Questões de Literatura do ENEM
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AF4E56D3-16 Leia o trecho do romance Suíte Tóquio, de Giovana Madalosso, a seguir.Motorista é empregado, com carga pra entregar, horário pra cumprir, não vai ficar estuprando durante o expediente. Pra mostrar que sou mulher direita, vou até o banco, pego a Picochuca. Volto com ela dormindo no meu colo, levanto a mão. Outro vem e passa direto por mim. Não demora muito e aparece uma cegonha. Esse vai parar, leva tanto carro, o que custa levar uma mulher e uma menina? Deve custar alguma coisa, porque o motorista não para. Talvez não tenha enxergado a gente. Resolvo avançar um pouco mais, meu pé direito em cima da faixa amarela. Lá vem mais um e penso que foi enviado pra mim, no para-choque escrito bem grande Rastreado por Deus. Mas esse também não para, assim como a carreta e o caminhão-tanque que vem atrás dela e passa como se eu não existisse. Fico pensando o que é que está acontecendo, a vida arrancou o coração de todas essas pessoas? Depois de alguns minutos, vem outro. Pra minha surpresa, o caminhão freia. A porta abre. Um homem me olha lá de cima. Tenho medo dele, mas parece que ele também tem medo de mim. Me observa, desconfiado, do assento coberto por bolinhas de madeira, que nem as que o Lauro usava pra relaxar no trânsito. Tô indo pra São Paulo, falo pra ele. Eu também, sobe aí, diz, e estende a mão pra me ajudar. Não sei se é a gentileza ou o banco igual ao do Lauro, mas não sinto tanto medo dele, só um pouco. Sento, me ajeito sem acordar a Picochuca, ponho o cinto de segurança. É tua filha?, pergunta. Digo que sim.(MADALOSSO, G. Suíte Tóquio. São Paulo: Todavia, 2020. p.157-158.)Com base nesse trecho, na leitura integral do romance e nas correlações com Niketche, de Paulina Chiziane, e A Falência, de Júlia Lopes de Almeida, assinale a alternativa correta.AF471680-16 Literatura
Teoria LiteráriaUNICENTRO · 2023DifícilEntre para guardar nos favoritosLeia o poema, de Carlos Drummond de Andrade, a seguir.A rua diferenteNa minha rua estão cortando árvoresbotando trilhosconstruindo casas.Minha rua acordou mudada.Os vizinhos não se conformam.Eles não sabem que a vidatem dessas exigências brutas.Só minha filha goza o espetáculoe se diverte com os andaimes,a luz da solda autógenae o cimento escorrendo nas formas.(ANDRADE, C. D. Nova reunião. v.1. Rio de Janeiro: José Olympio, 1983. p.12.)Com base nesse poema e nos conhecimentos sobre literatura, assinale a alternativa correta.AF449567-16 Literatura
EstilísticaUNICENTRO · 2023Entre para guardar nos favoritosLeia o soneto, de Luís Vaz de Camões, a seguir.
Quando o sol encoberto vai mostrando
Ao mundo a luz quieta e duvidosa,
Ao longo de
praia deleitosaVou na minha inimiga imaginando.
Aqui a vi, os cabelos concertando;
Ali, co’a mão na face tão, fermosa;
Aqui falando alegre, ali cuidosa;
Agora estando queda, agora andando.
Aqui esteve sentada, ali me viu,
Erguendo aqueles olhos, tão isentos;
Aqui movida um pouco, ali segura.
Aqui se entristeceu, ali se riu.
E, enfim, nestes cansados pensamentos
Passo esta vida vã, que sempre dura.
(CAMÕES, Luis De. Obra completa. Aguilar; 1963. p. 292.)
A partir da leitura desse soneto, assinale a alternativa correta.
D1CFE63B-C4 Literatura
Escolas LiteráriasUniversidade Estadual do Maranhão · 2023DifícilEntre para guardar nos favoritosEm Mar morto, ambiente predominantemente masculino, as personagens femininas adquirem vida própria. Considerando as características de bravura e de persistência, destaca-se a seguinte personagem:D1CD6B52-C4 Literatura
Teoria LiteráriaUniversidade Estadual do Maranhão · 2023DifícilEntre para guardar nos favoritosJorge Amado de Faria, autor de vasta obra literária, adotou como temas principais a miséria, as relações sociais e humanas do povo da Bahia. Dentre suas obras cita-se Mar morto, incluído nas crônicas de costumes.Mar morto, de Jorge Amado, difere do Mar morto, localizado no Oriente Médio, caracterizado por sua alta salinidade, o que impede quase toda a forma de vida naquele lago. Em contrapartida, no romance, os impedimentos existentes são de ordem social e enigmática. Nessa obra, o autor enfocaD1BBFAA4-C4 Literatura
Escolas LiteráriasUniversidade Estadual do Maranhão · 2023MédioEntre para guardar nos favoritosLeia, agora, um fragmento do poema A Leviana, de Gonçalves Dias para responder à questão.És engraçada e formosaComo a rosa,Como a rosa em mês d'Abril;És como a nuvem doiradaDeslizada,Deslizada em céus d'anil.Tu és vária e melindrosa,Qual formosaBorboleta num jardim,Que as flores todas afaga,E divagaEm devaneio sem fim.És pura, como uma estrelaDoce e bela,Que treme incerta no mar:Mostras nos olhos tua almaTerna e calma,Como a luz d'almo luar.Tuas formas tão donosas,Tão airosas,Formas da terra não são;Pareces anjo formoso,Vaporoso,Vindo da etérea mansão.Assim, beijar-te receio, Contra o seioEu tremo de te apertar:Pois me parece que um beijo É sobejoPara o teu corpo quebrar. [...]DIAS, Gonçalves. Primeiros cantos. Belo Horizonte:Autêntica Ed.: 1998.A leitura comparativa do poema de Gonçalves Dias e da canção de Erasmo Carlos, quanto à figura da mulher e seu papel na sociedade, indica que a mulher,B680C2AE-7E Literatura
Escolas LiteráriasEnsino Einstein · 2023MédioEntre para guardar nos favoritosPode-se dizer que até hoje a maior parte das noções sobre arte, seus limites e suas tarefas, foi definida por este movimento: nós pensamos, como seus autores, que a arte deve ter relação direta com a vida real; que o indivíduo é realmente a medida das coisas; que o artista é um sujeito que sofre mais que nós e expressa sua experiência de modo exemplar, cumprindo assim uma espécie de missão; que a arte deve sempre se renovar.
(Luís Augusto Fischer. Literatura brasileira: modos de usar, 2013. Adaptado.)
O texto trata do movimento
34745F80-0F Literatura
Gêneros LiteráriosUFGD · 2023DifícilEntre para guardar nos favoritosA mãe sabia que estivera presa, mas não sabia (não queria saber) o que havia acontecido lá dentro: era demais para o seu coração de mãe, para o seu corpo frágil. Um dia a filha lhe contaria tudo, porque ela acha que as dores têm de ser ditas, que o silêncio é muito perigoso. Ela lhe contaria tudo o que se passou quando esteve presa, mas não hoje, não nesse dia de encontro e despedida, não depois de tanto tempo sem se verem.LEVY, Tatiana Salem. A chave de casa. Rio de Janeiro: Record, 2009. E-book.Tendo como referência o livro A chave de casa, de Tatiana Salem Levy, e analisando mais especificamente o trecho dado, é correto afirmar que esse excerto é parte de uma cena346F2C3B-0F Literatura
Teoria LiteráriaUFGD · 2023Muito difícilEntre para guardar nos favoritosE grita a piranha cor de palha, irritadíssima:
– Tenho dentes de navalha, e com um pulo de ida e volta resolvo a questão!...
– Exagero... – diz a arraia – eu durmo na areia de ferrão a prumo, e sempre há um descuidoso que vem se espetar.
– Pois amigas, – murmura o gimnoto, mole, carregando a bateria – não quero pensar no assunto: se eu soltar três pensamentos elétricos, bate-poço, poço em volta, até vocês duas boiarão mortas…
(Conversa a dois metros de profundidade).
ROSA, João Guimarães. Sagarana. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. p. 175.
Considerando o conto Duelo, do livro Sagarana, de João Guimarães Rosa, representado nessa epígrafe, assinale a alternativa correta.
60A08200-49 Literatura
Escolas LiteráriasENEM · 2023FácilEntre para guardar nos favoritosHarmonia do equilíbrio!Cega dinâmica embaraçada entre linhasDe força magnética!Em hélices seguindo e refletindo: dança de elétrons[e prótonsMatéria-máter do mundo.Poeira do sol, poeira do som, poeira de luzPoeira!Poeira da memória, da memória dos homensQue irá se perder um dia no universo— Cada átomo possui um número infinito de[partículas— Cada partícula um número infinito de partículas— Cada partícula de partícula um número...
Que são feitas as ondas e as partículasNum torvelinho de moídos corpos simples:— Farinha de energias finíssimas e raras —Selênio, Rubídio, Colúmbio, Germânio,Samário, Rutênio, Paládio, Lutécio.CARDOZO, J. Poemas selecionados. Recife: Bagaço, 1996 (fragmento).O fragmento remete a uma composição poética inspirada no Futurismo das vanguardas modernistas, pois
D7355733-C0 Literatura
Escolas LiteráriasPUC - RS · 2023DifícilEntre para guardar nos favoritosO ano de 1922 é marcado no Brasil por dois grandes eventos: as comemorações do Centenário da Independência, no Rio de Janeiro; e a Semana de Arte Moderna realizada no Theatro Municipal, em São Paulo.
Capa do Catálogo da Semana de Arte Moderna feitapor Di Cavalcantihttps://www.preparaenem.com/historia-do-brasil/ruptura-na-semana-arte-moderna-1922.htmAcesso em 29 abril 2022.Em relação à Semana de Arte Moderna no Brasil, assinale a alternativa INCORRETA.
D733539E-C0 Literatura
Teoria LiteráriaPUC - RS · 2023MédioEntre para guardar nos favoritosO poema a seguir integra o livro Canções de atormentar (2020), de Angélica Freitas (1973).jogos escolaresdesde as nove da manhão time amarelo enfrenta o time vermelho.no teu tempo isso era educação física,podia ser também recreio.o telefone ainda não tocou,tudo na mesma, nenhum e-mail.a gritaria pela janela da cozinhainforma a vitória do time amarelo.depois a casa se enche de silêncio.e você sente pena do time vermelho,mas é só mais tarde, depois do almoço,que se compadece também do amarelo.FREITAS, Angélica. Canções de atormentar. São Paulo: Companhia das Letras, 2020. p. 59.Sobre o poema em questão, assinale a alternativa INCORRETA:
D7292C11-C0 Literatura
Escolas LiteráriasPUC - RS · 2023DifícilEntre para guardar nos favoritosSobre a Semana de Arte Moderna de 1922, são feitas as seguintes afirmações:I. A Semana reuniu representantes de diversas manifestações artísticas, tais como Guiomar Novaes e Heitor Villa-Lobos (música), Victor Brecheret (escultura), Di Cavalcanti e Anita Malfatti (pintura).II. Apesar de Mário de Andrade e Oswald de Andrade terem sido dois dos principais idealizadores da Semana, a conferência de abertura, intitulada “A emoção estética na arte moderna”, foi proferida pelo escritor Graça Aranha, autor de Canaã (1902).III. O poema “Os Sapos”, escrito por Manuel Bandeira especialmente para a Semana e declamado pelo próprio autor, recebeu vaias da plateia presente no Teatro Municipal de São Paulo, configurando um dos momentos mais marcantes do evento.IV. Uma das primeiras reações negativas a aparecer na imprensa escrita veio de Monteiro Lobato, em seu artigo “Paranoia ou mistificação?”, no qual o autor faz uma crítica contundente aos princípios estéticos apresentados durante a Semana.Estão corretas apenas as afirmativas
D727347F-C0 Literatura
Escolas LiteráriasPUC - RS · 2023MédioEntre para guardar nos favoritosConsiderando as especificidades das estéticas romântica e realista e suas consequências na caracterização dos personagens, bem como na configuração e na posição dos narradores, associe os títulos dos romances e seus respectivos autores aos trechos correspondentes.1. Memórias de um sargento de milícias, Manuel Antônio de Almeida2. Memórias póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis3. O crime do padre Amaro, Eça de Queirós( ) “Cresci; e nisso é que a família não interveio; cresci naturalmente, como crescem as magnólias e os gatos. Talvez os gatos são menos matreiros, e, com certeza, as magnólias são menos inquietas do que eu era na minha infância. [...] Desde os cinco anos merecera eu a alcunha de ‘menino diabo’; e verdadeiramente não era outra coisa; fui dos mais malignos do meu tempo, arguto, indiscreto, traquinas e voluntarioso.”( ) “Tornou-se muito medroso. Dormia com lamparina, ao pé de uma ama velha. As criadas de resto feminizavam-no; achavam-no bonito, aninhavam-no no meio delas, beijocavam-no, faziam-lhe cócegas, e ele rolava por entre as saias, em contato com os corpos, com gritinhos de contentamento. Às vezes, quando a senhora marquesa saía, vestiam-no de mulher, entre grandes risadas; ele abandonava-se, meio nu, com os seus modos lânguidos, os olhos quebrados, uma roseta escarlate nas faces.”( ) “Passemos por alto sobre os anos que decorreram desde o nascimento e batizado do nosso memorando, e vamos encontrá-lo já na idade de sete anos. Digamos unicamente que durante todo este tempo o menino não desmentiu aquilo que anunciara desde que nasceu: atormentava a vizinhança com um choro sempre em oitava alta; era colérico; tinha ojeriza particular à madrinha, a quem não podia encarar, e era estranhão até não poder mais.”A ordem correta de preenchimento dos parênteses, de cima para baixo, é
DC3A3A19-8B Literatura
EstilísticaUNESP · 2022Entre para guardar nos favoritosLeia o poema “Pneumotórax”, do poeta Manuel Bandeira (1886-1968).Febre, hemoptise, dispneia e suores noturnos.A vida inteira que podia ter sido e que não foi.Tosse, tosse, tosse.Mandou chamar o médico:— Diga trinta e três.— Trinta e três… trinta e três… trinta e três…— Respire.-----------------------------------------------------------------— O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o [pulmão direito infiltrado.— Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?— Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.(Manuel Bandeira. Estrela da vida inteira, 1993.)No poema, o poeta aborda,DBD7AFFA-8B Literatura
Teoria LiteráriaUNESP · 2022Entre para guardar nos favoritosThe literary principle according to which the writing and criticism of poetry and drama were to be guided by rules and precedents derived from the best ancient Greek and Roman authors; a codified form of classicism that dominated French literature in the 17th and 18th centuries, with a significant influence on English writing, especially from c.1660 to c.1780. In a more general sense, often employed in contrast with romanticism, the term has also been used to describe the characteristic world-view or value-system of this “Age of Reason”, denoting a preference for rationality, clarity, restraint, order, and decorum, and for general truths rather than particular insights.(Chris Baldick. The Concise Oxford Dictionary of Literary Terms, 2001.)O termo literário a que o texto se refere é oDBC640BC-8B Literatura
Classificação dos Gêneros LiteráriosUNESP · 2022Entre para guardar nos favoritosLeia o soneto “Descreve o que era naquele tempo a cidade da Bahia”, do poeta Gregório de Matos (1636-1696), para responder à questão.
(Gregório de Matos. Poemas escolhidos, 2010.)1Trazidos sob os pés os homens nobres: na visão de Gregório de Matos, os mulatos em ascensão subjugam com esperteza os verdadeiros “homens nobres”.No soneto, verifica-se rima entre palavras de classes gramaticais diferentesDBBEDD90-8B Literatura
BarrocoUNESP · 2022Entre para guardar nos favoritosLeia o soneto “Descreve o que era naquele tempo a cidade da Bahia”, do poeta Gregório de Matos (1636-1696), para responder à questão.
(Gregório de Matos. Poemas escolhidos, 2010.)1Trazidos sob os pés os homens nobres: na visão de Gregório de Matos, os mulatos em ascensão subjugam com esperteza os verdadeiros “homens nobres”.O soneto de Gregório de Matos constitui um exemplo da sua poesia de teorDBB52A27-8B Literatura
Escolas LiteráriasUNESP · 2022Entre para guardar nos favoritosPara responder à questão, leia o trecho do conto “A menina, as aves e o sangue”, do escritor moçambicano Mia Couto (1955- ).Aconteceu, certa vez, uma menina a quem o coração batia só de quando em enquantos. A mãe sabia que o sangue estava parado pelo roxo dos lábios, palidez nas unhas. Se o coração estancava por demasia de tempo a menina começava a esfriar e se cansava muito. A mãe, então, se afligia: roía o dedo e deixava a unha intacta. Até que o peito da filha voltava a dar sinal:— Mãe, venha ouvir: está a bater!A mãe acorria, debruçando a orelha sobre o peito estreito que soletrava pulsação. E pareciam, as duas, presenciando pingo de água em pleno deserto. Depois, o sangue dela voltava a calar, resina empurrando a arrastosa vida.Até que, certa noite, a mulher ganhou para o susto. Foi quando ela escutou os pássaros. Sentou na cama: não eram só piares, chilreinações. Eram rumores de asas, brancos drapejos de plumas. A mãe se ergueu, pé descalço pelo corredor. Foi ao quarto da menina e joelhou-se junto ao leito. Sentiu a transpiração, reconheceu o seu próprio cheiro. Quando lhe ia tocar na fronte a menina despertou:— Mãe, que bom, me acordou! Eu estava sonhar pássaros.A mãe sortiu-se de medo, aconchegou o lençol como se protegesse a filha de uma maldição. Ao tocar no lençol uma pena se desprendeu e subiu, levinha, volteando pelo ar. A menina suspirou e a pluma, algodão em asa, de novo se ergueu, rodopiando por alturas do tecto. A mãe tentou apanhar a errante plumagem. Em vão, a pena saiu voando pela janela. A senhora ficou espreitando a noite, na ilusão de escutar a voz de um pássaro. Depois, retirou-se, adentrando-se na solidão do seu quarto. Dos pássaros selou-se o segredo, só entre as duas.[...]Com o tempo, porém, cada vez menos o coração se fazia frequente. Quase deixou de dar sinais à vida. Até que essa imobilidade se prolongou por consecutivas demoras. A menina falecera? Não se vislumbravam sinais dessa derradeiragem. Pois ela seguia praticando vivências, brincando, sempre cansadinha, resfriorenta. Uma só diferença se contava. Já à noite a mãe não escutava os piares.— Agora não sonha, filha?— Ai mãe, está tão escuro no meu sonho!Só então a mãe arrepiou decisão e foi à cidade:— Doutor, lhe respeito a permissão: queria saber a saúde de minha única. É seu peito... nunca mais deu sinal.O médico corrigiu os óculos como se entendesse rectificar a própria visão. Clareou a voz, para melhor se autorizar. E disse:— Senhora, vou dizer: a sua menina já morreu.— Morta, a minha menina? Mas, assim...?— Esta é a sua maneira de estar morta.A senhora escutou, mãos juntas, na educação do colo. Anuindo com o queixo, ia esbugolhando o médico. Todo seu corpo dizia sim, mas ela, dentro do seu centro, duvidava. Pode-se morrer assim com tanta leveza, que nem se nota a retirada da vida? E o médico, lhe amparando, já na porta:— Não se entristonhe, a morte é o fim sem finalidade.A mãe regressou à casa e encontrou a filha entoando danças, cantarolando canções que nem existem. Se chegou a ela, tocou-lhe como se a miúda inexistisse. A sua pele não desprendia calor.— Então, minha querida não escutou nada?Ela negou. A mãe percorreu o quarto, vasculhou recantos. Buscava uma pena, o sinal de um pássaro. Mas nada não encontrou. E assim, ficou sendo, então e adiante.Cada vez mais fria, a moça brinca, se aquece na torreira do sol. Quando acorda, manhã alta, encontra flores que a mãe depositou ao pé da cama. Ao fim da tarde, as duas, mãe e filha, passeiam pela praça e os velhos descobrem a cabeça em sinal de respeito.E o caso se vai seguindo, estória sem história. Uma única, silenciosa, sombra se instalou: de noite, a mãe deixou de dormir. Horas a fio a sua cabeça anda em serviço de escutar, a ver se regressam as vozearias das aves.(Mia Couto. A menina sem palavra, 2013.)A linguagem poética, o emprego de neologismos e as marcas de oralidade, que podem ser identificados no texto de Mia Couto, caracterizam também a prosa do seguinte escritor brasileiro:72A30243-7B Literatura
Gênero Épico ou NarrativoUFRGS · 2022Entre para guardar nos favoritosAssinale a alternativa correta em relação ao romance Caderno de memórias coloniais, de Isabela Figueiredo.
I - A narrativa compõe-se de uma mescla de gêneros, entre diário, biografia, crônica e ensaio, ilustrada com fotografias da escritora e da cidade onde nasceu, misturando memórias pessoais e coletivas da colonização portuguesa na África.
II - A autora faz um acerto de contas com o passado colonial português, colocando em cena a figura do pai, que trabalha para o desenvolvimento da cidade de Lourenço Marques e luta contra a exploração e a falta de direitos da população negra.
III- Os episódios narrados contrapõem-se às versões oficiais da colonização portuguesa na África, que silenciam a respeito da realidade de violência, segregação e exclusão da população negra local.
Quais estão corretas?