Questões do ENEM: Figuras de Linguagem

Use os filtros para chegar às questões que interessam. Cada resultado abre em uma página própria com enunciado, alternativas e gabarito.

Resultados

399 questões encontradas. Mostrando a página 2 de 20.

  • 7D83AB78-68

    Português

    Figuras de Linguagem
    UEG · 2024FácilEntre para guardar nos favoritos

    Pneumotórax



    Febre, hemoptise, dispneia e suores noturnos.

    A vida inteira que podia ter sido e que não foi.

    Tosse, tosse, tosse.

    Mandou chamar o médico:

    – Diga trinta e três.

    – Trinta e três… trinta e três… trinta e três…

    – Respire.

    ………………………………………………………….

    – O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.

    – Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?

    – Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.



    BANDEIRA, Manuel. Pneumotórax. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1993. p. 206. 


    Em relação ao poema, verifica-se que
    Escolha uma alternativa para a questão 7d83ab78-68
  • 38EFBCF7-03

    Português

    Figuras de Linguagem
    UECE · 2024MédioEntre para guardar nos favoritos
    TEXTO 1


    81% dos adolescentes têm dois ou mais fatores de risco para saúde, aponta pesquisa da UFMG e Unifesp


    Q1_8.png (328×433)
    Q_1_8.png (325×392)
    Q__1_8.png (320×121)


    Do HOJE EM DIA - portal@hojeemdia.com.br em 18/07/2024 . Adaptado.
    Elipse é uma figura de linguagem caracterizada pela omissão de um termo (palavra ou expressão) no enunciado a fim de evitar a repetição desnecessária e possibilitar maior fluidez ao texto. Assinale a opção que apresenta elipse.
    Escolha uma alternativa para a questão 38efbcf7-03
  • 078CD8FF-D9

    Português

    Figuras de Linguagem
    ENEM · 2024MédioEntre para guardar nos favoritos
    A rua


         A rua nasce, como o homem, do soluço, do espasmo. Há suor humano na argamassa do seu calçamento. Cada casa que se ergue é feita do esforço exaustivo de muitos seres, e haveis de ter visto pedreiros e canteiros, ao erguer as pedras para as frontarias, cantarem, cobertos de suor, uma melopeia tão triste que pelo ar parece um arquejante soluço. A rua sente nos nervos essa miséria da criação, e por isso é a mais igualitária, a mais socialista, a mais niveladora das obras humanas.


    JOÃO DO RIO. A alma encantadora das ruas.
    São Paulo: Cia. das Letras, 2008.



    Nesse trecho, as metáforas usadas pelo narrador caracterizam a rua como um lugar que retrata a
    Escolha uma alternativa para a questão 078cd8ff-d9
  • 5DD9F158-D8

    Português

    Figuras de Linguagem
    ENEM · 2024FácilEntre para guardar nos favoritos
    pessoas com suas malas

    mochilas e valises

    chegam e se vão

    se encontram

    se despedem

    e se despem

    de seus pertences

    como se pudessem chegar

    a algum lugar

    onde elas mesmas

    não estivessem


    RUIZ, A. In: SANT’ANNA, A. Rua Aribau: coletânea de poemas.
    Porto Alegre: TAG, 2018.


    Esse poema, por meio da ideia de deslocamento, metaforiza a tentativa de pessoas
    Escolha uma alternativa para a questão 5dd9f158-d8
  • 5DD713D4-D8

    Português

    Figuras de Linguagem
    ENEM · 2024FácilEntre para guardar nos favoritos
    Se você é feito de música, este texto é pra você


    Às vezes, no silêncio da noite, eu fico imaginando: que graça teria a vida sem música? Sem ela não há paz, não há beleza. Nos dias de festa e nas madrugadas de pranto, nas trilhas dos filmes e nas corridas no parque, o que seria de nós sem as canções que enfeitam o cotidiano com ritmo e verso? Quem nunca curou uma dor de cotovelo dançando lambada ou terminou de se afundar ouvindo sertanejo sofrência? Quantos já criticaram funk e fecharam a noite descendo até o chão? Tudo bem... Raul nos ensinou que é preferível ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo.

    Já somos castigados com o peso das tragédias, o barulho das buzinas, os ruídos dos conflitos. É pau, é pedra, é o fim do caminho. Há uma nuvem de lágrimas sobre os olhos, você está na lanterna dos afogados, o coração despedaçado. Mas, como um sopro, da janela do vizinho, entra o samba que reanima a mente. Floresce do fundo do nosso quintal a batida que ressuscita o ânimo, sintoniza a alegria e equaliza o fôlego. Levanta, sacode a poeira, dá a volta por cima.

    BITTAR, L. Disponível em: www.revistabula.com. Acesso em: 21 nov. 2021 (adaptado).


    Defendendo a importância da música para o bem-estar e o equilíbrio emocional das pessoas, a autora usa, como recurso persuasivo, a
    Escolha uma alternativa para a questão 5dd713d4-d8
  • 5DAE1AAF-D8

    Português

    Figuras de Linguagem
    ENEM · 2024DifícilEntre para guardar nos favoritos
    TEXTO I


    Capítulo 4, versículo 3


    Minha palavra vale um tiro, eu tenho muita munição

    Na queda ou na ascensão, minha atitude vai além

    E tem disposição pro mal e pro bem

    Talvez eu seja um sádico ou um anjo, um mágico

    Ou juiz, ou réu, o bandido do céu

    Malandro ou otário, quase sanguinário

    Franco atirador se for necessário

    Revolucionário, insano, ou marginal

    Antigo e moderno, imortal

    Fronteira do céu com o inferno

    Astral imprevisível, como um ataque cardíaco do verso.


    RACIONAIS MCs. Sobrevivendo ao inferno.
    São Paulo: Cosa Nostra, 1997 (fragmento).


    TEXTO II

    Pode-se dizer que as várias experiências narradas nos discos do Racionais tratam no fundo de um só tema: a violência que estrutura a nossa sociedade. O grupo canta a violência que estrutura as relações entre os familiares, os amigos, o homem e a mulher, o traficante e o viciado. Canta a violência do crime. A violência causada por inveja ou por vaidade. Também canta que a relação entre as classes sociais é sempre violenta: o racismo, a miséria, os baixos salários, a concentração de renda, a esmola, a publicidade, o alcoolismo, o jornalismo, o poder policial, a justiça, o sistema penitenciário, o governo existem por meio da violência.

    GARCIA, W. Ouvindo Racionais MCs. Teresa: revista de literatura brasileira, n. 5, 2004 (adaptado).


    Na letra da canção, a tematização da violência mencionada no Texto II manifesta-se

    Escolha uma alternativa para a questão 5dae1aaf-d8
  • CA034CC6-75

    Português

    Figuras de Linguagem
    Faculdades de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo · 2023Entre para guardar nos favoritos
    Examine o cartum de Richard Bittencourt, o Fí, publicado em sua conta do Instagram em 13.05.2023.


    Imagem da questão de Português, da prova de 2023



    Para obter seu efeito de humor, o cartum explora o seguinte recurso expressivo:
    Escolha uma alternativa para a questão ca034cc6-75
  • D3121E1F-74

    Português

    Figuras de Linguagem
    Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto · 2023Entre para guardar nos favoritos
    Leia o artigo “Sobre homens e ratos”, do médico Drauzio Varella, para responder à questão.

            Mulheres e homens têm apenas 30 mil genes! A divulgação desse dado pelo Projeto Genoma foi um balde de água fria no orgulho humano: imaginávamos que fossem pelo menos 100 mil. Se as moscas têm 13 mil genes, qualquer verme, 20 mil, um abacateiro, 25 mil, e os camundongos que caçamos nas ratoeiras têm 30 mil, 100 mil para nós parecia uma estimativa razoável. Afinal, não foi culpa nossa havermos sido criados à imagem e semelhança de Deus. A bem da verdade, já sabíamos que cerca de 98% de nossas sequências de DNA são idênticas às dos chimpanzés. Mas chimpanzés são animais políticos que formam comunidades com culturas próprias, uti lizam instrumentos rudimentares e matam seus semelhantes premeditadamente. São, por assim dizer, seres mais humanos. Admitir, no entanto, que nosso genoma é formado pelo mesmo número de genes dos ratos, e que somente 300 genes são responsáveis pelas diferenças entre nós e eles, constitui humilhação inaceitável.

            A visão antropocêntrica, segundo a qual a vida na Terra teria evoluído dos seres unicelulares para indivíduos cada vez mais complexos até chegar ao homem, é um mau entendi mento das leis da natureza. No “ranking” evolutivo, não existe primeira posição. A prova é que as bactérias foram os primeiros habitantes do planeta e não só ainda estão por aí como representam mais da metade da biomassa terrestre, isto é, se somarmos o peso de cada uma, obteremos mais da metade da massa de todos os demais seres vivos somados, incluindo árvores, elefantes e baleias. O Homo sapiens é simplesmente uma entre milhões de espécies. Nascemos há 5 milhões de anos, um segundo evolutivo comparado aos 4 bilhões de anos das bactérias. Não fizemos nenhuma falta à vida na Terra durante praticamente toda a existência dela e, se um dia formos extintos, nenhuma formiga, cigarra ou besouro chorará a nossa ausência. A evolução continuará seu caminho inexorável de competição e seleção natural, como ensinaram Charles Darwin e Alfred Wallace.

            Na verdade, os números do Projeto Genoma são lógicos. Os seres vivos mantêm a quase totalidade de seus genes ocupados na execução das tarefas do dia a dia: respiração, circulação, movimentação, digestão, excreção e produção de energia, entre outras. Muitos desses genes são tão essenciais ao trabalho doméstico que a evolução os preservou praticamente intactos de um ser vivo para outro. Entender a razão pela qual temos 30 mil genes como os ratos é fácil: eles são mamíferos como nós e apresentam fisiologia tão semelhante à nossa que podem ser utilizados em experiências para entender a fisiologia humana. O que intriga na evolução não é a proximidade genética entre as espécies, mas os genes responsáveis pelas diferenças.

    (Drauzio Varella. Borboletas da alma: escritos sobre ciência e saúde, 2006. Adaptado.)
    Reveste-se de uma tonalidade irônica o seguinte trecho do artigo:
    Escolha uma alternativa para a questão d3121e1f-74
  • D30972D9-74

    Português

    Figuras de Linguagem
    Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto · 2023Entre para guardar nos favoritos

    Examine o cartum de Rafael Corrêa, publicado em sua conta no Instagram em 15.04.2022.


    1.png (213×166)


    Na construção de seu sentido, o cartum mobiliza fundamentalmente o seguinte recurso expressivo:

    Escolha uma alternativa para a questão d30972d9-74
  • 82B6A770-73

    Português

    Denotação e Conotação
    Faculdade Evangélica Mackenzie do Paraná · 2023Entre para guardar nos favoritos
    Um livro de frases célebres traz, em sua contracapa, o seguinte texto, de autoria de Luís Fernando Veríssimo:

    “Que sacada!” é a frase que você mais dirá, folheando este livro. E não é um livro de arquitetura!

    O humor desse pequeno texto é formado a partir de uma característica da linguagem. Assinale a opção que a apresenta. 
    Escolha uma alternativa para a questão 82b6a770-73
  • B0BC8E78-04

    Português

    Figuras de Linguagem
    UFGD · 2023DifícilEntre para guardar nos favoritos
    Construção

    Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
    Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
    Dançou e gargalhou como se ouvisse música

    E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
    E flutuou no ar como se fosse um pássaro
    E se acabou no chão feito um pacote flácido


    BUARQUE, Chico. Construção. In: Construção. Rio de Janeiro: Philips/Phonogram, 1971(fragmento). [Disco de Vinil e Capa].


    Assinale a alternativa que faz referência correta a esse trecho da música Construção, de Chico Buarque de Holanda.
    Escolha uma alternativa para a questão b0bc8e78-04
  • B0B745C0-04

    Português

    Denotação e Conotação
    UFGD · 2023MédioEntre para guardar nos favoritos
    O rap é um estilo de música muitas vezes caracterizado por letras fortes e impactantes. Não raramente, os rappers utilizam-se de samples em suas músicas, ou seja, inserem em suas letras trechos de outras obras, atribuindo novos significados a esses fragmentos e gerando uma nova composição que pode reforçar ou ressignificar o conteúdo do sample. Na canção AmarElo, de Emicida, o sample utilizado é parte da música Sujeito de Sorte, de Belchior.

    Sujeito de sorte

    Presentemente eu posso me
    Considerar um sujeito de sorte
    Porque apesar de muito moço
    Me sinto são e salvo e forte

    E tenho comigo pensado
    Deus é brasileiro e anda do meu lado
    E assim já não posso sofrer no ano passado

    Tenho sangrado demais
    Tenho chorado pra cachorro
    Ano passado eu morri
    Mas esse ano eu não morro

    Disponível em: https://www.letras.mus.br/belchior/344922/. Acesso em: 1 jun. 2023 (fragmento).


     AmarElo

    Eu sonho mais alto que drones
    Combustível do meu tipo? A fome
    Pra arregaçar como um ciclone
    Pra que amanhã não seja só um ontem
    Com um novo nome

    [...]

    É um mundo cão pra nóis, perder não é opção, certo?
    De onde o vento faz a curva, brota o papo reto
    Num deixo quieto, num tem como deixar quieto
    A meta é deixar sem chão quem riu de nós sem teto, vai

    [...]

    Mano, rancor é igual tumor, envenena raiz
    Onde a plateia só deseja ser feliz, saca?
    Com uma presença aérea, onde a última tendência
    É depressão com aparência de férias

    Disponível em: https://g.co/kgs/VQLE8i. Acesso em: 1 jun. 2023 (fragmento).


    A partir dos seus conhecimentos sobre a língua portuguesa e com base na canção AmarElo e na leitura dos fragmentos transcritos, assinale a alternativa correta.
    Escolha uma alternativa para a questão b0b745c0-04
  • 4396888D-03

    Português

    Figuras de Linguagem
    UECE · 2023MédioEntre para guardar nos favoritos
    Texto 1 

    Captura_de tela 2025-03-18 094612.png (417×541)
    Captura_de tela 2025-03-18 094624.png (412×534)
    Captura_de tela 2025-03-18 094638.png (414×758)

    (OLIVEIRA, Danilo. Qual é a distância entre a Terra e a Lua? In: Olhar Digital – Ciência e Espaço. Disponível em https://olhardigital.com.br/2023/08/07/ Texto adaptado.)
    No trecho “Essa distância não é estática, mas sim variável,” (linhas 16-17), ocorre um exemplo de
    Escolha uma alternativa para a questão 4396888d-03
  • A8F6A04D-03

    Português

    Figuras de Linguagem
    UERJ · 2023DifícilEntre para guardar nos favoritos

    A QUESTÃO REFERE-SE AO ROMANCE O MEU AMIGO PINTOR, DE LYGIA BOJUNGA (Rio de Janeiro: Casa Lygia Bojunga, 2015).

    – O teu Amigo Pintor foi pro inferno.

    Levei um susto tão grande que a fala nem saiu logo. Ela disse:

    – Ele se matou. E diz que quem se mata vai pro inferno.

    (...)

    Empurrei o diabo da garota longe e vim m’embora. (p. 21-23)

    A passagem acima indica certa compreensão do suicídio, associada a algumas crenças. Em relação a tal compreensão, a alternância entre as palavras “inferno” e “diabo” nas falas dos personagens sugere uma crítica.

    Essa crítica se constrói por meio da seguinte figura de linguagem:

    Escolha uma alternativa para a questão a8f6a04d-03
  • 20A60436-AE

    Português

    Figuras de Linguagem
    UNICAMP · 2023FácilEntre para guardar nos favoritos
    A professora Débora Diniz e o artista plástico Ramon Navarro criaram um álbum de memórias para homenagear mulheres mortas pela pandemia de Covid-19. Nesse álbum, é apresentada uma imagem de cada mulher homenageada seguida de um texto a seu respeito, como o exemplo a seguir.

    texto_9 - 10 .png (373×373) 

    Ela se foi no dia seguinte a ele. Sobre ele, a notícia disse ser uma “liderança indígena”. Sobre ela, nem mesmo o nome do povo. Morreu aos 86 anos, em Dourados, Mato Grosso do Sul.

    Arte não se explica. Na ousadia de palavrear o que se vê, uma tentativa de oferecer mais palavras ao luto: “Há orgulho na pose, no apertar de olhos de quem quer olhar longe. Os raios saem dela, o sol lhe presta homenagem. Uma combinação de terra e tempos se encontra nos pássaros e no mar. Parece o tempo do início, mas o manto cobre a nudez de quem encontrou a regra do conquistador. A folhagem nasce da mão, não é enfeite. É raiz.” 

    (Debora Diniz e Ramon Navarro, no perfil @reliquia.rum.)
    No trecho “o sol lhe presta uma homenagem” (linha 8), a autora faz uso da figura de linguagem
    Escolha uma alternativa para a questão 20a60436-ae
  • 209FAE8C-AE

    Português

    Figuras de Linguagem
    UNICAMP · 2023FácilEntre para guardar nos favoritos
    “A mãe do Brasil é indígena, ainda que o país tenha mais orgulho de seu pai europeu que o trata como um filho bastardo. Sua raiz vem daqui, do povo ancestral que veste uma história, que escreve na pele sua cultura, suas preces e suas lutas. Nunca vou entender o nacionalismo estrangeiro que muitas pessoas têm. Nós somos um país rico, diverso e guerreiro, mas um país que mata o seu povo originário e aqueles que construíram uma nação, que ainda marginaliza povos que já foram escravizados e seguem tentando se recuperar dos danos.”

    (Myrian Krexu @myrianveloso, médica Guarani Mbyá (17/05/2020). Disponível em https://www.instagram.com/p/CdTRkvYuOXM/. Acesso em 03/05/2022.)
    Em “Nunca vou entender o nacionalismo estrangeiro que muitas pessoas têm”, a autora recorre à figura de linguagem
    Escolha uma alternativa para a questão 209fae8c-ae
  • DBB2A65B-8B

    Português

    Figuras de Linguagem
    UNESP · 2022Entre para guardar nos favoritos
    Para responder à questão, leia o trecho do conto “A menina, as aves e o sangue”, do escritor moçambicano Mia Couto (1955- ).


        Aconteceu, certa vez, uma menina a quem o coração batia só de quando em enquantos. A mãe sabia que o sangue estava parado pelo roxo dos lábios, palidez nas unhas. Se o coração estancava por demasia de tempo a menina começava a esfriar e se cansava muito. A mãe, então, se afligia: roía o dedo e deixava a unha intacta. Até que o peito da filha voltava a dar sinal:

        — Mãe, venha ouvir: está a bater!

        A mãe acorria, debruçando a orelha sobre o peito estreito que soletrava pulsação. E pareciam, as duas, presenciando pingo de água em pleno deserto. Depois, o sangue dela voltava a calar, resina empurrando a arrastosa vida.

        Até que, certa noite, a mulher ganhou para o susto. Foi quando ela escutou os pássaros. Sentou na cama: não eram só piares, chilreinações. Eram rumores de asas, brancos drapejos de plumas. A mãe se ergueu, pé descalço pelo corredor. Foi ao quarto da menina e joelhou-se junto ao leito. Sentiu a transpiração, reconheceu o seu próprio cheiro. Quando lhe ia tocar na fronte a menina despertou:

        — Mãe, que bom, me acordou! Eu estava sonhar pássaros.

        A mãe sortiu-se de medo, aconchegou o lençol como se protegesse a filha de uma maldição. Ao tocar no lençol uma pena se desprendeu e subiu, levinha, volteando pelo ar. A menina suspirou e a pluma, algodão em asa, de novo se ergueu, rodopiando por alturas do tecto. A mãe tentou apanhar a errante plumagem. Em vão, a pena saiu voando pela janela. A senhora ficou espreitando a noite, na ilusão de escutar a voz de um pássaro. Depois, retirou-se, adentrando-se na solidão do seu quarto. Dos pássaros selou-se o segredo, só entre as duas.[...]

        Com o tempo, porém, cada vez menos o coração se fazia frequente. Quase deixou de dar sinais à vida. Até que essa imobilidade se prolongou por consecutivas demoras. A menina falecera? Não se vislumbravam sinais dessa derradeiragem. Pois ela seguia praticando vivências, brincando, sempre cansadinha, resfriorenta. Uma só diferença se contava. Já à noite a mãe não escutava os piares.

    — Agora não sonha, filha?

    — Ai mãe, está tão escuro no meu sonho!

        Só então a mãe arrepiou decisão e foi à cidade:

        — Doutor, lhe respeito a permissão: queria saber a saúde de minha única. É seu peito... nunca mais deu sinal.

        O médico corrigiu os óculos como se entendesse rectificar a própria visão. Clareou a voz, para melhor se autorizar. E disse:

    — Senhora, vou dizer: a sua menina já morreu.

    — Morta, a minha menina? Mas, assim...?

    — Esta é a sua maneira de estar morta.

        A senhora escutou, mãos juntas, na educação do colo. Anuindo com o queixo, ia esbugolhando o médico. Todo seu corpo dizia sim, mas ela, dentro do seu centro, duvidava. Pode-se morrer assim com tanta leveza, que nem se nota a retirada da vida? E o médico, lhe amparando, já na porta:

    — Não se entristonhe, a morte é o fim sem finalidade.

        A mãe regressou à casa e encontrou a filha entoando danças, cantarolando canções que nem existem. Se chegou a ela, tocou-lhe como se a miúda inexistisse. A sua pele não desprendia calor.

        — Então, minha querida não escutou nada?

        Ela negou. A mãe percorreu o quarto, vasculhou recantos. Buscava uma pena, o sinal de um pássaro. Mas nada não encontrou. E assim, ficou sendo, então e adiante.

        Cada vez mais fria, a moça brinca, se aquece na torreira do sol. Quando acorda, manhã alta, encontra flores que a mãe depositou ao pé da cama. Ao fim da tarde, as duas, mãe e filha, passeiam pela praça e os velhos descobrem a cabeça em sinal de respeito.

        E o caso se vai seguindo, estória sem história. Uma única, silenciosa, sombra se instalou: de noite, a mãe deixou de dormir. Horas a fio a sua cabeça anda em serviço de escutar, a ver se regressam as vozearias das aves.


    (Mia Couto. A menina sem palavra, 2013.)
    O narrador recorre a um enunciado aparentemente paradoxal no seguinte trecho:
    Escolha uma alternativa para a questão dbb2a65b-8b
  • DBAE0DA8-8B

    Português

    Denotação e Conotação
    UNESP · 2022Entre para guardar nos favoritos
    Para responder à questão, leia o trecho do conto “A menina, as aves e o sangue”, do escritor moçambicano Mia Couto (1955- ).


        Aconteceu, certa vez, uma menina a quem o coração batia só de quando em enquantos. A mãe sabia que o sangue estava parado pelo roxo dos lábios, palidez nas unhas. Se o coração estancava por demasia de tempo a menina começava a esfriar e se cansava muito. A mãe, então, se afligia: roía o dedo e deixava a unha intacta. Até que o peito da filha voltava a dar sinal:

        — Mãe, venha ouvir: está a bater!

        A mãe acorria, debruçando a orelha sobre o peito estreito que soletrava pulsação. E pareciam, as duas, presenciando pingo de água em pleno deserto. Depois, o sangue dela voltava a calar, resina empurrando a arrastosa vida.

        Até que, certa noite, a mulher ganhou para o susto. Foi quando ela escutou os pássaros. Sentou na cama: não eram só piares, chilreinações. Eram rumores de asas, brancos drapejos de plumas. A mãe se ergueu, pé descalço pelo corredor. Foi ao quarto da menina e joelhou-se junto ao leito. Sentiu a transpiração, reconheceu o seu próprio cheiro. Quando lhe ia tocar na fronte a menina despertou:

        — Mãe, que bom, me acordou! Eu estava sonhar pássaros.

        A mãe sortiu-se de medo, aconchegou o lençol como se protegesse a filha de uma maldição. Ao tocar no lençol uma pena se desprendeu e subiu, levinha, volteando pelo ar. A menina suspirou e a pluma, algodão em asa, de novo se ergueu, rodopiando por alturas do tecto. A mãe tentou apanhar a errante plumagem. Em vão, a pena saiu voando pela janela. A senhora ficou espreitando a noite, na ilusão de escutar a voz de um pássaro. Depois, retirou-se, adentrando-se na solidão do seu quarto. Dos pássaros selou-se o segredo, só entre as duas.[...]

        Com o tempo, porém, cada vez menos o coração se fazia frequente. Quase deixou de dar sinais à vida. Até que essa imobilidade se prolongou por consecutivas demoras. A menina falecera? Não se vislumbravam sinais dessa derradeiragem. Pois ela seguia praticando vivências, brincando, sempre cansadinha, resfriorenta. Uma só diferença se contava. Já à noite a mãe não escutava os piares.

    — Agora não sonha, filha?

    — Ai mãe, está tão escuro no meu sonho!

        Só então a mãe arrepiou decisão e foi à cidade:

        — Doutor, lhe respeito a permissão: queria saber a saúde de minha única. É seu peito... nunca mais deu sinal.

        O médico corrigiu os óculos como se entendesse rectificar a própria visão. Clareou a voz, para melhor se autorizar. E disse:

    — Senhora, vou dizer: a sua menina já morreu.

    — Morta, a minha menina? Mas, assim...?

    — Esta é a sua maneira de estar morta.

        A senhora escutou, mãos juntas, na educação do colo. Anuindo com o queixo, ia esbugolhando o médico. Todo seu corpo dizia sim, mas ela, dentro do seu centro, duvidava. Pode-se morrer assim com tanta leveza, que nem se nota a retirada da vida? E o médico, lhe amparando, já na porta:

    — Não se entristonhe, a morte é o fim sem finalidade.

        A mãe regressou à casa e encontrou a filha entoando danças, cantarolando canções que nem existem. Se chegou a ela, tocou-lhe como se a miúda inexistisse. A sua pele não desprendia calor.

        — Então, minha querida não escutou nada?

        Ela negou. A mãe percorreu o quarto, vasculhou recantos. Buscava uma pena, o sinal de um pássaro. Mas nada não encontrou. E assim, ficou sendo, então e adiante.

        Cada vez mais fria, a moça brinca, se aquece na torreira do sol. Quando acorda, manhã alta, encontra flores que a mãe depositou ao pé da cama. Ao fim da tarde, as duas, mãe e filha, passeiam pela praça e os velhos descobrem a cabeça em sinal de respeito.

        E o caso se vai seguindo, estória sem história. Uma única, silenciosa, sombra se instalou: de noite, a mãe deixou de dormir. Horas a fio a sua cabeça anda em serviço de escutar, a ver se regressam as vozearias das aves.


    (Mia Couto. A menina sem palavra, 2013.)
    “E pareciam, as duas, presenciando pingo de água em pleno deserto.” (3° parágrafo)


    No contexto do conto, “pingo de água” e “pleno deserto” referem-se, metaforicamente,
    Escolha uma alternativa para a questão dbae0da8-8b
  • 93492EBE-74

    Português

    Figuras de Linguagem
    Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto · 2022Entre para guardar nos favoritos

    Examine a tirinha de Dik Browne, publicada na conta do Instagram “Hagar, o Horrível”, em 01.04.2022.



    Imagem da questão de Português, da prova de 2022



    Para produzir o seu efeito de humor, a tirinha mobiliza o seguinte recurso expressivo:

    Escolha uma alternativa para a questão 93492ebe-74
  • FA6687B7-73

    Português

    Denotação e Conotação
    Faculdade Evangélica Mackenzie do Paraná · 2022Entre para guardar nos favoritos
    Nos jogos de palavras, uma das estratégias mais comuns é a de empregar uma palavra em uma frase com sentido lógico, mas essa mesma palavra se prender à outra da mesma frase, num sentido figurado. Assinale a frase em que não ocorre essa estratégia. 
    Escolha uma alternativa para a questão fa6687b7-73