Texto A
De repente a ladeira começou a animar-se. Do
largo da sé, da Baixa dos Sapateiros, do Carmo,
surgiram homens e mulheres apressados e aflitos.
Não vinham pela morte de Pedro Archanjo, sábio
autor de livros sobre miscigenação, talvez definitivos,
e, sim, pela morte de Ojuobá, os olhos de Xangô, um
pai daquele povo. Do castelo de Ester, a notícia se
propagara de boca em boca, de porta em porta, de
casarão em casarão, rua afora, escada acima, ladeira
abaixo e nos becos. Chegou ao largo da Sé a tempo
de embarcar nos primeiros bondes e ônibus.
Mulheres arrancadas do sono ou dos braços
de tardos fregueses para a lágrima e a lamentação.
Trabalhadores de horário preciso, vagabundos sem
relógio de ponto, bêbados e mendigos, habitantes dos
sobradões, dos infectos cortiços, árabes de prestação,
moços e velhos, gente de santo e comerciantes do
Terreiro de Jesus, um carroceiro com sua carroça, e
Ester, um quimono sobre a nudez mostrando tudo a
quem quisesse ver. Mas, quem ia se aproveitar, se
ela puxava os cabelos e batia nos peitos:
— Ai, Archanjo, meu santo, por que não disse
que estava doente? Como eu ia saber? Agora,
Ojuobá, como vai ser? Tu era a luz da gente, nossos
olhos de ver, nossa boca de falar. Tu era a coragem
da gente e nosso entendimento. Tu sabia de ontem
e de amanhã, quem mais vai saber?
Quem, ai, quem? Na hora do espanto, homens
e mulheres encaravam a morte nua e crua, ali na
sarjeta, despida de qualquer enfeite, do menor
consolo. Pedro Archanjo Ojuobá ainda não se fizera
memória, tão somente morte e nada mais.
AMADO, Jorge. Tenda dos milagres. Disponível em: <https://www.terra.com.br/diversao/infograficos/jorge-amado-centenario/pdf/tenda-dos-milagres.pdf.> Acesso em: 12 dez. 2022.
Texto B
Já naquela hora a notícia da inesperada morte de
Quincas Berro D’água circulava pelas ruas da Bahia.
É bem verdade que os pequenos comerciantes do
Mercado não fecharam suas portas em sinal de luto.
Em compensação, imediatamente aumentaram os
preços dos balangandãs, das bolsas de palha, das
esculturas de barro que vendiam aos turistas, assim
homenageavam o morto. Houve nas imediações
do Mercado ajuntamentos precipitados, pareciam
comícios relâmpagos, gente andando de um lado para
outro, a notícia no ar, subindo o Elevador Lacerda,
viajando nos bondes para a Calçada, ia de ônibus
para a Feira de Santana. Debulhou-se em lágrimas a
graciosa negra Paula, ante seu tabuleiro de beijus de
tapioca. Não viria Berro D’água naquela tarde dizerlhe galanteios torneados, espiar-lhe os seios vastos,
propor-lhe indecências, fazendo-a rir.
Nos saveiros de velas arriadas, os homens do
reino de Iemanjá, os bronzeados marinheiros, não
escondiam sua decepcionada surpresa: como pudera
acontecer essa morte num quarto do Tabuão, como
fora o velho marinheiro desencarnar numa cama? Não
proclamara, peremptório, e tantas vezes, Quincas
Berro D’água, com voz e jeito capazes de convencer
ao mais descrente, que jamais morreria em terra,
que só um túmulo era digno de sua picardia: o mar
banhado de lua, as águas sem fim?
AMADO, Jorge. A morte e a morte de Quincas Berro D’água. Rio
de janeiro: Record, 1991, p. 53.
Os textos A e B, embora retirados de obras distintas, apresentam
semelhanças em variados aspectos na sua construção.
As afirmativas que encontram respaldo nos fragmentos ou no
contexto geral das suas obras estão em
I. A temática abordada nos fragmentos se estende por
toda narrativa nas duas obras, tendo seu ponto alto
nos desfechos, quando se concretiza o desejo das
personagens principais.
II. A obra do texto A relata a vida de Arcanjo em dois
tempos distintos: um como homem do povo e seu modo
de vida, e outro como homem público, respeitado pela
intelectualidade baiana, enquanto que, na obra do texto B,
a vida de Quincas é apresentada de maneira inversa.
III. Nas duas obras, o ponto de vista da narração dá-se sob
o olhar de um narrador onisciente, e suas personagens
fazem uso de uma linguagem apropriada à realidade
delas, diferenciando-se, porém, na intenção literária de
cada.
IV. O cenário apresentado e o tempo transcorrido em que se
processam as narrativas, desde seu início até o final,
dão-se de maneira idêntica, entremeando passado e
presente em iguais condições sociais e profissionais de
seus personagens, Pedro Arcanjo e Berro D’água.
V. As circunstâncias em que se deu a morte de Pedro
Arcanjo e Berro D’água, o comportamento de seus amigos
em relação ao fato e o desenrolar do fluxo das narrativas,
desde a morte até o final, apresenta-se, de maneira
idêntica, nas duas obras.
A alternativa em que todas as afirmativas indicadas estão
corretas é a