Questões do ENEM: Linguagens e Universidade Estadual Paulista (UNESP)

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688 questões encontradas. Mostrando a página 6 de 35.

  • 9B378FE7-31

    Português

    Morfologia - Verbos
    UNESP · 2024MédioEntre para guardar nos favoritos
    Para responder à questão, leia o conto “Passei por um sonho”, do escritor angolano José Eduardo Agualusa (1960- ).


    1   Começou com um sonho. Afinal, é como começa quase tudo. Justo Santana, enfermeiro de profissão, sonhou um pássaro.

          — Passei por um sonho — disse à mulher quando esta acordou —, e vi um pássaro.

          A mulher quis saber que espécie de pássaro, mas Justo Santana não foi capaz de precisar. Era um pássaro grande, grave, branco como um ferro incandescente, e com umas asas ainda mais brilhosas, que o dito pássaro usava sempre abertas, de tal maneira que fazia lembrar Jesus Cristo pregado na cruz.

         — Fui sonhado por ti — disse-lhe o pássaro —, com o fim de esclarecer o espírito dos Homens e de trazer a liberdade a este pobre país.

    5   O discurso do pássaro assustou o enfermeiro, homem simples, tímido, avesso a confrontos, e sem qualquer vocação para a política.

          — Foi apenas um sonho — disse à mulher —, um sonho estúpido.

         Na noite seguinte, porém, o pássaro voltou a aparecer- -lhe. Estava ainda mais branco, mais trágico, e parecia aborrecido com o desinteresse do enfermeiro:

           — Ordeno-te que vás por esse país fora e digas a todos os homens que se preparem para um mundo novo. Os brancos vão partir e os pretos ocuparão as casas, os palácios, as igrejas e os quartéis, e a liberdade há de reinar para sempre.

          Dizendo isto sacudiu as asas e as suas penas espalharam-se pelo quarto:

    10  — Com estas minhas penas hás de curar os enfermos — disse o pássaro —, e assim até os mais incrédulos acreditarão em ti e seguirão os teus passos.

        Quando Justo Santana despertou o quarto brilhava com o esplendor das penas. Na manhã desse mesmo dia o enfermeiro serviu-se de uma delas para curar um homem com elefantíase e à tardinha devolveu a vista a um cego. Passado apenas um mês a sua fama de santo e milagreiro já se espalhara muito para além das margens do Rio Zaire e à porta da sua casa ia crescendo uma multidão de padecentes. [...]

       Justo Santana colocava na boca dos enfermos uma pena do pássaro, como se fosse uma hóstia, e estes imediatamente ganhavam renovado alento. Enquanto fazia isto o enfermeiro repetia os discursos do pássaro, incapaz de compreender a fúria daquelas palavras e o alcance delas. Todas as noites sonhava com a ave e todas as noites esta o forçava a decorar um discurso novo, após o que sacudia as asas, espalhando pelo ar morto do quarto as penas milagrosas:

         — Se esse pássaro continuar assim tão generoso — disse Justo Santana à mulher —, ainda o veremos transformado numa alma despenada.

         Isto durou um ano. Então, numa manhã de cacimbo1 , apareceram quatro soldados à porta da casa, afastaram com rancor a multidão de desvalidos, e levaram Justo Santana. O infeliz foi acusado de fomentar o terrorismo e a sublevação, e desterrado para uma praia remota, em pleno deserto do Namibe, onde passou a exercer o ofício de faroleiro.

    15 Quando o encontrei, muitos anos depois, em Luanda2 , ele falou-me desse desterro com nostalgia:

          — Foi a melhor época da minha vida.

          Encontrei-o doente, estendido numa larga cama de ferro, sob lençóis muito brancos. No quarto havia apenas a cama e um pequeno crucifixo preso à parede. Na sala ao lado os devotos rezavam murmurosas ladainhas. Aquela era a sede da Igreja do Divino Espírito. Não tinha sido nada fácil chegar até junto do enfermeiro: os seus seguidores guardavam-no corno a uma relíquia — na verdade mantinham-no preso ali, naquele quarto, quase isolado do mundo, desde 19753.

         A melhor época da vida de Justo Santana terminou de forma trágica, numa noite de tempestade, quando um bando de aves migratórias caiu sobre o farol. Enlouquecidas pela luz as avezinhas batiam contra o cristal até quebrarem as asas, sendo depois arrastadas pelo vento. Isto está sempre a acontecer. Milhares de aves migratórias morrem todos os anos traídas pelo fulgor dos faróis. Naquela noite, desrespeitando as normas, Justo Santana foi em socorro das aves e desligou o farol. Teve pouca sorte: um barco com tropas, de regresso à metrópole, perdeu-se na escuridão e encalhou na praia. Dessa vez o enfermeiro foi julgado, condenado a quinze anos de prisão, e enviado para o Tarrafal4 , em Cabo Verde. Foi solto com a Revolução de Abril5 e regressou a Angola.

         Quando o visitei, antes de me ir embora, quis saber se o pássaro ainda lhe frequentava os sonhos. Ele olhou em redor para se certificar de que estávamos sozinhos:

    20   — Estrangulei-o — segredou com um sorriso cúmplice —, mas enquanto eu for vivo não conte isto a ninguém.

    (Rita Chaves (org.).
    Contos africanos dos países de língua portuguesa, 2009.)


    1cacimbo: estação com elevado índice de umidade caracterizada pela descida gradual da temperatura e pelo aumento da nebulosidade.

    2 Luanda: capital de Angola.

    3Angola tornou-se um país independente em 1975.

    4Tarrafal: antiga colônia penal portuguesa.

    5Ocorrida em 25 de abril de 1974, a Revolução de Abril, também conhecida como Revolução dos Cravos, restabeleceu a democracia em Portugal, abrindo caminho para o processo de descolonização dos países da África.

    “Fui sonhado por ti” (4o parágrafo)


    Transposto para a voz ativa, o trecho assume a seguinte redação:

    Escolha uma alternativa para a questão 9b378fe7-31
  • 9B34F460-31

    Português

    Morfologia - Verbos
    UNESP · 2024FácilEntre para guardar nos favoritos
    Para responder à questão, leia o conto “Passei por um sonho”, do escritor angolano José Eduardo Agualusa (1960- ).


    1   Começou com um sonho. Afinal, é como começa quase tudo. Justo Santana, enfermeiro de profissão, sonhou um pássaro.

          — Passei por um sonho — disse à mulher quando esta acordou —, e vi um pássaro.

          A mulher quis saber que espécie de pássaro, mas Justo Santana não foi capaz de precisar. Era um pássaro grande, grave, branco como um ferro incandescente, e com umas asas ainda mais brilhosas, que o dito pássaro usava sempre abertas, de tal maneira que fazia lembrar Jesus Cristo pregado na cruz.

         — Fui sonhado por ti — disse-lhe o pássaro —, com o fim de esclarecer o espírito dos Homens e de trazer a liberdade a este pobre país.

    5   O discurso do pássaro assustou o enfermeiro, homem simples, tímido, avesso a confrontos, e sem qualquer vocação para a política.

          — Foi apenas um sonho — disse à mulher —, um sonho estúpido.

         Na noite seguinte, porém, o pássaro voltou a aparecer- -lhe. Estava ainda mais branco, mais trágico, e parecia aborrecido com o desinteresse do enfermeiro:

           — Ordeno-te que vás por esse país fora e digas a todos os homens que se preparem para um mundo novo. Os brancos vão partir e os pretos ocuparão as casas, os palácios, as igrejas e os quartéis, e a liberdade há de reinar para sempre.

          Dizendo isto sacudiu as asas e as suas penas espalharam-se pelo quarto:

    10  — Com estas minhas penas hás de curar os enfermos — disse o pássaro —, e assim até os mais incrédulos acreditarão em ti e seguirão os teus passos.

        Quando Justo Santana despertou o quarto brilhava com o esplendor das penas. Na manhã desse mesmo dia o enfermeiro serviu-se de uma delas para curar um homem com elefantíase e à tardinha devolveu a vista a um cego. Passado apenas um mês a sua fama de santo e milagreiro já se espalhara muito para além das margens do Rio Zaire e à porta da sua casa ia crescendo uma multidão de padecentes. [...]

       Justo Santana colocava na boca dos enfermos uma pena do pássaro, como se fosse uma hóstia, e estes imediatamente ganhavam renovado alento. Enquanto fazia isto o enfermeiro repetia os discursos do pássaro, incapaz de compreender a fúria daquelas palavras e o alcance delas. Todas as noites sonhava com a ave e todas as noites esta o forçava a decorar um discurso novo, após o que sacudia as asas, espalhando pelo ar morto do quarto as penas milagrosas:

         — Se esse pássaro continuar assim tão generoso — disse Justo Santana à mulher —, ainda o veremos transformado numa alma despenada.

         Isto durou um ano. Então, numa manhã de cacimbo1 , apareceram quatro soldados à porta da casa, afastaram com rancor a multidão de desvalidos, e levaram Justo Santana. O infeliz foi acusado de fomentar o terrorismo e a sublevação, e desterrado para uma praia remota, em pleno deserto do Namibe, onde passou a exercer o ofício de faroleiro.

    15 Quando o encontrei, muitos anos depois, em Luanda2 , ele falou-me desse desterro com nostalgia:

          — Foi a melhor época da minha vida.

          Encontrei-o doente, estendido numa larga cama de ferro, sob lençóis muito brancos. No quarto havia apenas a cama e um pequeno crucifixo preso à parede. Na sala ao lado os devotos rezavam murmurosas ladainhas. Aquela era a sede da Igreja do Divino Espírito. Não tinha sido nada fácil chegar até junto do enfermeiro: os seus seguidores guardavam-no corno a uma relíquia — na verdade mantinham-no preso ali, naquele quarto, quase isolado do mundo, desde 19753.

         A melhor época da vida de Justo Santana terminou de forma trágica, numa noite de tempestade, quando um bando de aves migratórias caiu sobre o farol. Enlouquecidas pela luz as avezinhas batiam contra o cristal até quebrarem as asas, sendo depois arrastadas pelo vento. Isto está sempre a acontecer. Milhares de aves migratórias morrem todos os anos traídas pelo fulgor dos faróis. Naquela noite, desrespeitando as normas, Justo Santana foi em socorro das aves e desligou o farol. Teve pouca sorte: um barco com tropas, de regresso à metrópole, perdeu-se na escuridão e encalhou na praia. Dessa vez o enfermeiro foi julgado, condenado a quinze anos de prisão, e enviado para o Tarrafal4 , em Cabo Verde. Foi solto com a Revolução de Abril5 e regressou a Angola.

         Quando o visitei, antes de me ir embora, quis saber se o pássaro ainda lhe frequentava os sonhos. Ele olhou em redor para se certificar de que estávamos sozinhos:

    20   — Estrangulei-o — segredou com um sorriso cúmplice —, mas enquanto eu for vivo não conte isto a ninguém.

    (Rita Chaves (org.).
    Contos africanos dos países de língua portuguesa, 2009.)


    1cacimbo: estação com elevado índice de umidade caracterizada pela descida gradual da temperatura e pelo aumento da nebulosidade.

    2 Luanda: capital de Angola.

    3Angola tornou-se um país independente em 1975.

    4Tarrafal: antiga colônia penal portuguesa.

    5Ocorrida em 25 de abril de 1974, a Revolução de Abril, também conhecida como Revolução dos Cravos, restabeleceu a democracia em Portugal, abrindo caminho para o processo de descolonização dos países da África.
    Emprega-se verbo no presente do indicativo com valor de futuro no trecho:
    Escolha uma alternativa para a questão 9b34f460-31
  • 9B32793D-31

    Português

    Interpretação de Textos
    UNESP · 2024FácilEntre para guardar nos favoritos
    Para responder à questão, leia o conto “Passei por um sonho”, do escritor angolano José Eduardo Agualusa (1960- ).


    1   Começou com um sonho. Afinal, é como começa quase tudo. Justo Santana, enfermeiro de profissão, sonhou um pássaro.

          — Passei por um sonho — disse à mulher quando esta acordou —, e vi um pássaro.

          A mulher quis saber que espécie de pássaro, mas Justo Santana não foi capaz de precisar. Era um pássaro grande, grave, branco como um ferro incandescente, e com umas asas ainda mais brilhosas, que o dito pássaro usava sempre abertas, de tal maneira que fazia lembrar Jesus Cristo pregado na cruz.

         — Fui sonhado por ti — disse-lhe o pássaro —, com o fim de esclarecer o espírito dos Homens e de trazer a liberdade a este pobre país.

    5   O discurso do pássaro assustou o enfermeiro, homem simples, tímido, avesso a confrontos, e sem qualquer vocação para a política.

          — Foi apenas um sonho — disse à mulher —, um sonho estúpido.

         Na noite seguinte, porém, o pássaro voltou a aparecer- -lhe. Estava ainda mais branco, mais trágico, e parecia aborrecido com o desinteresse do enfermeiro:

           — Ordeno-te que vás por esse país fora e digas a todos os homens que se preparem para um mundo novo. Os brancos vão partir e os pretos ocuparão as casas, os palácios, as igrejas e os quartéis, e a liberdade há de reinar para sempre.

          Dizendo isto sacudiu as asas e as suas penas espalharam-se pelo quarto:

    10  — Com estas minhas penas hás de curar os enfermos — disse o pássaro —, e assim até os mais incrédulos acreditarão em ti e seguirão os teus passos.

        Quando Justo Santana despertou o quarto brilhava com o esplendor das penas. Na manhã desse mesmo dia o enfermeiro serviu-se de uma delas para curar um homem com elefantíase e à tardinha devolveu a vista a um cego. Passado apenas um mês a sua fama de santo e milagreiro já se espalhara muito para além das margens do Rio Zaire e à porta da sua casa ia crescendo uma multidão de padecentes. [...]

       Justo Santana colocava na boca dos enfermos uma pena do pássaro, como se fosse uma hóstia, e estes imediatamente ganhavam renovado alento. Enquanto fazia isto o enfermeiro repetia os discursos do pássaro, incapaz de compreender a fúria daquelas palavras e o alcance delas. Todas as noites sonhava com a ave e todas as noites esta o forçava a decorar um discurso novo, após o que sacudia as asas, espalhando pelo ar morto do quarto as penas milagrosas:

         — Se esse pássaro continuar assim tão generoso — disse Justo Santana à mulher —, ainda o veremos transformado numa alma despenada.

         Isto durou um ano. Então, numa manhã de cacimbo1 , apareceram quatro soldados à porta da casa, afastaram com rancor a multidão de desvalidos, e levaram Justo Santana. O infeliz foi acusado de fomentar o terrorismo e a sublevação, e desterrado para uma praia remota, em pleno deserto do Namibe, onde passou a exercer o ofício de faroleiro.

    15 Quando o encontrei, muitos anos depois, em Luanda2 , ele falou-me desse desterro com nostalgia:

          — Foi a melhor época da minha vida.

          Encontrei-o doente, estendido numa larga cama de ferro, sob lençóis muito brancos. No quarto havia apenas a cama e um pequeno crucifixo preso à parede. Na sala ao lado os devotos rezavam murmurosas ladainhas. Aquela era a sede da Igreja do Divino Espírito. Não tinha sido nada fácil chegar até junto do enfermeiro: os seus seguidores guardavam-no corno a uma relíquia — na verdade mantinham-no preso ali, naquele quarto, quase isolado do mundo, desde 19753.

         A melhor época da vida de Justo Santana terminou de forma trágica, numa noite de tempestade, quando um bando de aves migratórias caiu sobre o farol. Enlouquecidas pela luz as avezinhas batiam contra o cristal até quebrarem as asas, sendo depois arrastadas pelo vento. Isto está sempre a acontecer. Milhares de aves migratórias morrem todos os anos traídas pelo fulgor dos faróis. Naquela noite, desrespeitando as normas, Justo Santana foi em socorro das aves e desligou o farol. Teve pouca sorte: um barco com tropas, de regresso à metrópole, perdeu-se na escuridão e encalhou na praia. Dessa vez o enfermeiro foi julgado, condenado a quinze anos de prisão, e enviado para o Tarrafal4 , em Cabo Verde. Foi solto com a Revolução de Abril5 e regressou a Angola.

         Quando o visitei, antes de me ir embora, quis saber se o pássaro ainda lhe frequentava os sonhos. Ele olhou em redor para se certificar de que estávamos sozinhos:

    20   — Estrangulei-o — segredou com um sorriso cúmplice —, mas enquanto eu for vivo não conte isto a ninguém.

    (Rita Chaves (org.).
    Contos africanos dos países de língua portuguesa, 2009.)


    1cacimbo: estação com elevado índice de umidade caracterizada pela descida gradual da temperatura e pelo aumento da nebulosidade.

    2 Luanda: capital de Angola.

    3Angola tornou-se um país independente em 1975.

    4Tarrafal: antiga colônia penal portuguesa.

    5Ocorrida em 25 de abril de 1974, a Revolução de Abril, também conhecida como Revolução dos Cravos, restabeleceu a democracia em Portugal, abrindo caminho para o processo de descolonização dos países da África.
    No conto, os discursos do pássaro são caracterizados, sobretudo, como
    Escolha uma alternativa para a questão 9b32793d-31
  • 9B2FC9F5-31

    Português

    Interpretação de Textos
    UNESP · 2024FácilEntre para guardar nos favoritos
    Para responder à questão, leia o conto “Passei por um sonho”, do escritor angolano José Eduardo Agualusa (1960- ).


    1   Começou com um sonho. Afinal, é como começa quase tudo. Justo Santana, enfermeiro de profissão, sonhou um pássaro.

          — Passei por um sonho — disse à mulher quando esta acordou —, e vi um pássaro.

          A mulher quis saber que espécie de pássaro, mas Justo Santana não foi capaz de precisar. Era um pássaro grande, grave, branco como um ferro incandescente, e com umas asas ainda mais brilhosas, que o dito pássaro usava sempre abertas, de tal maneira que fazia lembrar Jesus Cristo pregado na cruz.

         — Fui sonhado por ti — disse-lhe o pássaro —, com o fim de esclarecer o espírito dos Homens e de trazer a liberdade a este pobre país.

    5   O discurso do pássaro assustou o enfermeiro, homem simples, tímido, avesso a confrontos, e sem qualquer vocação para a política.

          — Foi apenas um sonho — disse à mulher —, um sonho estúpido.

         Na noite seguinte, porém, o pássaro voltou a aparecer- -lhe. Estava ainda mais branco, mais trágico, e parecia aborrecido com o desinteresse do enfermeiro:

           — Ordeno-te que vás por esse país fora e digas a todos os homens que se preparem para um mundo novo. Os brancos vão partir e os pretos ocuparão as casas, os palácios, as igrejas e os quartéis, e a liberdade há de reinar para sempre.

          Dizendo isto sacudiu as asas e as suas penas espalharam-se pelo quarto:

    10  — Com estas minhas penas hás de curar os enfermos — disse o pássaro —, e assim até os mais incrédulos acreditarão em ti e seguirão os teus passos.

        Quando Justo Santana despertou o quarto brilhava com o esplendor das penas. Na manhã desse mesmo dia o enfermeiro serviu-se de uma delas para curar um homem com elefantíase e à tardinha devolveu a vista a um cego. Passado apenas um mês a sua fama de santo e milagreiro já se espalhara muito para além das margens do Rio Zaire e à porta da sua casa ia crescendo uma multidão de padecentes. [...]

       Justo Santana colocava na boca dos enfermos uma pena do pássaro, como se fosse uma hóstia, e estes imediatamente ganhavam renovado alento. Enquanto fazia isto o enfermeiro repetia os discursos do pássaro, incapaz de compreender a fúria daquelas palavras e o alcance delas. Todas as noites sonhava com a ave e todas as noites esta o forçava a decorar um discurso novo, após o que sacudia as asas, espalhando pelo ar morto do quarto as penas milagrosas:

         — Se esse pássaro continuar assim tão generoso — disse Justo Santana à mulher —, ainda o veremos transformado numa alma despenada.

         Isto durou um ano. Então, numa manhã de cacimbo1 , apareceram quatro soldados à porta da casa, afastaram com rancor a multidão de desvalidos, e levaram Justo Santana. O infeliz foi acusado de fomentar o terrorismo e a sublevação, e desterrado para uma praia remota, em pleno deserto do Namibe, onde passou a exercer o ofício de faroleiro.

    15 Quando o encontrei, muitos anos depois, em Luanda2 , ele falou-me desse desterro com nostalgia:

          — Foi a melhor época da minha vida.

          Encontrei-o doente, estendido numa larga cama de ferro, sob lençóis muito brancos. No quarto havia apenas a cama e um pequeno crucifixo preso à parede. Na sala ao lado os devotos rezavam murmurosas ladainhas. Aquela era a sede da Igreja do Divino Espírito. Não tinha sido nada fácil chegar até junto do enfermeiro: os seus seguidores guardavam-no corno a uma relíquia — na verdade mantinham-no preso ali, naquele quarto, quase isolado do mundo, desde 19753.

         A melhor época da vida de Justo Santana terminou de forma trágica, numa noite de tempestade, quando um bando de aves migratórias caiu sobre o farol. Enlouquecidas pela luz as avezinhas batiam contra o cristal até quebrarem as asas, sendo depois arrastadas pelo vento. Isto está sempre a acontecer. Milhares de aves migratórias morrem todos os anos traídas pelo fulgor dos faróis. Naquela noite, desrespeitando as normas, Justo Santana foi em socorro das aves e desligou o farol. Teve pouca sorte: um barco com tropas, de regresso à metrópole, perdeu-se na escuridão e encalhou na praia. Dessa vez o enfermeiro foi julgado, condenado a quinze anos de prisão, e enviado para o Tarrafal4 , em Cabo Verde. Foi solto com a Revolução de Abril5 e regressou a Angola.

         Quando o visitei, antes de me ir embora, quis saber se o pássaro ainda lhe frequentava os sonhos. Ele olhou em redor para se certificar de que estávamos sozinhos:

    20   — Estrangulei-o — segredou com um sorriso cúmplice —, mas enquanto eu for vivo não conte isto a ninguém.

    (Rita Chaves (org.).
    Contos africanos dos países de língua portuguesa, 2009.)


    1cacimbo: estação com elevado índice de umidade caracterizada pela descida gradual da temperatura e pelo aumento da nebulosidade.

    2 Luanda: capital de Angola.

    3Angola tornou-se um país independente em 1975.

    4Tarrafal: antiga colônia penal portuguesa.

    5Ocorrida em 25 de abril de 1974, a Revolução de Abril, também conhecida como Revolução dos Cravos, restabeleceu a democracia em Portugal, abrindo caminho para o processo de descolonização dos países da África.
    Depreende-se do conto que o narrador se encontrou com Justo Santana
    Escolha uma alternativa para a questão 9b2fc9f5-31
  • 9B29E4C5-31

    Literatura

    Gêneros Literários
    UNESP · 2024FácilEntre para guardar nos favoritos
    Para responder à questão, leia o conto “Passei por um sonho”, do escritor angolano José Eduardo Agualusa (1960- ).


    1   Começou com um sonho. Afinal, é como começa quase tudo. Justo Santana, enfermeiro de profissão, sonhou um pássaro.

          — Passei por um sonho — disse à mulher quando esta acordou —, e vi um pássaro.

          A mulher quis saber que espécie de pássaro, mas Justo Santana não foi capaz de precisar. Era um pássaro grande, grave, branco como um ferro incandescente, e com umas asas ainda mais brilhosas, que o dito pássaro usava sempre abertas, de tal maneira que fazia lembrar Jesus Cristo pregado na cruz.

         — Fui sonhado por ti — disse-lhe o pássaro —, com o fim de esclarecer o espírito dos Homens e de trazer a liberdade a este pobre país.

    5   O discurso do pássaro assustou o enfermeiro, homem simples, tímido, avesso a confrontos, e sem qualquer vocação para a política.

          — Foi apenas um sonho — disse à mulher —, um sonho estúpido.

         Na noite seguinte, porém, o pássaro voltou a aparecer- -lhe. Estava ainda mais branco, mais trágico, e parecia aborrecido com o desinteresse do enfermeiro:

           — Ordeno-te que vás por esse país fora e digas a todos os homens que se preparem para um mundo novo. Os brancos vão partir e os pretos ocuparão as casas, os palácios, as igrejas e os quartéis, e a liberdade há de reinar para sempre.

          Dizendo isto sacudiu as asas e as suas penas espalharam-se pelo quarto:

    10  — Com estas minhas penas hás de curar os enfermos — disse o pássaro —, e assim até os mais incrédulos acreditarão em ti e seguirão os teus passos.

        Quando Justo Santana despertou o quarto brilhava com o esplendor das penas. Na manhã desse mesmo dia o enfermeiro serviu-se de uma delas para curar um homem com elefantíase e à tardinha devolveu a vista a um cego. Passado apenas um mês a sua fama de santo e milagreiro já se espalhara muito para além das margens do Rio Zaire e à porta da sua casa ia crescendo uma multidão de padecentes. [...]

       Justo Santana colocava na boca dos enfermos uma pena do pássaro, como se fosse uma hóstia, e estes imediatamente ganhavam renovado alento. Enquanto fazia isto o enfermeiro repetia os discursos do pássaro, incapaz de compreender a fúria daquelas palavras e o alcance delas. Todas as noites sonhava com a ave e todas as noites esta o forçava a decorar um discurso novo, após o que sacudia as asas, espalhando pelo ar morto do quarto as penas milagrosas:

         — Se esse pássaro continuar assim tão generoso — disse Justo Santana à mulher —, ainda o veremos transformado numa alma despenada.

         Isto durou um ano. Então, numa manhã de cacimbo1 , apareceram quatro soldados à porta da casa, afastaram com rancor a multidão de desvalidos, e levaram Justo Santana. O infeliz foi acusado de fomentar o terrorismo e a sublevação, e desterrado para uma praia remota, em pleno deserto do Namibe, onde passou a exercer o ofício de faroleiro.

    15 Quando o encontrei, muitos anos depois, em Luanda2 , ele falou-me desse desterro com nostalgia:

          — Foi a melhor época da minha vida.

          Encontrei-o doente, estendido numa larga cama de ferro, sob lençóis muito brancos. No quarto havia apenas a cama e um pequeno crucifixo preso à parede. Na sala ao lado os devotos rezavam murmurosas ladainhas. Aquela era a sede da Igreja do Divino Espírito. Não tinha sido nada fácil chegar até junto do enfermeiro: os seus seguidores guardavam-no corno a uma relíquia — na verdade mantinham-no preso ali, naquele quarto, quase isolado do mundo, desde 19753.

         A melhor época da vida de Justo Santana terminou de forma trágica, numa noite de tempestade, quando um bando de aves migratórias caiu sobre o farol. Enlouquecidas pela luz as avezinhas batiam contra o cristal até quebrarem as asas, sendo depois arrastadas pelo vento. Isto está sempre a acontecer. Milhares de aves migratórias morrem todos os anos traídas pelo fulgor dos faróis. Naquela noite, desrespeitando as normas, Justo Santana foi em socorro das aves e desligou o farol. Teve pouca sorte: um barco com tropas, de regresso à metrópole, perdeu-se na escuridão e encalhou na praia. Dessa vez o enfermeiro foi julgado, condenado a quinze anos de prisão, e enviado para o Tarrafal4 , em Cabo Verde. Foi solto com a Revolução de Abril5 e regressou a Angola.

         Quando o visitei, antes de me ir embora, quis saber se o pássaro ainda lhe frequentava os sonhos. Ele olhou em redor para se certificar de que estávamos sozinhos:

    20   — Estrangulei-o — segredou com um sorriso cúmplice —, mas enquanto eu for vivo não conte isto a ninguém.

    (Rita Chaves (org.).
    Contos africanos dos países de língua portuguesa, 2009.)


    1cacimbo: estação com elevado índice de umidade caracterizada pela descida gradual da temperatura e pelo aumento da nebulosidade.

    2 Luanda: capital de Angola.

    3Angola tornou-se um país independente em 1975.

    4Tarrafal: antiga colônia penal portuguesa.

    5Ocorrida em 25 de abril de 1974, a Revolução de Abril, também conhecida como Revolução dos Cravos, restabeleceu a democracia em Portugal, abrindo caminho para o processo de descolonização dos países da África.
    Na construção de seu conto, Agualusa conjuga história e ficção, isto é, conjuga, respectivamente,
    Escolha uma alternativa para a questão 9b29e4c5-31
  • DC6B664E-8B

    Inglês

    Interpretação de texto | Reading comprehension
    UNESP · 2022Entre para guardar nos favoritos
    Considere o trecho da notícia veiculada no Reino Unido.


        A YouGov survey of more than 16,000 adults found that of the 40% of people who asked for a pay rise, just over a quarter succeeded.

    (www.theguardian.com, 03.04.2022.)


    De acordo com os dados da notícia, do total de entrevistados, aqueles que conseguiram aumento salarial representam
    Escolha uma alternativa para a questão dc6b664e-8b
  • DC3A3A19-8B

    Literatura

    Estilística
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    Leia o poema “Pneumotórax”, do poeta Manuel Bandeira (1886-1968).


    Febre, hemoptise, dispneia e suores noturnos.

    A vida inteira que podia ter sido e que não foi.

    Tosse, tosse, tosse.


    Mandou chamar o médico:


    — Diga trinta e três.

    — Trinta e três… trinta e três… trinta e três…

    — Respire.

    -----------------------------------------------------------------

    — O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o [pulmão direito infiltrado.

    — Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?

    — Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.


    (Manuel Bandeira. Estrela da vida inteira, 1993.)


    No poema, o poeta aborda,
    Escolha uma alternativa para a questão dc3a3a19-8b
  • DBEB8EE1-8B

    Inglês

    Interpretação de texto | Reading comprehension
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    Leia o texto para responder à questão.


    World’s happiest ranking goes to Finland for fifth year in a row

    Q27_29.png (300×196)

    People enjoy sunny weather on the waterfront in Helsinki.


        Finland was crowned the happiest country in the world for the fifth consecutive year, with a score significantly ahead of its peers in the World Happiness Report 2022 ranking, published by a body linked to the United Nations. However, the authors detected, on average, a long-term moderate upward trend in stress, worry, and sadness in most countries, as well as “a slight long-term decline in the enjoyment of life,” they wrote.

        The report uses global survey data to report on how people evaluate their own lives in more than 150 countries around the world, with the ranking based on a three-year average. Key variables that contribute to explaining people’s life evaluations include healthy life expectancy, generosity, social support, freedom to make life choices, perceptions of corruption, and the gross domestic product per capita (an indicator that measures a country’s economic output per person, that is calculated by dividing the total gross domestic product of a country by its population).

        “World leaders should take heed,” Jeffrey Sachs, director of the Center for Sustainable Development at Columbia University, said. “Politics should be directed as the great sages long ago insisted: to the well-being of the people, not the power of the rulers.”


    (Kati Pohjanpalo. www.bloomberg.com, 18.03.2022. Adaptado.)
    No trecho do terceiro parágrafo ‘“World leaders should take heed”’, a expressão sublinhada pode ser substituída, sem alteração de sentido, por
    Escolha uma alternativa para a questão dbeb8ee1-8b
  • DBE973A5-8B

    Inglês

    Interpretação de texto | Reading comprehension
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    Leia o texto para responder à questão.


    World’s happiest ranking goes to Finland for fifth year in a row

    Q27_29.png (300×196)

    People enjoy sunny weather on the waterfront in Helsinki.


        Finland was crowned the happiest country in the world for the fifth consecutive year, with a score significantly ahead of its peers in the World Happiness Report 2022 ranking, published by a body linked to the United Nations. However, the authors detected, on average, a long-term moderate upward trend in stress, worry, and sadness in most countries, as well as “a slight long-term decline in the enjoyment of life,” they wrote.

        The report uses global survey data to report on how people evaluate their own lives in more than 150 countries around the world, with the ranking based on a three-year average. Key variables that contribute to explaining people’s life evaluations include healthy life expectancy, generosity, social support, freedom to make life choices, perceptions of corruption, and the gross domestic product per capita (an indicator that measures a country’s economic output per person, that is calculated by dividing the total gross domestic product of a country by its population).

        “World leaders should take heed,” Jeffrey Sachs, director of the Center for Sustainable Development at Columbia University, said. “Politics should be directed as the great sages long ago insisted: to the well-being of the people, not the power of the rulers.”


    (Kati Pohjanpalo. www.bloomberg.com, 18.03.2022. Adaptado.)
    De acordo com o texto, uma das variáveis que ajuda a interpretar as avaliações das pessoas sobre a sua própria vida é o 
    Escolha uma alternativa para a questão dbe973a5-8b
  • DBE76CB8-8B

    Inglês

    Interpretação de texto | Reading comprehension
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    Leia o texto para responder à questão.


    World’s happiest ranking goes to Finland for fifth year in a row

    Q27_29.png (300×196)

    People enjoy sunny weather on the waterfront in Helsinki.


        Finland was crowned the happiest country in the world for the fifth consecutive year, with a score significantly ahead of its peers in the World Happiness Report 2022 ranking, published by a body linked to the United Nations. However, the authors detected, on average, a long-term moderate upward trend in stress, worry, and sadness in most countries, as well as “a slight long-term decline in the enjoyment of life,” they wrote.

        The report uses global survey data to report on how people evaluate their own lives in more than 150 countries around the world, with the ranking based on a three-year average. Key variables that contribute to explaining people’s life evaluations include healthy life expectancy, generosity, social support, freedom to make life choices, perceptions of corruption, and the gross domestic product per capita (an indicator that measures a country’s economic output per person, that is calculated by dividing the total gross domestic product of a country by its population).

        “World leaders should take heed,” Jeffrey Sachs, director of the Center for Sustainable Development at Columbia University, said. “Politics should be directed as the great sages long ago insisted: to the well-being of the people, not the power of the rulers.”


    (Kati Pohjanpalo. www.bloomberg.com, 18.03.2022. Adaptado.)
    According to the text, the World Happiness Report 2022
    Escolha uma alternativa para a questão dbe76cb8-8b
  • DBE2D248-8B

    Inglês

    Interpretação de texto | Reading comprehension
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    Examine o gráfico e o mapa e leia o texto para responder à questão.


    In March 2022, parts of Antarctica have been 40 ºC warmer than their March average

    Q21_26.png (321×313)
    Q21_26_.png (320×389)


        The Concordia research station is one of the most inhospitable places on Earth. At 3,000m above sea level on the Antarctic Plateau, the temperature rarely rises above -25 ºC even in the summer. In midwinter it can fall to around -80 ºC. The air is painfully dry, and fingers, toes and noses can freeze in minutes. The dozen or so crew, mainly French and Italian, who live and work in the station would normally venture out only for essential work. But Concordia has recently experienced a heatwave. On March 18th the temperature reached a high of -11.8 ºC — more than 40 ºC warmer than the average for this time of year.

        Similarly freakish weather was recorded across eastern Antarctica. Temperatures at the Russian-run Vostok research station rose to -17.7 ºC, more than 15 ºC above the previous record for March, set in 1967. Across the continent temperatures were 4.5 ºC higher than usual (though in recent days they have returned to a normal range).

        Meteorologists have attributed the latest heatwave to an atmospheric “river” of warm, damp air blowing towards Antarctica from the Southern Ocean near Australia. It is difficult to know whether climate change is to blame for one-off weather events. But over the past 65 years or so there has been an increase in the number of “high temperature” days at Antarctic stations.

        Most regions of Antarctica have been spared global warming. In the late 20th century, a large hole opened up in the ozone layer above the South Pole. This has a regional cooling effect, which has offset much of the heating caused by rising concentrations of greenhouse gases in the atmosphere. Temperatures on the continent rarely climb above freezing, which preserves its vast ice sheets (although rising sea temperatures do threaten some areas). Even in the recent surge, temperatures stayed well below zero.


    (www.economist.com, 24.03.2022. Adaptado.)
    According to the third paragraph, meteorologists associate the high temperature wave in Antarctica with
    Escolha uma alternativa para a questão dbe2d248-8b
  • DBE0ACCC-8B

    Inglês

    Interpretação de texto | Reading comprehension
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    Examine o gráfico e o mapa e leia o texto para responder à questão.


    In March 2022, parts of Antarctica have been 40 ºC warmer than their March average

    Q21_26.png (321×313)
    Q21_26_.png (320×389)


        The Concordia research station is one of the most inhospitable places on Earth. At 3,000m above sea level on the Antarctic Plateau, the temperature rarely rises above -25 ºC even in the summer. In midwinter it can fall to around -80 ºC. The air is painfully dry, and fingers, toes and noses can freeze in minutes. The dozen or so crew, mainly French and Italian, who live and work in the station would normally venture out only for essential work. But Concordia has recently experienced a heatwave. On March 18th the temperature reached a high of -11.8 ºC — more than 40 ºC warmer than the average for this time of year.

        Similarly freakish weather was recorded across eastern Antarctica. Temperatures at the Russian-run Vostok research station rose to -17.7 ºC, more than 15 ºC above the previous record for March, set in 1967. Across the continent temperatures were 4.5 ºC higher than usual (though in recent days they have returned to a normal range).

        Meteorologists have attributed the latest heatwave to an atmospheric “river” of warm, damp air blowing towards Antarctica from the Southern Ocean near Australia. It is difficult to know whether climate change is to blame for one-off weather events. But over the past 65 years or so there has been an increase in the number of “high temperature” days at Antarctic stations.

        Most regions of Antarctica have been spared global warming. In the late 20th century, a large hole opened up in the ozone layer above the South Pole. This has a regional cooling effect, which has offset much of the heating caused by rising concentrations of greenhouse gases in the atmosphere. Temperatures on the continent rarely climb above freezing, which preserves its vast ice sheets (although rising sea temperatures do threaten some areas). Even in the recent surge, temperatures stayed well below zero.


    (www.economist.com, 24.03.2022. Adaptado.)
    No contexto apresentado pelo segundo parágrafo, o trecho “(though in recent days they have returned to a normal range)” indica que as temperaturas
    Escolha uma alternativa para a questão dbe0accc-8b
  • DBDC66C2-8B

    Inglês

    Interpretação de texto | Reading comprehension
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    Examine o gráfico e o mapa e leia o texto para responder à questão.


    In March 2022, parts of Antarctica have been 40 ºC warmer than their March average

    Q21_26.png (321×313)
    Q21_26_.png (320×389)


        The Concordia research station is one of the most inhospitable places on Earth. At 3,000m above sea level on the Antarctic Plateau, the temperature rarely rises above -25 ºC even in the summer. In midwinter it can fall to around -80 ºC. The air is painfully dry, and fingers, toes and noses can freeze in minutes. The dozen or so crew, mainly French and Italian, who live and work in the station would normally venture out only for essential work. But Concordia has recently experienced a heatwave. On March 18th the temperature reached a high of -11.8 ºC — more than 40 ºC warmer than the average for this time of year.

        Similarly freakish weather was recorded across eastern Antarctica. Temperatures at the Russian-run Vostok research station rose to -17.7 ºC, more than 15 ºC above the previous record for March, set in 1967. Across the continent temperatures were 4.5 ºC higher than usual (though in recent days they have returned to a normal range).

        Meteorologists have attributed the latest heatwave to an atmospheric “river” of warm, damp air blowing towards Antarctica from the Southern Ocean near Australia. It is difficult to know whether climate change is to blame for one-off weather events. But over the past 65 years or so there has been an increase in the number of “high temperature” days at Antarctic stations.

        Most regions of Antarctica have been spared global warming. In the late 20th century, a large hole opened up in the ozone layer above the South Pole. This has a regional cooling effect, which has offset much of the heating caused by rising concentrations of greenhouse gases in the atmosphere. Temperatures on the continent rarely climb above freezing, which preserves its vast ice sheets (although rising sea temperatures do threaten some areas). Even in the recent surge, temperatures stayed well below zero.


    (www.economist.com, 24.03.2022. Adaptado.)
    As informações apresentadas pelo gráfico também podem ser encontradas
    Escolha uma alternativa para a questão dbdc66c2-8b
  • DBD9EE33-8B

    Inglês

    Interpretação de texto | Reading comprehension
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    Examine o gráfico e o mapa e leia o texto para responder à questão.


    In March 2022, parts of Antarctica have been 40 ºC warmer than their March average

    Q21_26.png (321×313)
    Q21_26_.png (320×389)


        The Concordia research station is one of the most inhospitable places on Earth. At 3,000m above sea level on the Antarctic Plateau, the temperature rarely rises above -25 ºC even in the summer. In midwinter it can fall to around -80 ºC. The air is painfully dry, and fingers, toes and noses can freeze in minutes. The dozen or so crew, mainly French and Italian, who live and work in the station would normally venture out only for essential work. But Concordia has recently experienced a heatwave. On March 18th the temperature reached a high of -11.8 ºC — more than 40 ºC warmer than the average for this time of year.

        Similarly freakish weather was recorded across eastern Antarctica. Temperatures at the Russian-run Vostok research station rose to -17.7 ºC, more than 15 ºC above the previous record for March, set in 1967. Across the continent temperatures were 4.5 ºC higher than usual (though in recent days they have returned to a normal range).

        Meteorologists have attributed the latest heatwave to an atmospheric “river” of warm, damp air blowing towards Antarctica from the Southern Ocean near Australia. It is difficult to know whether climate change is to blame for one-off weather events. But over the past 65 years or so there has been an increase in the number of “high temperature” days at Antarctic stations.

        Most regions of Antarctica have been spared global warming. In the late 20th century, a large hole opened up in the ozone layer above the South Pole. This has a regional cooling effect, which has offset much of the heating caused by rising concentrations of greenhouse gases in the atmosphere. Temperatures on the continent rarely climb above freezing, which preserves its vast ice sheets (although rising sea temperatures do threaten some areas). Even in the recent surge, temperatures stayed well below zero.


    (www.economist.com, 24.03.2022. Adaptado.)
    The information presented by the graph, the map and the text show that in March 2022
    Escolha uma alternativa para a questão dbd9ee33-8b
  • DBD7AFFA-8B

    Literatura

    Teoria Literária
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        The literary principle according to which the writing and criticism of poetry and drama were to be guided by rules and precedents derived from the best ancient Greek and Roman authors; a codified form of classicism that dominated French literature in the 17th and 18th centuries, with a significant influence on English writing, especially from c.1660 to c.1780. In a more general sense, often employed in contrast with romanticism, the term has also been used to describe the characteristic world-view or value-system of this “Age of Reason”, denoting a preference for rationality, clarity, restraint, order, and decorum, and for general truths rather than particular insights.


    (Chris Baldick. The Concise Oxford Dictionary of Literary Terms, 2001.)


    O termo literário a que o texto se refere é o
    Escolha uma alternativa para a questão dbd7affa-8b
  • DBD53E17-8B

    Português

    Análise sintática
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    Para responder à questão, leia o trecho de um ensaio de Michel de Montaigne (1533-1592).


        Há alguma razão em fazer o julgamento de um homem pelos aspectos mais comuns de sua vida; mas, tendo em vista a natural instabilidade de nossos costumes e opiniões, muitas vezes me pareceu que mesmo os bons autores estão errados em se obstinarem em formar de nós uma ideia constante e sólida. Escolhem um caráter universal e, seguindo essa imagem, vão arrumando e interpretando todas as ações de um personagem, e, se não conseguem torcê-las o suficiente, atribuem-nas à dissimulação. Creio mais dificilmente na constância dos homens do que em qualquer outra coisa, e em nada mais facilmente do que na inconstância. Quem os julgasse nos pormenores e separadamente, peça por peça, teria mais ocasiões de dizer a verdade.

        Em toda a Antiguidade é difícil escolher uma dúzia de homens que tenham ordenado sua vida num projeto definido e seguro, que é o principal objetivo da sabedoria. Pois para resumi-la por inteiro numa só palavra e abranger em uma só todas as regras de nossa vida, “a sabedoria”, diz um antigo, “é sempre querer a mesma coisa, é sempre não querer a mesma coisa”, “eu não me dignaria”, diz ele, “a acrescentar ‘contanto que a tua vontade esteja certa’, pois se não está certa, é impossível que sempre seja uma só e a mesma.” Na verdade, aprendi outrora que o vício é apenas o desregramento e a falta de moderação; e, por conseguinte, é impossível o imaginarmos constante. É uma frase de Demóstenes, dizem, que “o começo de toda virtude são a reflexão e a deliberação, e seu fim e sua perfeição, a constância”. Se, guiados pela reflexão, pegássemos certa via, pegaríamos a mais bela, mas ninguém pensa antes de agir: “O que ele pediu, desdenha; exige o que acaba de abandonar; agita-se e sua vida não se dobra a nenhuma ordem.”


    (Michel de Montaigne. Os ensaios: uma seleção, 2010. Adaptado.)
    “o começo de toda virtude são a reflexão e a deliberação, e seu fim e sua perfeição, a constância” (2° parágrafo)


    Nesse trecho, a segunda vírgula é empregada com a finalidade de
    Escolha uma alternativa para a questão dbd53e17-8b
  • DBD31EC9-8B

    Português

    Interpretação de Textos
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    Para responder à questão, leia o trecho de um ensaio de Michel de Montaigne (1533-1592).


        Há alguma razão em fazer o julgamento de um homem pelos aspectos mais comuns de sua vida; mas, tendo em vista a natural instabilidade de nossos costumes e opiniões, muitas vezes me pareceu que mesmo os bons autores estão errados em se obstinarem em formar de nós uma ideia constante e sólida. Escolhem um caráter universal e, seguindo essa imagem, vão arrumando e interpretando todas as ações de um personagem, e, se não conseguem torcê-las o suficiente, atribuem-nas à dissimulação. Creio mais dificilmente na constância dos homens do que em qualquer outra coisa, e em nada mais facilmente do que na inconstância. Quem os julgasse nos pormenores e separadamente, peça por peça, teria mais ocasiões de dizer a verdade.

        Em toda a Antiguidade é difícil escolher uma dúzia de homens que tenham ordenado sua vida num projeto definido e seguro, que é o principal objetivo da sabedoria. Pois para resumi-la por inteiro numa só palavra e abranger em uma só todas as regras de nossa vida, “a sabedoria”, diz um antigo, “é sempre querer a mesma coisa, é sempre não querer a mesma coisa”, “eu não me dignaria”, diz ele, “a acrescentar ‘contanto que a tua vontade esteja certa’, pois se não está certa, é impossível que sempre seja uma só e a mesma.” Na verdade, aprendi outrora que o vício é apenas o desregramento e a falta de moderação; e, por conseguinte, é impossível o imaginarmos constante. É uma frase de Demóstenes, dizem, que “o começo de toda virtude são a reflexão e a deliberação, e seu fim e sua perfeição, a constância”. Se, guiados pela reflexão, pegássemos certa via, pegaríamos a mais bela, mas ninguém pensa antes de agir: “O que ele pediu, desdenha; exige o que acaba de abandonar; agita-se e sua vida não se dobra a nenhuma ordem.”


    (Michel de Montaigne. Os ensaios: uma seleção, 2010. Adaptado.)
    Em “eu não me dignaria [...] a acrescentar ‘contanto que a tua vontade esteja certa’, pois se não está certa, é impossível que sempre seja uma só e a mesma.” (2° parágrafo), a locução sublinhada pode ser substituída, sem prejuízo para o sentido do texto, por:
    Escolha uma alternativa para a questão dbd31ec9-8b
  • DBD1067E-8B

    Português

    Interpretação de Textos
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    Para responder à questão, leia o trecho de um ensaio de Michel de Montaigne (1533-1592).


        Há alguma razão em fazer o julgamento de um homem pelos aspectos mais comuns de sua vida; mas, tendo em vista a natural instabilidade de nossos costumes e opiniões, muitas vezes me pareceu que mesmo os bons autores estão errados em se obstinarem em formar de nós uma ideia constante e sólida. Escolhem um caráter universal e, seguindo essa imagem, vão arrumando e interpretando todas as ações de um personagem, e, se não conseguem torcê-las o suficiente, atribuem-nas à dissimulação. Creio mais dificilmente na constância dos homens do que em qualquer outra coisa, e em nada mais facilmente do que na inconstância. Quem os julgasse nos pormenores e separadamente, peça por peça, teria mais ocasiões de dizer a verdade.

        Em toda a Antiguidade é difícil escolher uma dúzia de homens que tenham ordenado sua vida num projeto definido e seguro, que é o principal objetivo da sabedoria. Pois para resumi-la por inteiro numa só palavra e abranger em uma só todas as regras de nossa vida, “a sabedoria”, diz um antigo, “é sempre querer a mesma coisa, é sempre não querer a mesma coisa”, “eu não me dignaria”, diz ele, “a acrescentar ‘contanto que a tua vontade esteja certa’, pois se não está certa, é impossível que sempre seja uma só e a mesma.” Na verdade, aprendi outrora que o vício é apenas o desregramento e a falta de moderação; e, por conseguinte, é impossível o imaginarmos constante. É uma frase de Demóstenes, dizem, que “o começo de toda virtude são a reflexão e a deliberação, e seu fim e sua perfeição, a constância”. Se, guiados pela reflexão, pegássemos certa via, pegaríamos a mais bela, mas ninguém pensa antes de agir: “O que ele pediu, desdenha; exige o que acaba de abandonar; agita-se e sua vida não se dobra a nenhuma ordem.”


    (Michel de Montaigne. Os ensaios: uma seleção, 2010. Adaptado.)
    No segundo parágrafo, depreende-se das reflexões de Montaigne a íntima relação entre
    Escolha uma alternativa para a questão dbd1067e-8b
  • DBCEFE25-8B

    Português

    Interpretação de Textos
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    Para responder à questão, leia o trecho de um ensaio de Michel de Montaigne (1533-1592).


        Há alguma razão em fazer o julgamento de um homem pelos aspectos mais comuns de sua vida; mas, tendo em vista a natural instabilidade de nossos costumes e opiniões, muitas vezes me pareceu que mesmo os bons autores estão errados em se obstinarem em formar de nós uma ideia constante e sólida. Escolhem um caráter universal e, seguindo essa imagem, vão arrumando e interpretando todas as ações de um personagem, e, se não conseguem torcê-las o suficiente, atribuem-nas à dissimulação. Creio mais dificilmente na constância dos homens do que em qualquer outra coisa, e em nada mais facilmente do que na inconstância. Quem os julgasse nos pormenores e separadamente, peça por peça, teria mais ocasiões de dizer a verdade.

        Em toda a Antiguidade é difícil escolher uma dúzia de homens que tenham ordenado sua vida num projeto definido e seguro, que é o principal objetivo da sabedoria. Pois para resumi-la por inteiro numa só palavra e abranger em uma só todas as regras de nossa vida, “a sabedoria”, diz um antigo, “é sempre querer a mesma coisa, é sempre não querer a mesma coisa”, “eu não me dignaria”, diz ele, “a acrescentar ‘contanto que a tua vontade esteja certa’, pois se não está certa, é impossível que sempre seja uma só e a mesma.” Na verdade, aprendi outrora que o vício é apenas o desregramento e a falta de moderação; e, por conseguinte, é impossível o imaginarmos constante. É uma frase de Demóstenes, dizem, que “o começo de toda virtude são a reflexão e a deliberação, e seu fim e sua perfeição, a constância”. Se, guiados pela reflexão, pegássemos certa via, pegaríamos a mais bela, mas ninguém pensa antes de agir: “O que ele pediu, desdenha; exige o que acaba de abandonar; agita-se e sua vida não se dobra a nenhuma ordem.”


    (Michel de Montaigne. Os ensaios: uma seleção, 2010. Adaptado.)
    No primeiro parágrafo, Montaigne ressalta que mesmo os bons autores tendem a
    Escolha uma alternativa para a questão dbcefe25-8b