Questões de Literatura do ENEM
Questões de Literatura, da área de Linguagens, com gabarito em cada página.
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C0E39275-B0 Virgília é que já se não lembrava da meia dobra; toda ela estava concentrada em mim, nos meus olhos, na minha vida, no meu pensamento; – era o que dizia, e era verdade.Há umas plantas que nascem e crescem depressa; outras são tardias e pecas. O nosso amor era daquelas; brotou com tal ímpeto e tanta seiva, que, dentro em pouco, era a mais vasta, folhuda e exuberante criatura dos bosques. Não lhes poderei dizer, ao certo, os dias que durou esse crescimento. Lembra-me, sim, que, em certa noite, abotoou-se a flor, ou o beijo, se assim lhe quiserem chamar, um beijo que ela me deu, trêmula, – coitadinha, – trêmula de medo, porque era ao portão da chácara. Uniu- -nos esse beijo único, – breve como a ocasião, ardente como o amor, prólogo de uma vida de delícias, de terrores, de remorsos, de prazeres que rematavam em dor, de aflições que desabrochavam em alegria, – uma hipocrisia paciente e sistemática, único freio de uma paixão sem freio, – vida de agitações, de cóleras, de desesperos e de ciúmes, que uma hora pagava à farta e de sobra; mas outra hora vinha e engolia aquela, como tudo mais, para deixar à tona as agitações e o resto, e o resto do resto, que é o fastio e a saciedade: tal foi o livro daquele prólogo.(ASSIS, M. Memórias póstumas de Brás-Cubas. São Paulo: Companhia Nacional, 2004. p.128.)Sobre o modo como o enlace amoroso entre Brás-Cubas e Virgília é narrado, considere as afirmativas a seguir.I. A expressão “beijo único” denota a intensidade do momento vivido pelas personagens, que concretizam ali o enlace amoroso.II. Há certas retomadas de valores românticos, visto que se trata de uma história de amor impossível, capaz de levar os amantes à morte.III. O narrador se esforça para dar um caráter sublime à sua relação com Virgília, buscando a complacência do leitor para com o adultério praticado por ela.IV. O trecho traz uma antecipação dos sentimentos contraditórios que os amantes experimentariam daquele dia em diante.Assinale a alternativa correta.C0DFBFB1-B0 Literatura
Escolas LiteráriasUniversidade Estadual do Norte do Paraná · 2016MédioEntre para guardar nos favoritosSobre o romance Senhora, de José de Alencar, considere as afirmativas a seguir.I. A emergência do sistema capitalista no Brasil é pano de fundo da obra, que discute os valores daquela sociedade.II. Fernando Seixas se aproxima de Aurélia ao saber que ela havia recebido uma herança milionária de um parente distante.III. Romance de cunho regionalista, Senhora conta a história de luta dos sertanejos pela ascensão social no século XIX.IV. O romance tematiza a independência feminina, na medida em que coloca em cena uma heroína forte e decidida.Assinale a alternativa correta.C0D6CA7B-B0 Literatura
Escolas LiteráriasUniversidade Estadual do Norte do Paraná · 2016DifícilEntre para guardar nos favoritosLeia o poema a seguir e responda à questão.
Plena Pausa
Lugar onde se faz Nenhuma página
o que já foi feito, jamais foi limpa.
branco da página, Mesmo a mais Saara,
soma de todos os textos, ártica, significa.
foi-se o tempo Nunca houve isso,
quando, escrevendo, uma página em branco.
era preciso No fundo, todas gritam,
uma folha isenta. pálidas de tanto.
(LEMINSKI, P. Toda poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. p.185.)
A partir da leitura do poema e da obra como um todo, considere as afirmativas a seguir.I. O poema nega os elementos essenciais do movimento concretista e, portanto, destoa do clima geral do livro.II. O poema apresenta o elemento metalinguístico como forma de reforçar a realidade psíquica do eu lírico.III. O poema reforça a importância da página em branco enquanto parte integrante da significação poética.IV. Orientalismo, concretismo e tropicalismo estão entre as principais referências formais da produção poética do escritor.Assinale a alternativa correta.8F5B79FB-B0 Literatura
Escolas LiteráriasUEL · 2016MédioEntre para guardar nos favoritosLeia o texto a seguir.
No fundo do mato virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. Já na meninice fez coisas de sarapantar. De primeiro: passou mais de seis anos não falando. Se o incitavam a falar, exclamava: – Ai que preguiça!... e não dizia mais nada. Quando era pra dormir trepava no macuru pequeninho sempre se esquecendo de mijar. Como a rede da mãe estava por debaixo do berço, o herói mijava quente na velha, espantando os mosquitos bem. Então adormecia sonhando palavras feias, imoralidades estrambólicas e dava patadas no ar.
(Adaptado de: ANDRADE, M. Macunaíma. Rio de Janeiro: Agir, 2008. p.7.)
Enquanto produção cultural, o Modernismo procurava reconhecer as identidades que formavam o povo brasileiro.
Assinale a alternativa que apresenta, corretamente, a presença da temática indígena no movimento, tendo por modelo o romance de Mário de Andrade.
58F3E6C5-AF Literatura
Escolas LiteráriasUNIOESTE · 2016MédioEntre para guardar nos favoritosQual alternativa NÃO procede a respeito de Terras do sem fim, de Jorge Amado?58F0A9B8-AF Literatura
Escolas LiteráriasUNIOESTE · 2016MédioEntre para guardar nos favoritosEm Terras do sem fim, quem é a personagem que, caracterizada pelo engrandecimento, aparece no romance através de histórias marcadas pela superstição, violência e desonestidade: venda da alma ao diabo, tocaia interesseira e mortes bárbaras: “cortara-lhe as orelhas, a língua, o nariz e os ovos”?
58EBCFC7-AF Literatura
Escolas LiteráriasUNIOESTE · 2016MédioEntre para guardar nos favoritosCom base no conto A nova Califórnia, de Lima Barreto, assinale a alternativa INCORRETA.58E837D3-AF Literatura
Escolas LiteráriasUNIOESTE · 2016MédioEntre para guardar nos favoritosEm Vestida de preto, de Mário de Andrade, o reencontro do narrador com a prima Maria, por quem este nutriu uma intensa paixão juvenil, é marcado por um sentimento descrito como:
58E40E0B-AF Literatura
Escolas LiteráriasUNIOESTE · 2016DifícilEntre para guardar nos favoritosAssinale a alternativa INCORRETA, tendo em vista as citações dos contos de Machado de Assis e o que se declara a respeito.
58E00B1A-AF Literatura
ArcadismoUNIOESTE · 2016DifícilEntre para guardar nos favoritosInstrução: para responder a questão, leia o texto abaixo.De ficção e realidade: diálogo possível– Literatura é fuga do real, cara! Veja o Brasil que temos: propina, tráfico de influência, delações, politicalha, trapaças...– Quem disse que a Literatura não tem os pés fincados na realidade? Para o momento brasileiro, valem os versos: “Começa o mundo enfim pela ignorância,/ e tem qualquer dos bens por natureza”.– Que bens? A rifa das licitações? O propinoduto?– É isso mesmo, cara! Diferente do fantasma romântico, parece que o dinheiro virou uma “febre que nunca descansa,/ O delírio que te há de matar!...”.– O que nós temos é uma safra de corruptos e corrompidos.– Verdade! Sujeito assim safado mereceria “ser das gentes o espectro execrado”. O tal “Ouro branco! Ouro preto! Ouro podre” corrompeu muito político. “De cada ribeirão trepidante e de cada recosto/ de montanha, o metal rolou na cascalhada/ Para o fausto d’El-Rei”. Que vergonha!– É! Mas, certamente, esse não é o “Ouro nativo que na ganga impura/ A bruta mina entre os cascalhos vela...”.
– Sei lá! O que mais nos reserva a Lava-Jato?– Veja só, cara! Ouvindo os noticiários, tenho a impressão que o assalto do vampiro tem mais equidade: “– Cê vem com a gente. É uma loja. Nós roubamos e dividimos o dinheiro. Em partes iguais”– Então, ainda há o que cantar neste país?– Claro! Vai o legado das Olimpíadas e das Paralimpíadas: “Entre o laboratório de erros/ e o labirinto de surpresas,/ canta o conhecimento do limite,/ a madura experiência a brotar da rota esperança”.
Assinale a alternativa INCORRETA, considerando os poemas originais de onde os versos foram extraídos.
58DD5455-AF Literatura
Escolas LiteráriasUNIOESTE · 2016MédioEntre para guardar nos favoritosInstrução: para responder a questão, leia o texto abaixo.De ficção e realidade: diálogo possível– Literatura é fuga do real, cara! Veja o Brasil que temos: propina, tráfico de influência, delações, politicalha, trapaças...– Quem disse que a Literatura não tem os pés fincados na realidade? Para o momento brasileiro, valem os versos: “Começa o mundo enfim pela ignorância,/ e tem qualquer dos bens por natureza”.– Que bens? A rifa das licitações? O propinoduto?– É isso mesmo, cara! Diferente do fantasma romântico, parece que o dinheiro virou uma “febre que nunca descansa,/ O delírio que te há de matar!...”.– O que nós temos é uma safra de corruptos e corrompidos.– Verdade! Sujeito assim safado mereceria “ser das gentes o espectro execrado”. O tal “Ouro branco! Ouro preto! Ouro podre” corrompeu muito político. “De cada ribeirão trepidante e de cada recosto/ de montanha, o metal rolou na cascalhada/ Para o fausto d’El-Rei”. Que vergonha!– É! Mas, certamente, esse não é o “Ouro nativo que na ganga impura/ A bruta mina entre os cascalhos vela...”.
– Sei lá! O que mais nos reserva a Lava-Jato?– Veja só, cara! Ouvindo os noticiários, tenho a impressão que o assalto do vampiro tem mais equidade: “– Cê vem com a gente. É uma loja. Nós roubamos e dividimos o dinheiro. Em partes iguais”– Então, ainda há o que cantar neste país?– Claro! Vai o legado das Olimpíadas e das Paralimpíadas: “Entre o laboratório de erros/ e o labirinto de surpresas,/ canta o conhecimento do limite,/ a madura experiência a brotar da rota esperança”.Com base na leitura do texto, assinale a alternativa INCORRETA.
96B8C16D-31 Literatura
Escolas LiteráriasENEM · 2016MédioEntre para guardar nos favoritosEstas palavras ecoavam docemente pelos atentos ouvidos de Guaraciaba, e lhe ressoavam n’alma como um hino celestial. Ela sentia-se ao mesmo tempo enternecida e ufana por ouvir aquele altivo e indómito guerreiro pronunciar a seus pés palavras do mais submisso e mavioso amor, e respondeu-lhe cheia de emoção: — Itajiba, tuas falas são mais doces para minha alma que os favos da jataí, ou o suco delicioso do abacaxi. Elas fazem-me palpitar o coração como a flor que estremece ao bafejo perfumado das brisas da manhã. Tu me amas, bem o sei, e o amor que te consagro também não é para ti nenhum segredo, embora meus lábios não o tenham revelado. A flor, mesmo nas trevas, se trai pelo seu perfume; a fonte do deserto, escondida entre os rochedos, se revela por seu murmúrio ao caminhante sequioso. Desde os primeiros momentos tu viste meu coração abrir-se para ti, como a flor do manacá aos primeiros raios do sol.
GUIMARÃES, B. O ermitão de Muquém. Disponível em: www.dominiopublico.gov.br. Acesso em: 7 out. 2015.
O texto de Bernardo Guimarães é representativo da estética romântica. Entre as marcas textuais que evidenciam a filiação a esse movimento literário está em destaque a
2272B4BF-30 Literatura
Escolas LiteráriasPUC - Campinas · 2016MédioEntre para guardar nos favoritosA regra de proporção é um princípio da pintura cujo equivalente, na literatura, estaria no cuidado do escritor em manter os aspectos naturais das pessoas e coisas que descreve com fidedignidade. Essa é uma das preocupações de um autor como6E2C38A8-1D Literatura
Escolas LiteráriasUNICAMP · 2016MédioEntre para guardar nos favoritosO romance Memórias póstumas de Brás Cubas é considerado um divisor de águas tanto na obra de Machado de Assis quanto na literatura brasileira do século XIX. Indique a alternativa em que todas as características mencionadas podem ser adequadamente atribuídas ao romance em questão.52EEE24A-D6 Literatura
Escolas LiteráriasPUC - RS · 2016MédioEntre para guardar nos favoritosLeia o excerto do romance Intermitências da Morte, de José Saramago, e analise as afirmativas.No dia seguinte ninguém morreu. O facto, por absolutamente contrário às normas da vida, causou nos espíritos uma perturbação enorme, efeito em todos os aspectos justificado, basta que nos lembremos de que não havia notícia nos quarenta volumes da história universal, nem ao menos um caso para amostra, de ter alguma vez ocorrido fenómeno semelhante, passar-se um dia completo, com todas as suas pródigas vinte e quatro horas, contadas entre diurnas e nocturnas, matutinas e vespertinas, sem que tivesse sucedido um falecimento por doença, uma queda mortal, um suicídio levado a bom fim, nada de nada, pela palavra nada. Nem sequer um daqueles acidentes de automóvel tão frequentes em ocasiões festivas, quando a alegre irresponsabilidade e o excesso de álcool se desafiam mutuamente nas estradas para decidir sobre quem vai conseguir chegar à morte em primeiro lugar.I. A partir de uma situação fantástica, a inexistência de mortes é vista como um fato inquietante.II. Conforme o texto, podemos inferir que adoentados em estado grave foram salvos da morte, libertando-se de seu sofrimento.III. O estilo do autor é marcado pela oscilação entre a narrativa de um fato e o comentário dissertativo sobre ele.A(s) afirmativa(s) correta(s) é/são, apenas,52EB72C9-D6 Literatura
Escolas LiteráriasPUC - RS · 2016MédioEntre para guardar nos favoritosLeia o poema As mortes sucessivas, de Adélia Prado, e analise as afirmativas.Quando minha irmã morreu eu chorei muitoe me consolei depressa. Tinha um vestido novoe moitas no quintal onde eu ia existir.Quando minha mãe morreuMe consolei mais lento.Tinha uma perturbação recém-achada:meus seios conformavam dois montículose eu fiquei muito nua,cruzando os braços sobre eles é que eu chorava.Quando meu pai morreuNunca mais me consolei.Busquei retratos antigos, procurei conhecidos,parentes, que me lembrassem sua fala,seu modo de apertar os lábios e ter certeza.Reproduzi o encolhido do seu corpoem seu último sono e repeti as palavrasque ele disse quando toquei seus pés:´deixa, tá bom assim´.Quem me consolará desta lembrança?Meus seios se cumprirame as moitas onde existosão pura sarça ardente de memória.I. O poema apresenta um eu lírico que busca uma aprendizagem frente à morte.II. As transformações do corpo do eu lírico evidenciam uma sucessão de perdas, enfrentadas desde a juventude.III. A lembrança do pai é representada como ferida dolorosa que não tranquiliza o sentimento de falta.A(s) afirmativa(s) correta(s) é/são52E88B61-D6 Literatura
Escolas LiteráriasPUC - RS · 2016DifícilEntre para guardar nos favoritosLeia o trecho da crônica A morte da Velhinha de Taubaté, de Luís Fernando Veríssimo, e analise as considerações que seguem, preenchendo os parênteses com V (verdadeiro) ou F (falso).“Morreu no último dia 19, aos 90 anos de idade, de causa ignorada, a paulista conhecida como “a Velhinha de Taubaté”, que se tornou uma celebridade nacional há alguns anos por ser a última pessoa no Brasil que ainda acreditava no governo. (...)As circunstâncias da morte da Velhinha de Taubaté ainda não estão esclarecidas. Sua sobrinha Suzette, que tem uma agência de acompanhantes de congressistas em Brasília embora a Velhinha acreditasse que ela fazia trabalho social com religiosas, informou que a Velhinha já tivera um pequeno acidente vascular ao saber da compra de votos para a reeleição do Fernando Henrique Cardoso, em quem ela acreditava muito, mas ficara satisfeita com as explicações e se recuperara.Segundo Suzette, ela estava acompanhando as CPIs, comentara a sinceridade e o espírito público de todos os componentes das comissões, nenhum dos quais estava fazendo política, e de todos os depoentes, e acreditava que, como todos estavam dizendo a verdade, a crise acabaria logo, mas ultimamente começara a dar sinais de desânimo e, para grande surpresa da sobrinha, descrença.A Velhinha acreditara em Lula desde o começo e até rebatizara o seu gato, que agora se chamava Zé. Acreditava principalmente no Palocci. Ela morreu na frente da televisão, talvez com o choque de alguma notícia. Mas a polícia mandou os restos do chá que a Velhinha estava tomando com bolinhos de polvilho para exame de laboratório. Pode ter sido suicídio.( ) A crônica constrói-se por meio da crítica bemhumorada do autor à corrupção generalizada da classe política.( ) O autor explora, nesse texto, a linguagem típica da notícia de jornal para apresentar a realidade brasileira de forma caricaturesca.( ) A profissão de Suzette na crônica é apresentada de modo direto, sem eufemismos.( ) FHC, Lula e Palocci são personagens reais a partir dos quais a fé da Velhinha na política se consolida.( ) Luís Fernando Veríssimo é um autor que, em seus textos, explora outros gêneros textuais, como a notícia, o conto, o diálogo, a poesia.A sequência correta de preenchimento dos parênteses, de cima para baixo, é
52E575E8-D6 Literatura
Escolas LiteráriasPUC - RS · 2016MédioEntre para guardar nos favoritos_________, no conto Venha ver o pôr do sol, narra uma história de _________ a partir do encontro de um casal de antigos amantes, em que, ao fim, a personagem feminina é _________52E27211-D6 Literatura
Escolas LiteráriasPUC - RS · 2016MédioEntre para guardar nos favoritosLeia os excertos do conto Uma vela para Dario, de Dalton Trevisan, e analise as afirmativas sobre o texto.Dario vinha apressado, guarda-chuva no braço esquerdo e, assim que dobrou a esquina, diminuiu o passo até parar, encostando-se à parede de uma casa. Por ela escorregando, sentou-se na calçada, ainda úmida de chuva, e descansou na pedra o cachimbo. (...)Ele reclinou-se mais um pouco, estendido agora na calçada, e o cachimbo tinha apagado. O rapaz de bigode pediu aos outros que se afastassem e o deixassem respirar. Abriu-lhe o paletó, o colarinho, a gravata e a cinta. Quando lhe retiraram os sapatos, Dario roncou feio e bolhas de espuma surgiram no canto da boca. Cada pessoa que chegava erguia-se na ponta dos pés, embora não o pudesse ver. Os moradores da rua conversavam de uma porta à outra, as crianças foram despertadas e de pijama acudiram à janela. O senhor gordo repetia que Dario sentara-se na calçada, soprando ainda a fumaça do cachimbo e encostando o guarda-chuva na parede. Mas não se via guarda-chuva ou cachimbo ao seu lado.(....)A última boca repetiu – Ele morreu, ele morreu. A gente começou a se dispersar. Dario levara duas horas para morrer, ninguém acreditou que estivesse no fim. Agora, aos que podiam vê-lo, tinha todo o ar de um defunto. Um senhor piedoso despiu o paletó de Dario para lhe sustentar a cabeça. Cruzou as suas mãos no peito. Não pôde fechar os olhos nem a boca, onde a espuma tinha desaparecido. Apenas um homem morto e a multidão se espalhou, as mesas do café ficaram vazias. Na janela alguns moradores com almofadas para descansar os cotovelos. Um menino de cor e descalço veio com uma vela, que acendeu ao lado do cadáver. Parecia morto há muitos anos, quase o retrato de um morto desbotado pela chuva. Fecharam-se uma a uma as janelas e, três horas depois, lá estava Dario à espera do rabecão. A cabeça agora na pedra, sem o paletó e o dedo sem a aliança. A vela tinha queimado até a metade e apagou-se às primeiras gotas da chuva, que voltava a cair.I. O conto retrata a perversa fascinação diante da morte de um passante.II. Dario, ao longo do texto, é privado não só de seus bens materiais, como também de seu nome próprio, sendo referido, ao final, apenas como um morto.III. O personagem, embora enfrente o completo desamparo, recebe uma espécie de cumplicidade e apiedamento de um habitante urbano em situação de fragilidade social.A(s) afirmativa(s) correta(s) é/são52D97C6C-D6 Literatura
Escolas LiteráriasPUC - RS · 2016MédioEntre para guardar nos favoritosLeia o poema A meu pai morto, de Augusto dos Anjos, e analise as afirmativas.Podre meu Pai! A Morte o olhar lhe vidra.Em seus lábios que os meus lábios osculamMicrorganismos fúnebres pululamNuma fermentação gorda de cidra.Duras leis as que os homens e a hórrida hidraA uma só lei biológica vinculam,E a marcha das moléculas regulam,Com a invariabilidade da clepsidra!...Podre meu Pai! E a mão que enchi de beijosRoída toda de bichos, como os queijosSobre a mesa de orgíacos festins!...Amo meu Pai na atômica desordemEntre as bocas necrófagas que o mordemE a terra infecta que lhe cobre os rins!I. As estrofes que começam por “Podre meu Pai!” reiteram a ideia de que, por trás da Morte, há a presença de bichos e microrganismos cuja função é servir à lei biológica, que conduz todo ser vivo ao seu fim e à dissolução.II. O poema, por ser um soneto, contrasta com a produção de Augusto dos Anjos, em geral marcada pela presença de versos livres e pela renovação formal.III. O uso de vocabulário científico, transformado em linguagem poética pelo autor, é percebido na poesia de Augusto dos Anjos.A(s) afirmativa(s) correta(s) é/são