O ladrão que furta para comer não vai nem leva ao inferno: os que não só vão, mas levam, de que eu trato, são outros ladrões de…
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O ladrão que furta para comer não vai nem leva ao
inferno: os que não só vão, mas levam, de que eu trato, são outros
ladrões de maior calibre e de mais alta esfera; os quais debaixo
do mesmo nome e do mesmo predicamento distingue muito bem
São Basílio Magno. Não só são ladrões, diz o santo, os que
cortam bolsas, ou espreitam os que se vão banhar para lhes colher
a roupa; os ladrões que mais própria e dignamente merecem este
título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e
legiões ou o governo das províncias, ou a administração das
cidades, os quais já com mancha, já com forças roubam cidades e
reinos: os outros furtam debaixo do seu risco, estes sem temor
nem perigo: os outros, se furtam, são enforcados; estes furtam e
enforcam. Diógenes que tudo via com mais aguda vista que os
outros homens viu que uma grande tropa de varas e ministros da
justiça levava a enforcar uns ladrões e começou a bradar: lá vão
os ladrões grandes a enforcar os pequenos... Quantas vezes se viu
em Roma a enforcar o ladrão por ter roubado um carneiro, e no
mesmo dia ser levado em triunfo, um cônsul, ou ditador por ter
roubado uma província?... De Seronato disse com discreta
contraposição Sidônio Apolinário: Nom cessat simul furta, vel
punire, vel facere. Seronato está sempre ocupado em duas coisas:
em castigar furtos, e em os fazer. Isto não era zelo de justiça,
senão inveja. Queria tirar os ladrões do mundo para roubar ele
só! Declarando assim por palavras não minhas, senão de muito
bons autores, quão honrados e autorizados sejam os ladrões de
que falo, estes são os que disse, e digo levam consigo os reis ao
inferno.
VIEIRA, Antônio. O sermão do bom ladrão. Disponível em:
www.dominiopublico.gov.br. Acesso em: nov. 2016 (adaptado).
Padre Antônio Vieira, clérigo jesuíta de origem portuguesa que
viveu no Brasil no século XVII, proferiu inúmeros sermões que
articulavam questões teológicas e políticas. Em O Sermão do
Bom Ladrão — apresentado em 1655, em Lisboa —, para
convencer sua audiência do ponto de vista defendido sobre a
classe política, Vieira adota como estratégia
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