Leia o trecho do romance Os ratos, de Dyonelio Machado,
para responder às questões.
1 Havia momentos a conversa tinha esfriado. Alcides, à sua
frente, olha, longe, a rua. Naziazeno acompanha, meio furtivamente, os gestos do Carvalho, que se prepara para sair. Já
tirou o porte-monnaie1 do bolso de trás das calças, torcendo--se um pouco; tornou a colocá-lo onde estava, depois de o
examinar com o olho bem metido dentro dele, e puxou uma
cédula dum dos bolsos do lado da calça, torcendo-se ainda
mais. O garçom, a seu lado, sereno, mas com um certo grau
de impaciência latente, faz rapidamente o troco, mal lhe cai o
dinheiro nas mãos. Vai tirando as moedas de vários bolsos e
depondo-as no mármore da mesa. Carvalho, a cabeça baixa,
confere, separando-as com um dedo, como uma cozinheira
“escolhendo” feijão na tábua da mesa. Destaca uma moedinha, que põe de parte, com dedo moroso. Recolhe o resto.
Pega da bengala e dos jornais que colocara numa cadeira
ao lado e levanta-se, relanceando um olhar pelo café, olhar
que vem “ferir” o rosto de Naziazeno, que estremece, como
se um jato de holofote subitamente o iluminasse. Desvia precipitadamente a cara; põe-se a olhar para o Alcides. A figura
porém do Carvalho avança pouco a pouco na franja do seu
campo visual; é apenas um vulto negro e alto, avançando
cadenciadamente. Seus passos soam já... Naziazeno mantém
o pescoço duro... Qualquer relaxamento de músculos põe-no
cara a cara com o outro... Está começando a sentir um calor
no rosto... Os passos são mais sonoros... Alcides volta-se
lentamente para trás, na direção deles...
2 — Bom dia.
3 — Bom dia!
4 — Bom dia, Carvalho!...
5 ... E os passos agora cada vez ressoam menos... menos... extinguem-se...
6 A onda de calor foge progressivamente do seu rosto.
Naziazeno tem a impressão de haver mergulhado a face na
água fria. Acha-se um pouco trêmulo.
7 Alcides ali à sua frente, ele não se sente tão só. A cara
deslavada e ausente do outro bem podia passar por ingênua.
Ele curvava um pouco o tórax para diante, olhava em frente, as feições iguais, como de quem dorme. Quando tirava o
olhar dum foco para colocá-lo num outro, fechava habitual
mente os olhos, como quem faz um “entreato” entre as duas
visadas. Isto repetido várias vezes dava-lhe um ar de sono,
que o tornava mais ausente e ingênuo.
(Os ratos, 2022.)
1 porte-monnaie: porta-moedas.
“O garçom, a seu lado, sereno, mas com um certo grau de
impaciência latente, faz rapidamente o troco, mal lhe cai o
dinheiro nas mãos.” (1o parágrafo)
Em relação à oração que a precede, a oração sublinhada
expressa uma circunstância de