores independentes da Argentina.Peso: Moeda argentina, como o Real no BrasilTelgopor: Material térmico semelhante a isopor.TEXTO II
Uberismo é a total desumanização das relações trabalhistas
Não há um patrão de carne e osso, não existe um departamento de recursos humanos
Há palavras cuja sonoridade é aparentemente inócua, cuja grafia parece inocente, insuspeita, mas basta ir um pouco além da fisionomia ortográfica para entender os infernos que escondem. Uberismo seria uma das mais recentes formas de exploração da forma de trabalho, consistente numa hiperexploração dos trabalhadores por meio de plataformas. Um emaranhado algorítmico pensado para arrancar direitos trabalhistas na forma de startup jovem, de sucesso, vibrante, lucrativa. Recomendo a leitura atenta do que escreve o professor Ruy Braga, da USP, excelente pesquisador na área sobre as ameaças brutais da “plataformização” do trabalho ou a tirania à qual as novas tecnologias digitais submetem a vida dos trabalhadores mais precarizados. É a total desumanização das relações trabalhistas. Não há um patrão de carne e osso, não existe um departamento de recursos humanos, muitos sindicatos rejeitam representar essas categorias. O contato com o “cliente” resume-se, muitas vezes, a uma entrega rápida e insensível, com um portão com grades no meio de dois indivíduos, que no momento estão a centímetros de distância, mas cujas mãos apenas se tocam e cujas vidas se tocam menos ainda. Não há direitos, não há humanidade. Um país como Brasil é o ambiente perfeito para esse processo de uberização da vida. Milhões de trabalhadores informais, uma pauperização crescente, um exército de jovens sem formação, a volta da miséria, o desmonte incessante dos direitos trabalhistas. [...]
No Brasil, a carne do trabalhador precarizado se vende barata. Muito barata. Uber, Ifood, Rappi, o mundo do trabalhador escravizado pelo algoritmo que, em tempos de crise, absorve, engole milhões de profissionais sem expectativas. São os descartáveis. Mas, paradoxos de uma vida fortuita, os descartáveis viraram essenciais na pandemia. O número de entregadores antes do coronavírus era de 280 mil. Depois da pandemia, passaram a 500 mil. São números impressionantes: 500 mil invisíveis que entregam comida, mas cujas famílias passam fome ou convivem com ela. São 500 mil. Mais gente, menos lucro.
O estudo “Condições de Trabalho de Entregadores Via Plataforma Digital Durante a Covid-19” identificou as jornadas de trabalho maiores e a queda nos rendimentos de 58,9% dos entregadores. [...] Não se preocupe. O entregador é microempresário, empreendedor. Não é pobreza, é um processo de sucesso individual. Os entregadores não são trabalhadores, são “parceiros” das plataformas. Os jovens que se endividam para comprar uma moto investem no seu futuro. Num país como Brasil, o discurso da meritocracia mata, assim como matam as motos dos entregadores cansados de trabalhar durante mais de dez horas por dia. Entre março e maio deste ano, 87 morreram na capital paulista.
[...]
Mas a exploração tem seus limites. Os explorados também explodem. Os invisíveis se cansam da invisibilidade. As greves de entregadores e a formação dos “Entregadores Antifascistas” são focos de luz nas trevas. Entre as exigências dos trabalhadores estão reajuste de preços, entrega de EPIs para trabalhar com mais segurança durante a pandemia, fim dos bloqueios indevidos, demanda de auxílios ou licenças de saúde e acidente, questionamentos com relação a programas de pontos realizados por algumas plataformas. Dignidade para os que são tratados com indignidade. É a revolta dos de baixo, dos que passavam despercebidos e hoje se tornaram essenciais. Todo o meu respeito, todo o meu apoio.
Fonte: https://www.cartacapital.com.br/artigo/uberismo-e-a-totaldesumanizacao-das-relacoes-trabalhistas/. Acesso em: 08 jul. 2024. (adaptado).
Leia o texto III a seguir para responder a questão.TEXTO IIIO operário em construçãoVinicius de MoraesEra ele que erguia casasOnde antes só havia chão.Como um pássaro sem asasEle subia com as casasQue lhe brotavam da mão.Mas tudo desconheciaDe sua grande missão:Não sabia, por exemploQue a casa de um homem é um temploUm templo sem religiãoComo tampouco sabiaQue a casa que ele faziaSendo a sua liberdadeEra a sua escravidão.De fato, como podiaUm operário em construçãoCompreender por que um tijoloValia mais do que um pão?[...] Mas ele desconheciaEsse fato extraordinário:Que o operário faz a coisaE a coisa faz o operário.De forma que, certo diaA mesa, ao cortar o pão `O operário foi tomadoDe uma súbita emoçãoAo constatar assombradoQue tudo naquela mesa– Garrafa, prato, facão –Era ele quem os faziaEle, um humilde operário,Um operário em construção.[...] E foi assim que o operárioDo edifício em construçãoQue sempre dizia simComeçou a dizer nãoE aprendeu a notar coisasA que não dava atenção:Notou que sua marmitaEra o prato do patrãoQue sua cerveja pretaEra o uísque do patrãoQue seu macacão de zuarteEra o terno do patrãoQue o casebre onde moravaEra a mansão do patrão[...] Que sua imensa fadigaEra amiga do patrão.E o operário disse: Não!E o operário fez-se forteNa sua resolução.Como era de se esperarAs bocas da delaçãoComeçaram a dizer coisasAos ouvidos do patrão.[...] Dia seguinte, o operárioAo sair da construçãoViu-se súbito cercadoDos homens da delaçãoE sofreu, por destinadoSua primeira agressão.Teve seu rosto cuspidoTeve seu braço quebradoMas quando foi perguntadoO operário disse: Não![...] Sentindo que a violênciaNão dobraria o operárioUm dia tentou o patrãoDobrá-lo de modo vário.De sorte que o foi levandoAo alto da construçãoE num momento de tempoMostrou-lhe toda a regiãoE apontando-a ao operárioFez-lhe esta declaração:— Dar-te-ei todo esse poderE a sua satisfação[...] E o operário disse: Não!— Loucura! – gritou o patrãoNão vês o que te dou eu?— Mentira! – disse o operárioNão podes dar-me o que é meu.[...]Fonte: https://edisciplina.usp.br/mod/resource/view.php?id=5229060. Acesso em: 08 jul. 2024. (adaptado).Embora os textos I, II e III sejam de gêneros de texto diferentes, eles relacionam-se quanto à temática e à crítica presentes.
Por isso, ao comparar os textos I, II e III, pode-se afirmar que
BA683271-3C Português
Interpretação de TextosUniversidade Federal de Juiz de Fora - MG · 2024FácilEntre para guardar nos favoritosLeia o texto II a seguir, publicado na revista “Carta Capital”, para responder a questão.
Uberismo é a total desumanização das relações trabalhistas
Não há um patrão de carne e osso, não existe um departamento de recursos humanos
Há palavras cuja sonoridade é aparentemente inócua, cuja grafia parece inocente, insuspeita, mas basta ir um pouco além da fisionomia ortográfica para entender os infernos que escondem. Uberismo seria uma das mais recentes formas de exploração da forma de trabalho, consistente numa hiperexploração dos trabalhadores por meio de plataformas. Um emaranhado algorítmico pensado para arrancar direitos trabalhistas na forma de startup jovem, de sucesso, vibrante, lucrativa. Recomendo a leitura atenta do que escreve o professor Ruy Braga, da USP, excelente pesquisador na área sobre as ameaças brutais da “plataformização” do trabalho ou a tirania à qual as novas tecnologias digitais submetem a vida dos trabalhadores mais precarizados. É a total desumanização das relações trabalhistas. Não há um patrão de carne e osso, não existe um departamento de recursos humanos, muitos sindicatos rejeitam representar essas categorias. O contato com o “cliente” resume-se, muitas vezes, a uma entrega rápida e insensível, com um portão com grades no meio de dois indivíduos, que no momento estão a centímetros de distância, mas cujas mãos apenas se tocam e cujas vidas se tocam menos ainda. Não há direitos, não há humanidade. Um país como Brasil é o ambiente perfeito para esse processo de uberização da vida. Milhões de trabalhadores informais, uma pauperização crescente, um exército de jovens sem formação, a volta da miséria, o desmonte incessante dos direitos trabalhistas. [...]
No Brasil, a carne do trabalhador precarizado se vende barata. Muito barata. Uber, Ifood, Rappi, o mundo do trabalhador escravizado pelo algoritmo que, em tempos de crise, absorve, engole milhões de profissionais sem expectativas. São os descartáveis. Mas, paradoxos de uma vida fortuita, os descartáveis viraram essenciais na pandemia. O número de entregadores antes do coronavírus era de 280 mil. Depois da pandemia, passaram a 500 mil. São números impressionantes: 500 mil invisíveis que entregam comida, mas cujas famílias passam fome ou convivem com ela. São 500 mil. Mais gente, menos lucro.
O estudo “Condições de Trabalho de Entregadores Via Plataforma Digital Durante a Covid-19” identificou as jornadas de trabalho maiores e a queda nos rendimentos de 58,9% dos entregadores. [...] Não se preocupe. O entregador é microempresário, empreendedor. Não é pobreza, é um processo de sucesso individual. Os entregadores não são trabalhadores, são “parceiros” das plataformas. Os jovens que se endividam para comprar uma moto investem no seu futuro. Num país como Brasil, o discurso da meritocracia mata, assim como matam as motos dos entregadores cansados de trabalhar durante mais de dez horas por dia. Entre março e maio deste ano, 87 morreram na capital paulista.
[...]
Mas a exploração tem seus limites. Os explorados também explodem. Os invisíveis se cansam da invisibilidade. As greves de entregadores e a formação dos “Entregadores Antifascistas” são focos de luz nas trevas. Entre as exigências dos trabalhadores estão reajuste de preços, entrega de EPIs para trabalhar com mais segurança durante a pandemia, fim dos bloqueios indevidos, demanda de auxílios ou licenças de saúde e acidente, questionamentos com relação a programas de pontos realizados por algumas plataformas. Dignidade para os que são tratados com indignidade. É a revolta dos de baixo, dos que passavam despercebidos e hoje se tornaram essenciais. Todo o meu respeito, todo o meu apoio.
Fonte: https://www.cartacapital.com.br/artigo/uberismo-e-a-totaldesumanizacao-das-relacoes-trabalhistas/. Acesso em: 08 jul. 2024. (adaptado).
O texto lido é um artigo de opinião, gênero que tem a característica da defesa de um ponto de vista.
Qual das alternativas a seguir apresenta a tese central do autor do texto?
BA6588E6-3C Português
Interpretação de TextosUniversidade Federal de Juiz de Fora - MG · 2024DifícilEntre para guardar nos favoritosLeia o texto I a seguir, de autoria do jornalista argentino Emiliano Gullo, para responder a questão.TEXTO ICapitalismo com tração SanguíneaEmiliano Gullo foi trabalhar no Rappi por dez dias: ganhava 2300 pesos. Da ansiedade das primeiras ordens ao ódio a um emprego que paga mal e que mostra o pior do capitalismo: a exploração com cara boa. Entre GPS e algoritmos, uma crônica em primeira pessoa da aplicação mais selvagem da economia de plataformas.Por: Emiliano GulloEspero que você seja pego por um feroz.Esperançosamente. Esperançosamente. Esperançosamente.Repito o desejo silencioso como um mantra de suportar a chuva e a raiva enquanto vejo como o cliente da rua Boulogne Sur Mer retorna ao elevador com seu nhoque estilo bolonhesa. Volta rápido e seco. Dou um passo em direção à calçada e fico encharcado de novo. As gotas chocalham muito na minha jaqueta de borracha. Ainda não tenho o piloto laranja. Isso vai acontecer em poucos dias, quando eu cumprir os 15 pedidos entregues. Agora fecho a caixa-mochila de telgopor e o último suspiro quente que a massa deixou antes de sair escapa. Quente e pontual.Em algumas semanas, o Rappi vai me pagar 50 pesos por essa remessa. O cliente não me deixou um centavo na ponta. No Rappi não há tempo para fúria. Ou sim: na bicicleta. [...]Antes da chuva, diante das ordens e das pedaladas frenéticas, as promessas de um emprego livre, sem patrões ou horários, de ganhos imediatos, me levam a um escritório em Villa Crespo, na Rua Castillo, 1200. E a primeira inaugurada pela empresa colombiana Rappi na Argentina, que chegou em março e está crescendo mais rápido que a inflação. [...] No final de agosto, já havia 9 mil rappitenderos na Argentina. Ou melhor, 9 mil trabalhadores não reconhecidos. Hoje já são mais de 12 mil sem assistência social, sem ART, nem férias, nem seguro, nem benefícios de qualquer natureza. [...] O diretor-presidente local da Rappi, Matías Casoy, diz que os rappintenderos não são trabalhadores formais, mas “microempreendedores porque têm seu tempo”. [...]Para treinar como rappitendero existem três horários, três dias por semana. Entre 40 e 50 pessoas estão amontoadas em cada fila; quase todos homens com menos de 40 anos de idade.[...] Há duas filas aqui. Uma para nós, os novos. Outra para ativos. [...]Sem caixa, não há trabalho. [...]As conversas na porta de Castillo giram em torno do labirinto burocrático. O segundo passo é a monotaxa. O Rappi dá 15 dias para que eles apresentem. Durante esse tempo, você pode trabalhar e acumular dinheiro para pedidos. Mas se o trabalhador não conseguir, a empresa bloqueia o usuário e não pode recolher seus ganhos. [...] Eu também vou ter que voltar várias vezes para resolver problemas cotidianos como um trabalhador para esta empresa. Faltam mochilas, pagamentos que não chegam, pedidos que não saem, usuários bloqueados ou recursos não ativados. [...]Agora estamos na clandestinidade. Somos cerca de 40 meninos e 1 menina. Não há cadeiras livres. Alguns de nós sentaram-se no chão. A palestra é ministrada por Viviana. Começa a operação de sedução. Viviana projeta um powerpoint. Ela promete que não pedalaremos mais do que 3 quilômetros, explica o comportamento do bom rappitendero, nos mostra os possíveis ganhos e, acima de tudo, vai nos empolgar com os principais benefícios. Trabalhar sem patrões, o número de horas que queremos e, como se não bastasse, temos os “benefícios de ser monotributista”. [...]Viviana diz para não nos preocuparmos com a caixa. Se quisermos, podemos alugá-la. Se não, fazemos pedidos menores. [...]A única oportunidade em que o véu da falsa liberdade será transparente será quando Viviana falar da “taxa de aceitabilidade”. Assim que o pedido aparecer no aplicativo SoyRappi, são 30 segundos para decidir se aceita ou não a corrida. Quanto menos pedidos forem aceitos, menor será a taxa de aceitabilidade. E, quanto menor a taxa, menos pedidos aparecerão. [...] Também temos que aproveitar os horários de pico. De 12h às 16h e de 19h/20h às 24h/1h. Os ganhos para cada entrega variam de 40 a 60 pesos, dependendo - sempre em teoria - do número de quilômetros. [...]No Rappi há uma diferença entre dois grupos não antagônicos. Os venezuelanos, que representam mais de 90% da tropa da Rappitenda e costumam dedicar o dia inteiro a essa atividade. E os argentinos, uma clara minoria que costuma usar o aplicativo porque não se sustenta com seu trabalho formal. A etapa final é a ativação do usuário. Eu sou Id 9133. [...]Viajei 9 quilômetros. Fiz 125 pesos, que vou recolher quando o Rappi acertar os ganhos e fizer a transferência para a minha conta. [...]Eu, enquanto isso, continuo circulando sem um destino fixo. Tento horários diferentes, dias diferentes. É sexta-feira à noite. Estou indo pela ciclovia Billinghurst. Estou com o celular na mão. [...]Eu tenho que pegar algumas empanadas venezuelanas em El Salvador em 4400 e levá-los para Recoleta. O aplicativo me orienta através de uma série de etapas para que todos saibam onde estou e o que estou fazendo. Aviso primeiro que estou a caminho. Para o restaurante quando eu chegar. Ao cliente quando já tenho os produtos. Por fim, aviso que dei tudo. Estou pronto para mais. [...]Sou controlado por satélites, sou designado e não atribuído tarefas de um telefone, sou suspenso ou disparado de um tablet, mas pedalo uma bicicleta para o trabalho. Os novos modos de exploração parecem evoluir de forma bastante singular. O século 21 nas mãos das empresas, trabalhadores ancorados no século 19. O capital viaja no tempo. Pode ser o último filme de “De Volta para o Futuro”. O mais sinistro. O capitalismo moderno se move com tração de sangue. Economia de plataforma, dizem economistas e sociólogos. A uberização da economia, dizem outros. [...]Como cheguei depois de 35 minutos no último pedido, o Rappi vai premiar a entrega. O telefone toca novamente. “Temos uma ordem perfeita para você.” Tenho sorte hoje. [...]Mudança de dias. Trabalho ao meio-dia. Trabalho noturno. Trabalho dia e noite. Com e sem chuva. Não importa se há uma tempestade ou um sol brilhante. [...]O Rappi se alimenta, por um lado, de duas fragilidades muito específicas e complementares: a necessidade do imigrante e o desespero dos desempregados. De outro, a fetichização do imediatismo.[...]Fonte: https://www.revistaanfibia.com/capitalismo-traccion-sangre/. Acesso em: 05 jul. 2024. Texto adaptado para fins didáticos.GLOSSÁRIO:Monotributista: Uma forma de pagar impostos simplificada e de baixo custo utilizada por trabalhadores independentes da Argentina.Peso: Moeda argentina, como o Real no BrasilTelgopor: Material térmico semelhante a isopor.Com a afirmação “O século 21 nas mãos das empresas, trabalhadores ancorados no século 19”, parágrafo 17º, o autorBA62E454-3C Português
Interpretação de TextosUniversidade Federal de Juiz de Fora - MG · 2024MédioEntre para guardar nos favoritosLeia o texto I a seguir, de autoria do jornalista argentino Emiliano Gullo, para responder a questão.TEXTO ICapitalismo com tração SanguíneaEmiliano Gullo foi trabalhar no Rappi por dez dias: ganhava 2300 pesos. Da ansiedade das primeiras ordens ao ódio a um emprego que paga mal e que mostra o pior do capitalismo: a exploração com cara boa. Entre GPS e algoritmos, uma crônica em primeira pessoa da aplicação mais selvagem da economia de plataformas.Por: Emiliano GulloEspero que você seja pego por um feroz.Esperançosamente. Esperançosamente. Esperançosamente.Repito o desejo silencioso como um mantra de suportar a chuva e a raiva enquanto vejo como o cliente da rua Boulogne Sur Mer retorna ao elevador com seu nhoque estilo bolonhesa. Volta rápido e seco. Dou um passo em direção à calçada e fico encharcado de novo. As gotas chocalham muito na minha jaqueta de borracha. Ainda não tenho o piloto laranja. Isso vai acontecer em poucos dias, quando eu cumprir os 15 pedidos entregues. Agora fecho a caixa-mochila de telgopor e o último suspiro quente que a massa deixou antes de sair escapa. Quente e pontual.Em algumas semanas, o Rappi vai me pagar 50 pesos por essa remessa. O cliente não me deixou um centavo na ponta. No Rappi não há tempo para fúria. Ou sim: na bicicleta. [...]Antes da chuva, diante das ordens e das pedaladas frenéticas, as promessas de um emprego livre, sem patrões ou horários, de ganhos imediatos, me levam a um escritório em Villa Crespo, na Rua Castillo, 1200. E a primeira inaugurada pela empresa colombiana Rappi na Argentina, que chegou em março e está crescendo mais rápido que a inflação. [...] No final de agosto, já havia 9 mil rappitenderos na Argentina. Ou melhor, 9 mil trabalhadores não reconhecidos. Hoje já são mais de 12 mil sem assistência social, sem ART, nem férias, nem seguro, nem benefícios de qualquer natureza. [...] O diretor-presidente local da Rappi, Matías Casoy, diz que os rappintenderos não são trabalhadores formais, mas “microempreendedores porque têm seu tempo”. [...]Para treinar como rappitendero existem três horários, três dias por semana. Entre 40 e 50 pessoas estão amontoadas em cada fila; quase todos homens com menos de 40 anos de idade.[...] Há duas filas aqui. Uma para nós, os novos. Outra para ativos. [...]Sem caixa, não há trabalho. [...]As conversas na porta de Castillo giram em torno do labirinto burocrático. O segundo passo é a monotaxa. O Rappi dá 15 dias para que eles apresentem. Durante esse tempo, você pode trabalhar e acumular dinheiro para pedidos. Mas se o trabalhador não conseguir, a empresa bloqueia o usuário e não pode recolher seus ganhos. [...] Eu também vou ter que voltar várias vezes para resolver problemas cotidianos como um trabalhador para esta empresa. Faltam mochilas, pagamentos que não chegam, pedidos que não saem, usuários bloqueados ou recursos não ativados. [...]Agora estamos na clandestinidade. Somos cerca de 40 meninos e 1 menina. Não há cadeiras livres. Alguns de nós sentaram-se no chão. A palestra é ministrada por Viviana. Começa a operação de sedução. Viviana projeta um powerpoint. Ela promete que não pedalaremos mais do que 3 quilômetros, explica o comportamento do bom rappitendero, nos mostra os possíveis ganhos e, acima de tudo, vai nos empolgar com os principais benefícios. Trabalhar sem patrões, o número de horas que queremos e, como se não bastasse, temos os “benefícios de ser monotributista”. [...]Viviana diz para não nos preocuparmos com a caixa. Se quisermos, podemos alugá-la. Se não, fazemos pedidos menores. [...]A única oportunidade em que o véu da falsa liberdade será transparente será quando Viviana falar da “taxa de aceitabilidade”. Assim que o pedido aparecer no aplicativo SoyRappi, são 30 segundos para decidir se aceita ou não a corrida. Quanto menos pedidos forem aceitos, menor será a taxa de aceitabilidade. E, quanto menor a taxa, menos pedidos aparecerão. [...] Também temos que aproveitar os horários de pico. De 12h às 16h e de 19h/20h às 24h/1h. Os ganhos para cada entrega variam de 40 a 60 pesos, dependendo - sempre em teoria - do número de quilômetros. [...]No Rappi há uma diferença entre dois grupos não antagônicos. Os venezuelanos, que representam mais de 90% da tropa da Rappitenda e costumam dedicar o dia inteiro a essa atividade. E os argentinos, uma clara minoria que costuma usar o aplicativo porque não se sustenta com seu trabalho formal. A etapa final é a ativação do usuário. Eu sou Id 9133. [...]Viajei 9 quilômetros. Fiz 125 pesos, que vou recolher quando o Rappi acertar os ganhos e fizer a transferência para a minha conta. [...]Eu, enquanto isso, continuo circulando sem um destino fixo. Tento horários diferentes, dias diferentes. É sexta-feira à noite. Estou indo pela ciclovia Billinghurst. Estou com o celular na mão. [...]Eu tenho que pegar algumas empanadas venezuelanas em El Salvador em 4400 e levá-los para Recoleta. O aplicativo me orienta através de uma série de etapas para que todos saibam onde estou e o que estou fazendo. Aviso primeiro que estou a caminho. Para o restaurante quando eu chegar. Ao cliente quando já tenho os produtos. Por fim, aviso que dei tudo. Estou pronto para mais. [...]Sou controlado por satélites, sou designado e não atribuído tarefas de um telefone, sou suspenso ou disparado de um tablet, mas pedalo uma bicicleta para o trabalho. Os novos modos de exploração parecem evoluir de forma bastante singular. O século 21 nas mãos das empresas, trabalhadores ancorados no século 19. O capital viaja no tempo. Pode ser o último filme de “De Volta para o Futuro”. O mais sinistro. O capitalismo moderno se move com tração de sangue. Economia de plataforma, dizem economistas e sociólogos. A uberização da economia, dizem outros. [...]Como cheguei depois de 35 minutos no último pedido, o Rappi vai premiar a entrega. O telefone toca novamente. “Temos uma ordem perfeita para você.” Tenho sorte hoje. [...]Mudança de dias. Trabalho ao meio-dia. Trabalho noturno. Trabalho dia e noite. Com e sem chuva. Não importa se há uma tempestade ou um sol brilhante. [...]O Rappi se alimenta, por um lado, de duas fragilidades muito específicas e complementares: a necessidade do imigrante e o desespero dos desempregados. De outro, a fetichização do imediatismo.[...]Fonte: https://www.revistaanfibia.com/capitalismo-traccion-sangre/. Acesso em: 05 jul. 2024. Texto adaptado para fins didáticos.GLOSSÁRIO:Monotributista: Uma forma de pagar impostos simplificada e de baixo custo utilizada por trabalhadores independentes da Argentina.Peso: Moeda argentina, como o Real no BrasilTelgopor: Material térmico semelhante a isopor.De acordo com o linguista José Luiz Fiorin (2010, p. 194): “Quando se atenua aquilo que de fato teria uma intensidade maior, ocorre um eufemismo”. Sabendo disso, responda:Em qual trecho do texto foi utilizado um eufemismo com a intenção discursiva de atenuar “o pior do capitalismo: a exploração com cara boa”?BA5F7156-3C Português
Interpretação de TextosUniversidade Federal de Juiz de Fora - MG · 2024FácilEntre para guardar nos favoritosLeia o texto I a seguir, de autoria do jornalista argentino Emiliano Gullo, para responder a questão.TEXTO ICapitalismo com tração SanguíneaEmiliano Gullo foi trabalhar no Rappi por dez dias: ganhava 2300 pesos. Da ansiedade das primeiras ordens ao ódio a um emprego que paga mal e que mostra o pior do capitalismo: a exploração com cara boa. Entre GPS e algoritmos, uma crônica em primeira pessoa da aplicação mais selvagem da economia de plataformas.Por: Emiliano GulloEspero que você seja pego por um feroz.Esperançosamente. Esperançosamente. Esperançosamente.Repito o desejo silencioso como um mantra de suportar a chuva e a raiva enquanto vejo como o cliente da rua Boulogne Sur Mer retorna ao elevador com seu nhoque estilo bolonhesa. Volta rápido e seco. Dou um passo em direção à calçada e fico encharcado de novo. As gotas chocalham muito na minha jaqueta de borracha. Ainda não tenho o piloto laranja. Isso vai acontecer em poucos dias, quando eu cumprir os 15 pedidos entregues. Agora fecho a caixa-mochila de telgopor e o último suspiro quente que a massa deixou antes de sair escapa. Quente e pontual.Em algumas semanas, o Rappi vai me pagar 50 pesos por essa remessa. O cliente não me deixou um centavo na ponta. No Rappi não há tempo para fúria. Ou sim: na bicicleta. [...]Antes da chuva, diante das ordens e das pedaladas frenéticas, as promessas de um emprego livre, sem patrões ou horários, de ganhos imediatos, me levam a um escritório em Villa Crespo, na Rua Castillo, 1200. E a primeira inaugurada pela empresa colombiana Rappi na Argentina, que chegou em março e está crescendo mais rápido que a inflação. [...] No final de agosto, já havia 9 mil rappitenderos na Argentina. Ou melhor, 9 mil trabalhadores não reconhecidos. Hoje já são mais de 12 mil sem assistência social, sem ART, nem férias, nem seguro, nem benefícios de qualquer natureza. [...] O diretor-presidente local da Rappi, Matías Casoy, diz que os rappintenderos não são trabalhadores formais, mas “microempreendedores porque têm seu tempo”. [...]Para treinar como rappitendero existem três horários, três dias por semana. Entre 40 e 50 pessoas estão amontoadas em cada fila; quase todos homens com menos de 40 anos de idade.[...] Há duas filas aqui. Uma para nós, os novos. Outra para ativos. [...]Sem caixa, não há trabalho. [...]As conversas na porta de Castillo giram em torno do labirinto burocrático. O segundo passo é a monotaxa. O Rappi dá 15 dias para que eles apresentem. Durante esse tempo, você pode trabalhar e acumular dinheiro para pedidos. Mas se o trabalhador não conseguir, a empresa bloqueia o usuário e não pode recolher seus ganhos. [...] Eu também vou ter que voltar várias vezes para resolver problemas cotidianos como um trabalhador para esta empresa. Faltam mochilas, pagamentos que não chegam, pedidos que não saem, usuários bloqueados ou recursos não ativados. [...]Agora estamos na clandestinidade. Somos cerca de 40 meninos e 1 menina. Não há cadeiras livres. Alguns de nós sentaram-se no chão. A palestra é ministrada por Viviana. Começa a operação de sedução. Viviana projeta um powerpoint. Ela promete que não pedalaremos mais do que 3 quilômetros, explica o comportamento do bom rappitendero, nos mostra os possíveis ganhos e, acima de tudo, vai nos empolgar com os principais benefícios. Trabalhar sem patrões, o número de horas que queremos e, como se não bastasse, temos os “benefícios de ser monotributista”. [...]Viviana diz para não nos preocuparmos com a caixa. Se quisermos, podemos alugá-la. Se não, fazemos pedidos menores. [...]A única oportunidade em que o véu da falsa liberdade será transparente será quando Viviana falar da “taxa de aceitabilidade”. Assim que o pedido aparecer no aplicativo SoyRappi, são 30 segundos para decidir se aceita ou não a corrida. Quanto menos pedidos forem aceitos, menor será a taxa de aceitabilidade. E, quanto menor a taxa, menos pedidos aparecerão. [...] Também temos que aproveitar os horários de pico. De 12h às 16h e de 19h/20h às 24h/1h. Os ganhos para cada entrega variam de 40 a 60 pesos, dependendo - sempre em teoria - do número de quilômetros. [...]No Rappi há uma diferença entre dois grupos não antagônicos. Os venezuelanos, que representam mais de 90% da tropa da Rappitenda e costumam dedicar o dia inteiro a essa atividade. E os argentinos, uma clara minoria que costuma usar o aplicativo porque não se sustenta com seu trabalho formal. A etapa final é a ativação do usuário. Eu sou Id 9133. [...]Viajei 9 quilômetros. Fiz 125 pesos, que vou recolher quando o Rappi acertar os ganhos e fizer a transferência para a minha conta. [...]Eu, enquanto isso, continuo circulando sem um destino fixo. Tento horários diferentes, dias diferentes. É sexta-feira à noite. Estou indo pela ciclovia Billinghurst. Estou com o celular na mão. [...]Eu tenho que pegar algumas empanadas venezuelanas em El Salvador em 4400 e levá-los para Recoleta. O aplicativo me orienta através de uma série de etapas para que todos saibam onde estou e o que estou fazendo. Aviso primeiro que estou a caminho. Para o restaurante quando eu chegar. Ao cliente quando já tenho os produtos. Por fim, aviso que dei tudo. Estou pronto para mais. [...]Sou controlado por satélites, sou designado e não atribuído tarefas de um telefone, sou suspenso ou disparado de um tablet, mas pedalo uma bicicleta para o trabalho. Os novos modos de exploração parecem evoluir de forma bastante singular. O século 21 nas mãos das empresas, trabalhadores ancorados no século 19. O capital viaja no tempo. Pode ser o último filme de “De Volta para o Futuro”. O mais sinistro. O capitalismo moderno se move com tração de sangue. Economia de plataforma, dizem economistas e sociólogos. A uberização da economia, dizem outros. [...]Como cheguei depois de 35 minutos no último pedido, o Rappi vai premiar a entrega. O telefone toca novamente. “Temos uma ordem perfeita para você.” Tenho sorte hoje. [...]Mudança de dias. Trabalho ao meio-dia. Trabalho noturno. Trabalho dia e noite. Com e sem chuva. Não importa se há uma tempestade ou um sol brilhante. [...]O Rappi se alimenta, por um lado, de duas fragilidades muito específicas e complementares: a necessidade do imigrante e o desespero dos desempregados. De outro, a fetichização do imediatismo.[...]Fonte: https://www.revistaanfibia.com/capitalismo-traccion-sangre/. Acesso em: 05 jul. 2024. Texto adaptado para fins didáticos.GLOSSÁRIO:Monotributista: Uma forma de pagar impostos simplificada e de baixo custo utilizada por trabalhadores independentes da Argentina.Peso: Moeda argentina, como o Real no BrasilTelgopor: Material térmico semelhante a isopor.O texto lido apresenta uma série de críticas ao trabalho de entregas por aplicativos.
Para tanto, por meio da narrativa, o autor elaborou o seguinte percurso argumentativo:
EC976567-3B Português
Interpretação de TextosUniversidade Federal de Juiz de Fora - MG · 2024FácilEntre para guardar nos favoritosA seguir, são apresentados quatro relatos retirados da dissertação de Mestrado intitulada “A reconfiguração da experiência de ser doméstica através da página ‘Eu, empregada doméstica’”, de Enise de Castro Silva, textos III, IV e V. Leia-os, para resolver a questão.
TEXTO III
[...] Filhos sem educação que faziam de mim gato e sapato a filha dessa minha patroa tinha minha idade 14 anos a época e ela até me batia mas isso eu não deixava revidava então era uma brigaiada mas como eles não podiam perder a escravinha não me mandavam embora só ameaçavam!
TEXTO IV
Sem falar em outro doutorzinho que expõe sua empregada ao ridículo lá no meu trabalho ele sai mostrando a foto do perfil dela do whatsap para seus outros colegas e debochando. Olha só essa foto que cara de pobre que pose de vagabunda só podia ser doméstica mesmo!
TEXTO V
[...] a D. da casa é uma dondoca mesquinha que vive pra gastar o dinheiro do marido e ser servida. Um dia na hora do jantar usei um pouco de pimenta do reino dela para colocar no meu prato. A mulher fez um escândalo disse que aquilo era muito caro que aquelas pimentas era dela e da família dela. Não era pra eu usar na comida da empregada. Onde já se viu? Uma pimenta de 17 reais (só porque vinha naqueles moedores) a empregadinha colocar no prato. No dia seguinte comprei as pimentas com moedor mais caras do supermercado levei pra casa dela. Usava em todas as comidas da casa colocava na mesa a minha pimenta oferecia para os convidados dela usava a rodo. Eu sentia o constrangimento e a raiva dela mas ela não podia fazer nada eu estava sendo legal. Uns 3 anos depois vocês não sabem o que eu encontro vencida bem escondidinha. AS PIMENTAS. Era tão caras e ela deixou apodrecer.
Trechos retirados de SILVA, Enise de Castro. A reconfiguração da experiência de ser doméstica através da página “Eu, empregada doméstica”. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal de Minas Gerais, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, 2019, p. 71-88. Textos adaptados para fins didáticos.
Em relação aos efeitos de sentido construídos pela utilização do sufixo “inha/inho” empregado em palavras presentes nos textos III, IV, V, pode-se inferir que:EC950AC3-3B Português
Interpretação de TextosUniversidade Federal de Juiz de Fora - MG · 2024Muito fácilEntre para guardar nos favoritosA seguir, são apresentados quatro relatos retirados da dissertação de Mestrado intitulada “A reconfiguração da experiência de ser doméstica através da página ‘Eu, empregada doméstica’”, de Enise de Castro Silva, textos III, IV e V. Leia-os, para resolver a questão.
TEXTO III
[...] Filhos sem educação que faziam de mim gato e sapato a filha dessa minha patroa tinha minha idade 14 anos a época e ela até me batia mas isso eu não deixava revidava então era uma brigaiada mas como eles não podiam perder a escravinha não me mandavam embora só ameaçavam!
TEXTO IV
Sem falar em outro doutorzinho que expõe sua empregada ao ridículo lá no meu trabalho ele sai mostrando a foto do perfil dela do whatsap para seus outros colegas e debochando. Olha só essa foto que cara de pobre que pose de vagabunda só podia ser doméstica mesmo!
TEXTO V
[...] a D. da casa é uma dondoca mesquinha que vive pra gastar o dinheiro do marido e ser servida. Um dia na hora do jantar usei um pouco de pimenta do reino dela para colocar no meu prato. A mulher fez um escândalo disse que aquilo era muito caro que aquelas pimentas era dela e da família dela. Não era pra eu usar na comida da empregada. Onde já se viu? Uma pimenta de 17 reais (só porque vinha naqueles moedores) a empregadinha colocar no prato. No dia seguinte comprei as pimentas com moedor mais caras do supermercado levei pra casa dela. Usava em todas as comidas da casa colocava na mesa a minha pimenta oferecia para os convidados dela usava a rodo. Eu sentia o constrangimento e a raiva dela mas ela não podia fazer nada eu estava sendo legal. Uns 3 anos depois vocês não sabem o que eu encontro vencida bem escondidinha. AS PIMENTAS. Era tão caras e ela deixou apodrecer.
Trechos retirados de SILVA, Enise de Castro. A reconfiguração da experiência de ser doméstica através da página “Eu, empregada doméstica”. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal de Minas Gerais, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, 2019, p. 71-88. Textos adaptados para fins didáticos.
O Texto VI a seguir é um trecho do livro “Da fala para a escrita – atividades de retextualização”, escrito pelo linguista brasileiro Luiz Antônio Marcuschi acerca da relação entre gêneros de textos orais e escritos. Leia-o com atenção para responder a questão.TEXTO VIDa fala para a escrita – atividades de retextualizaçãoLuiz Antônio MarcuschiA hipótese que defendemos supõe que: as diferenças entre fala e escrita se dão dentro do continuum tipológico das práticas sociais de produção dos gêneros textuais e não na relação dicotômica [oposta] de dois polos opostos. [...] Na realidade, temos uma série de textos produzidos em condições naturais e espontâneas nos mais diversos domínios discursivos das duas modalidades da língua – oral e escrita. Com isto, descobrimos que, comparando uma carta pessoal em estilo descontraído (texto escrito) com uma narrativa oral espontânea (texto oral), haverá menos diferenças do que entre a narrativa oral e um texto acadêmico escrito. Por outro lado, uma conferência universitária preparada com cuidado terá maior semelhança com textos escritos do que com uma conversação espontânea. Os textos se entrecruzam sob muitos aspectos e por vezes constituem domínios mistos, mesclando aspectos da oralidade em textos escritos e da escrita em textos orais. [...] Com isso, toda vez que emprego a palavra língua não me refiro a um sistema de regras determinado, abstrato, regular e homogêneo, nem a relações linguísticas imanentes. Ao contrário, minha concepção de língua pressupõe um fenômeno heterogêneo (com múltiplas formas de manifestação), variável (dinâmico, suscetível a mudanças), histórico e social (fruto de práticas sociais e históricas), indeterminado sob o ponto de vista semântico e sintático (submetido às condições de produção) e que se manifesta em situações de uso concretas como texto e discurso. [...]Fonte: MARCUSCHI, Luiz Antônio. Da fala para a escrita – atividades de retextualização. São Paulo: Cortez, 2010. p. 37-38. Texto adaptado para fins didáticosMarcuschi, autor do texto VI, defende uma hipótese sobre a linguagem. Sabendo disso, pode-se afirmar que os textos III, IV, V - escritos por empregadas domésticas na página de rede social “Eu, empregada”:EC928963-3B Português
Interpretação de TextosUniversidade Federal de Juiz de Fora - MG · 2024FácilEntre para guardar nos favoritosTEXTO IA ordem natural das coisasEmicidaA merendeira desce, o ônibus saiDona Maria já se foi, só depois é que o Sol nasceDe madruga é que as aranha tece no breuE amantes ofegantes vão pro mundo de MorfeuE o Sol só vem depoisO Sol só vem depoisÉ o astro rei, ok, mas vem depoisO Sol só vem depoisAnunciado no latir dos cães, no cantar dos galosNa calma das mães, que quer o rebento cem por centoE diz: Leva o documento, sonNa São Paulo das manhã que tem lá seus VietnãNa vela que o vento apaga, afaga quando passaA brasa dorme fria e só quem dança é a fumaçaOrvalho é o pranto dessas planta no serenoA Lua já tá no Japão, como esse mundo é pequenoFarelos de um sonho bobinho que a luz contornaDar um tapa no quartinho, esse ano sai a reformaO som das criança indo pra escola convenceO feijão germina no algodão, a vida sempre venceAs nuvens curiosas, como sãoSe vestem de cabelo crespo, anciãoCaminham lento, lá pra cima, o firmamentoPois no fundo ela se finge de neblinaPra ver o amor dos dois mundosFonte: EMICIDA. Disponível em:https://www.letras.mus.br/emicida/a-ordem-natural-das-coisas-part-mc-tha/. Acesso em: 08 jul. 2024.TEXTO II

Fonte: https://x.com/maxmacieldf/status/130185
1089407561728?t=q7z9woZ4a6CCgeoq-LT Jg&s=19. Acesso em:
08 jul. 2024.
A letra de canção de Emicida, Texto I, e o post, Texto II, aproximam-se com relação à temática.O trecho metafórico do Texto I que confirma essa afirmação é:EC9001AC-3B Português
PontuaçãoUniversidade Federal de Juiz de Fora - MG · 2024FácilEntre para guardar nos favoritosLeia o Texto I a seguir, uma letra de canção do rapper Emicida, para resolver a questão.TEXTO IA ordem natural das coisasEmicidaA merendeira desce, o ônibus saiDona Maria já se foi, só depois é que o Sol nasceDe madruga é que as aranha tece no breuE amantes ofegantes vão pro mundo de MorfeuE o Sol só vem depoisO Sol só vem depoisÉ o astro rei, ok, mas vem depoisO Sol só vem depoisAnunciado no latir dos cães, no cantar dos galosNa calma das mães, que quer o rebento cem por centoE diz: Leva o documento, sonNa São Paulo das manhã que tem lá seus VietnãNa vela que o vento apaga, afaga quando passaA brasa dorme fria e só quem dança é a fumaçaOrvalho é o pranto dessas planta no serenoA Lua já tá no Japão, como esse mundo é pequenoFarelos de um sonho bobinho que a luz contornaDar um tapa no quartinho, esse ano sai a reformaO som das criança indo pra escola convenceO feijão germina no algodão, a vida sempre venceAs nuvens curiosas, como sãoSe vestem de cabelo crespo, anciãoCaminham lento, lá pra cima, o firmamentoPois no fundo ela se finge de neblinaPra ver o amor dos dois mundosFonte: EMICIDA. Disponível em:https://www.letras.mus.br/emicida/a-ordem-natural-das-coisas-part-mc-tha/. Acesso em: 08 jul. 2024.O uso dos dois pontos em “E diz: Leva o documento, son” indica a inserção de:EC8B7B3F-3B Português
Interpretação de TextosUniversidade Federal de Juiz de Fora - MG · 2024FácilEntre para guardar nos favoritosLeia o Texto I a seguir, uma letra de canção do rapper Emicida, para resolver a questão.TEXTO IA ordem natural das coisasEmicidaA merendeira desce, o ônibus saiDona Maria já se foi, só depois é que o Sol nasceDe madruga é que as aranha tece no breuE amantes ofegantes vão pro mundo de MorfeuE o Sol só vem depoisO Sol só vem depoisÉ o astro rei, ok, mas vem depoisO Sol só vem depoisAnunciado no latir dos cães, no cantar dos galosNa calma das mães, que quer o rebento cem por centoE diz: Leva o documento, sonNa São Paulo das manhã que tem lá seus VietnãNa vela que o vento apaga, afaga quando passaA brasa dorme fria e só quem dança é a fumaçaOrvalho é o pranto dessas planta no serenoA Lua já tá no Japão, como esse mundo é pequenoFarelos de um sonho bobinho que a luz contornaDar um tapa no quartinho, esse ano sai a reformaO som das criança indo pra escola convenceO feijão germina no algodão, a vida sempre venceAs nuvens curiosas, como sãoSe vestem de cabelo crespo, anciãoCaminham lento, lá pra cima, o firmamentoPois no fundo ela se finge de neblinaPra ver o amor dos dois mundosFonte: EMICIDA. Disponível em:https://www.letras.mus.br/emicida/a-ordem-natural-das-coisas-part-mc-tha/. Acesso em: 08 jul. 2024.A partir da letra da música de Emicida “A ordem natural das coisas”, infere-se que:250F9016-3A Português
Interpretação de TextosUniversidade Federal de Juiz de Fora - MG · 2024MédioEntre para guardar nos favoritosPela primeira vez na história do país, o Censo 2022 investigou a população quilombola e suas características demográficas, geográficas e socioeconômicas, obtendo informações fundamentais para aprofundar o conhecimento e orientar políticas públicas.
Fonte: Censo de 2022 – IBGE Adaptado de https://encurtador.com.br/r9bIC Acesso em 26 de jun. de 2024.O padrão da pirâmide etária ilustrada indica250C9F64-3A Português
Interpretação de TextosUniversidade Federal de Juiz de Fora - MG · 2024FácilEntre para guardar nos favoritosLeia os excertos a seguir:
“A cada 100 domicílios particulares no Brasil, 13 estão vagos. É o que revelam os dados publicados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) na última quarta-feira, 28 de junho.
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Ao todo, o IBGE contou 11,4 milhões de casas e apartamentos vazios no país. A proporção aumentou comparada ao censo anterior: em 2010, eram 9 a cada 100.
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O estado com a maior quantidade de domicílios vazios é São Paulo, com 2 milhões. Isso representa 12% das moradias particulares contadas pelo IBGE no estado. A capital também é o município com maior quantidade de moradias vazias: são 588 mil casas e apartamentos vagos. O número é o dobro do valor de 2010.
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A quantidade de domicílios vazios é duas vezes maior que o déficit habitacional no país. Dados da Fundação João Pinheiro mostram que, em 2019, o déficit habitacional no Brasil era de mais de 5,9 milhões de domicílios.”
Fonte: https://apublica.org/2023/06/censo-2022-brasil-tem-11- milhoes-de-casas-e-apartamentos-vagos/. Acesso em 01 de jul de 2024.
Os excertos acima expressam uma contradição entre o número de imóveis vazios e o déficit habitacional no Brasil. Segundo os dados apresentados, há mais domicílios vazios que famílias sem habitação no país, e a tendência é de agravamento do fenômeno.
Entre outros fatores, esta contradição se deve:
2509A9D1-3A Português
Interpretação de TextosUniversidade Federal de Juiz de Fora - MG · 2024FácilEntre para guardar nos favoritosAnalise o gráfico a seguir:

Fonte: Censo Agropecuário (1980, 1985, 1995, 2006, 2017); Pesquisa Agrícola Municipal (PAM).
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o setor agropecuário respondeu por 7,66% do Valor Adicionado Bruto (VAB) da economia brasileira em 2021. Neste setor, destaca-se a soja em grão, cuja participação foi de 41,61% do valor agropecuário total produzido no mesmo ano.
Com base nestas informações e no gráfico acima, é CORRETO afirmar que a diminuição do número de pessoal ocupado em estabelecimentos rurais no Brasil entre 1980 e 2017 se deve
25068952-3A Português
Interpretação de TextosUniversidade Federal de Juiz de Fora - MG · 2024DifícilEntre para guardar nos favoritosLeia o excerto e o gráfico a seguir:
Censo do IBGE: Cidades médias ’puxam’ crescimento do Brasil
Dos mais de 12 milhões de habitantes que o Brasil ganhou entre 2010 e 2022, 8,3 milhões (67,5%) foram em municípios com população de 100 mil a 499 mil habitantes.
Distribuição de moradores por tamanhos de cidades (Censos de 2010 e 2022)

Fonte: https://g1.globo.com/economia/censo/noticia/ 2023/07/01/censo-do-ibge-cidades-medias-puxam-crescimento-dobrasil.ghtml Acesso em 17 de maio de 2024.
O crescimento populacional das cidades médias no Brasil é explicado pela:
250382EB-3A Português
Interpretação de TextosUniversidade Federal de Juiz de Fora - MG · 2024MédioEntre para guardar nos favoritosLeia o excerto a seguir:
“A cidade de Maceió, capital do estado de Alagoas, vive uma catástrofe urbana que antes era inédita no país. O colapso se dá em decorrência do processo de subsidência do solo, ou seja, do afundamento do solo como consequência da desestabilização de cavernas abertas para exploração de salgema pela atual mineradora Braskem. O problema levou a remoção compulsória de mais de 57 mil pessoas, moradores de quatro bairros da cidade: Bebedouro, Mutange, Bom Parto e Pinheiro – além de áreas do bairro do Farol. A desocupação de mais de 14 mil imóveis se deu em um curto espaço de tempo e sem prévia indenização das famílias atingidas.”
Fonte: BULHOES, J. A. Colapso urbano? Narrativas de moradores ˜ do Pinheiro sobre a subsidˆencia do solo em Macei´o. In: MANSUR, M.; WANDERLEY, L. J. Colapso Mineral em Macei´o: o desastre da Braskem. 2023. p.18.
O afundamento do solo em bairros de Maceió (AL) em decorrência da exploração do sal-gema se soma aos rompimentos de barragem da Vale em Brumadinho (MG) e Samarco em Mariana (MG) como grandes desastres associados ao setor mineral no Brasil nos últimos anos. Do ponto de vista econômico, estes tipos de desastres estão associados